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Gênero e Sexualidade Opinião

As Mulheres nas Eleições 2020: Uma mirada desde Santarém para outras partes do Mundo (Part 1)

Estados Unidos: Rashida Tlaib e Kamala Harris

19/08/2020 10h58 Atualizada há 10 meses
Por: Carla Ramos Munzanzu Fonte: Carla Ramos Munzanzu
Rashida Tlaib (Fonte:(@RashidaTlaib) | Twitter
Rashida Tlaib (Fonte:(@RashidaTlaib) | Twitter

A realização das eleições 2020 para as câmaras municipais e prefeituras de todo o país encontram um ambiente inédito e determinante: a pandemia da Covid-19. Não bastasse as disputas políticas já marcadas por um panorama complicado de profundo dissenso, a sociedade brasileira está fraturada em muitos pedaços, e a compreensão mais detida desses pontos de “fratura”, digamos assim, é o alvo de qualquer analista atualmente. Uma estratégia que vou adotar nessa série de artigos que inauguramos hoje, é de puxar outros contextos sociais e políticos fora do Brasil, para instigar alguns pontos de observação que podem nos abrir boas interpretações, assim espero. Dentro das limitações que qualquer movimento de comparação nos coloca, eu vou arriscar aqui alguns apontamentos.

No início deste mês de agosto, Rashida Tlaib[1] venceu as primárias eleitorais do Partido Democrata, no estado do Michigan, para a Casa dos Representantes, algo equivalente a nossa Câmara dos Deputados aqui no Brasil. A advogada de ascendência palestina (Palestine American), nascida na cidade de Detroit, mostrou a força da sua candidatura, cuja trajetória política mais recente está ligada ao movimento que ficou conhecido como “Onda Azul” (Blue Wave), ou até mesmo como “Blue Tsunami Azul” (Blue Tsunami), em alusão direta ao efeito avassalador causado por este fenômeno natural.

Kamala Harris (Foto: Uol)

A cor “azul” identifica o Partido Democrata nos Estados Unidos, e o tal do “efeito tsunami” foi a metáfora que muitos analistas políticos, nos Estados Unidos, utilizam para descreverem os efeitos das eleições (midterm elections) para a casa dos Representantes, em 2018. Esse pleito foi marcado por muitas vitórias expressivas de candidatos Democratas por todo o país, inclusive em redutos tradicionalmente dominados pelos Republicanos. Um desses casos eloquentes foi o bom desempenho do candidato democrata Beto O’Rouker, que por pouco não desbancou o domínio republicano do Senador Ted Cruz, no estado do Texas, conhecido como um dos redutos mais fortemente conservadores nos Estados Unidos. 

Mas não foi só isso, as eleições de 2018 promoveram a ascensão de algumas candidaturas mais à “esquerda”, dentro de ambos os partidos, Democrata e Republicano, como foi o caso mesmo de Rashida Tlaib. Entendam as dificuldades de “versão” quando eu falo “esquerda” para sublinhar algumas tendências dentro desses dois partidos, no entanto, as pautas dessas candidaturas e seus mandatos articulam um discurso político alinhado à uma perspectiva crítica sobre as profundas desigualdades sociais que assolam os Estados Unidos, apontando caminhos para sua possível superação num momento futuro.  

A força dessa “onda azul”, a cor identifica o Partido Democrata nos Estados Unidos, liderada por um grupo de candidaturas de mulheres e minorias à Câmara estadunidense de representantes é explicada como uma reação popular a recente eleição de Donald Trump em 2017, e ascensão de sua agenda política baseada numa ideia de sociedade estadunidense com valores fortemente racistas, supremacistas, sexistas e classistas. Estes ideários estavam bem traduzidos no seu lema de campanha: “Make America Great Again” (algo como “Fazer a América Grande Novamente”), slogan historicamente ligado aos grupos supremacistas brancos daquele país, e que tinha sido utilizado largamente na campanha de Ronald Reagan, ainda na década de 1980.       

Rashida Tlaib, a primeira mulher de ascendência palestina a ser conduzida à câmara dos representantes, não estava sozinha, com ela estavam ao menos três outras mulheres, Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Pressley e Ilhan Omar, que trazem nos seus corpos e trajetórias os símbolos de tudo, ou quase tudo, a que o governo de Donald Trump se dedica a vulnerabilizar e perseguir: mulheres negras e de cor, e os segmentos de imigrantes das classes trabalhadoras. As candidaturas e consequentemente os mandatos desse “squad” de mulheres colocaram no vocabulário do mainstream político estadunidense, ao menos com mais intensidade e incidência, pautas dedicadas aos direitos da “classe trabalhadora”, a superação das desigualdades de gênero, ao anti-racismo, de mudança da matriz energética, sobre a necessidade de um sistema público de saúde e de educação superior, além de outras variações dessas frentes de luta.

No último dia 13 de agosto, a ex-procuradora e senadora pelo estado da Califórnia, Kamala Harris foi indicada pelo Partido Democrata para compor a chapa do presidenciável Joe Biden. Kamala é uma mulher negra, filha de mãe Indiana e de Pai Jamaicano, e guardadas as ressalvas necessárias, chega para dar um toque de maior complexidade e contrapor o discurso racista, misógino, de perseguição aos imigrantes e separatista, que foi acirrado ao longo dos quatro anos de governo de Donald Trump (2017-2020). Na noite do dia 17 de agosto, o primeiro dia da convenção do Partido Democrata, o lema utilizado para a festa de apresentação da chapa que vai concorrer à presidência  (Biden-Harris) foi a frase de preâmbulo da constituição estadunidense: “We the People[2]”, algo como “Nós, povo dos Estados Unidos da América.” A batalha semiótica está lançada, vejamos como o debate sobre os temas estruturais vai acontecer até o dia 3 de novembro, quando as cartas, ou melhor os votos, vão mostrar quais ventos e tempestades vão marcar a paisagem política estadunidense nos anos seguintes a esta corrida eleitoral que tem sido considerada por muitos como a mais importante da história daquele país.    



[1] Para saber mais informações sobre o mandado de Rashida Tlaib ver o site: https://tlaib.house.gov/about

[2] “We the People of the United States, in Order to form a more perfect Union, establish Justice, insure domestic Tranquility, provide for the common defence, promote the general Welfare, and secure the Blessings of Liberty to ourselves and our Posterity, do ordain and establish this Constitution for the United States of America.” (Fonte: https://constitutioncenter.org/interactive-constitution/preamble)

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