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Educação Opinião

Intelectualidade da Amazônia: daqui saem grandes referências

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21/08/2020 17h12
Por: Beatriz Martins Moura Fonte: Beatriz Martins Moura
Foto: imagem da internet
Foto: imagem da internet

Na última semana tive a oportunidade de acompanhar uma cerimônia de colação de grau de estudantes do curso de Antropologia da Universidade Federal do Oeste do Pará. O momento foi especialmente emocionante, apesar de estarmos fisicamente distantes. Algumas pessoas que formavam eu conheci quando estava também na graduação, outras tive o prazer de debater os trabalhos de conclusão de curso nas suas bancas de defesa e outras ainda vi eventualmente pelos corredores da universidade.

Naquela oportunidade estiveram presentes, para citar alguns nomes apenas, pois a sala virtual chegou a ter setenta pessoas, a professora titular do Instituto de Ciências da Sociedade ICS/UFOPA e ex-reitora Raimunda Monteiro, a coordenadora do curso de Antropologia prof. PhD Carla Ramos Munzanzu e a antropóloga e liderança indígena Luana Kumaruara, além de outros nomes importantes da Universidade, professoras, familiares e estudantes. Luana, a primeira mulher indígena formada em Antropologia pela UFOPA, homenageada como nome do Centro Acadêmico do curso, fez uma breve fala em que, ao parabenizar as estudantes que estavam colando grau, provocou a todas nós ali naquela sala: Que tipo de antropologia nós queremos?

Essa pergunta que Luana Kumaruara levantou me fez pensar em outra questão que considero crucial: De onde vem a antropologia, ou os conhecimentos que queremos? Não raro passamos boa parte dos nossos percursos acadêmicos, seja em que área for referenciando e aprendendo a partir de uma bibliografia calcada em um olhar branco, masculino, do norte global, ou do centro-sul do Brasil. Essa bibliografia, posta como universal quase nunca diz respeito a modos de elaboração do mundo e dos conhecimentos conectados conosco e com nossas realidades. Fiquei pensando na potência representada por aquelas estudantes que estavam formando, uma potência negra e indígena, uma potência feminina, das periferias, das comunidades de terreiro, comunidades ribeirinhas, e quilombolas, reflexo do perfil de estudantes que essa universidade tem e que a faz tão rica. Os conhecimentos que produzimos aqui impactam cada dia mais diretamente os cânones, são leituras de mundo a partir dos nossos lugares, conhecimentos que, forjados de onde viemos, questionam lugares postos.

Que lugares são esses? O lugar de objetos de pesquisa, de uma região que ainda é vista como aquela para onde os pesquisadores vão, nunca de onde eles vêm, como já disse muito bem minha colega Telma Bemerguy (2019). A universidade (criada no REUNI, em 2010, é importante que se diga) nos muniu da possibilidade de contrapor essa visão, pondo no centro os conhecimentos que trazemos conosco de nossas casas, nossas comunidades. Direta ou indiretamente, com nossas produções ou nossas presenças cada vez maiores nos espaços das universidades Brasil e mundo a fora, temos produzidos ruídos, rupturas e deslocamentos.

Há umas semanas tenho me dedicado nas horas vagas à leitura do livro da professora Zélia Amador de Deus, para produção de uma pequena resenha juntamente com uma amiga, a antropóloga Zane do Nascimento, do coletivo de estudantes negras/os do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social/UnB. Ao conhecer o trabalho da professora Zélia fiquei absolutamente mobilizada pela profundidade, atualidade, e força dos seus textos, tão precisos na leitura da realidade negra da Amazônia e do Brasil. Professora Zélia, assim como Luana Kumaruara e como eu é antropóloga, nortista, ou amazônida, se assim queremos. Reivindicamos a cada dia nosso lugar como produtoras de conhecimento, como referências que desde aqui enunciamos, produzimos pesquisas, reflexões, elaboramos nossas ideias. É preciso que se diga, daqui saem grandes referências, é preciso que se reconheça e disso não abrimos mais mão.

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