Sábado, 15 de Junho de 2024
Gênero e Sexualidade Maternidade

Mulheres-mães precisam de mais apoio para permanecerem no espaço acadêmico

Mulheres-mães que são pesquisadoras têm necessidade de mais tolerância e incentivo financeiro dentro de instituições de ensino superior para manterem produtividade científica.

22/09/2023 às 12h07 Atualizada em 10/02/2024 às 00h12
Por: Fernanda Lima Fonte: Tapajós de Fato
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Mulher-mãe, pesquisadora, mestranda da Ufopa e seu filho de 1 aninho / Foto: arquivo pessoal
Mulher-mãe, pesquisadora, mestranda da Ufopa e seu filho de 1 aninho / Foto: arquivo pessoal

Nos últimos anos, tem sido crescente a ocupação feminina em espaços que, historicamente, eram restritos aos homens. As universidades, por exemplo, que eram reservadas a eles, hoje, contam com maioria feminina. Desde o Censo do Ensino Superior de 2010, elas já são mais de 50% da população acadêmica do Brasil. Entretanto, quando essa mulher é mãe, esse ambiente pode se tornar hostil e sexista, um lugar em que preconceitos e intolerâncias tentam superar a competência técnica, em que o público e o democrático dão espaço para interesses particulares, como se a maternidade fosse sinônimo de improdutividade, o que não condiz com a realidade de fato.

 

A professora Dra. Silvia Cristina Barros de Souza Hall, que falou ao Tapajós de Fato, é mãe de uma garotinha de três anos e é bastante atuante na Universidade Federal do Oeste do Pará. Ela é docente na graduação e na pós-graduação, vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Letras (PPGL), coordenadora do Programa de iniciação à docência (Pibid inglês), orientadora de diversos trabalhos de conclusão de curso e de dissertações de mestrado, etc. Ainda assim, percebe julgamentos a respeito do ser mãe pesquisadora.

 

A professora diz que há certo silenciamento das pesquisadoras que entram de licença-maternidade. Ela também comentou a respeito da lei 14.681/23 que foi sancionada na última segunda (18), a qual trata da criação da Política de bem-estar, saúde e qualidade de vida no trabalho e da valorização do profissional da educação e considera que “seria muito bom se olhassem as mães nesses espaços [as universidades] porque é uma contradição muito grande: espera-se que a mulher seja mãe para provar o seu valor; mas, quando ela é mãe, ela é vista como alguém não tão valorosa assim, principalmente, no mercado de trabalho”. Ela avalia que a mulher sempre sai perdendo, pois, na visão dos outros, se não é mãe, é incompleta, pelo fato de ser mãe “a gente é vista como profissional descartável, porque não vai estar produzindo o suficiente”, comentou a docente que, além de tudo, ainda é corredora amadora e treina três vezes por semana.

 

Mesmo que as mulheres tenham chegado às universidades e deem conta das atividades acadêmicas, elas permanecem sendo cobradas pela sociedade como as únicas responsáveis pelas tarefas domésticas e pelos cuidados com os filhos. Na verdade, o ensino superior lhes acrescentou atividades. Em muitos casos, elas se sentem pressionadas e, desse modo, envolvidas em um dilema: o lar ou a (pós) graduação? Os dois. É possível, sim. Basta que as oportunidades também visem ao atendimento às demandas das mulheres-mães, grupo que tem se mostrado capaz diante dos desafios, dos empecilhos que lhe são impostos diversas vezes pela inflexibilidade de quem é gestor.

 

Sobre isso, a professora Silvia diz que “na academia somos constantemente cobrados para produzir intelectualmente, seja publicando artigos, lançando livros. Mas se esquecem que, enquanto mães, estamos engajadas em algo muito maior, a formação de seres humanos. Principalmente, quando são pequenos, o nosso tempo e energia não é o mesmo. É isso que muitos não entendem. Criar uma mulher nesse mundo sexista e misógino exige muito. Por outro lado, o estar acadêmica também me faz feliz; por isso, vamos tentando conciliar sem muita culpa”.

 

Para concluir, a doutora manda um recado: “Alguns podem pensar ‘ah, mas você escolheu ter filhos’. Para essas pessoas eu deixo uma reflexão: por que essa mesma pergunta jamais foi feita a um pai, por exemplo? Simples, um pai só pode ser um excelente e atuante acadêmico porque há uma mãe para segurar as pontas”.

 

Professora Dra. Silvia Cristina Barros de Souza Hall e sua filha Olívia / Foto: arquivo pessoal.

 

Enfim, é notório que o ambiente acadêmico, na estrutura em que se apresenta, é um espaço pouco ou nada acolhedor para o ingresso e para a permanência de mulheres-mães na universidade, dadas as atividades, os prazos e a falta de recursos que circundam o universo dessas mulheres que têm múltiplas demandas, que vão além das obrigações acadêmicas.

 

A elas foram atribuídas responsabilidades de gestar, criar, cuidar e educar os futuros sujeitos que serão entregues ao tato do convívio social. Dessa maneira, vale colocar em discussão o que a socióloga especialista na abordagem de trabalho e de gênero Helena Sumiko Hirata diz: “a formação das mulheres baseava-se em prepará-las para o casamento, a maternidade e o lar, incentivando a permanência destas na esfera privada já, aos homens cabiam as funções públicas, de trabalho e ocupação de cargos políticos e sociais, fatos que contribuíam para o fortalecimento e manutenção das desigualdades de gênero já existentes”.  Nessa perspectiva, as instituições de ensino superior como um todo copiaram essa “atribuição” ao público feminino, esquecendo que vivemos um momento de mudança de paradigma.

 

O grande número de mulheres universitárias, muitas das quais são mães, revela que é preciso fazer diferente do que tem sido feito por meio de mudanças importantes para poder permitir a participação das mulheres no ensino superior. Se a universidade está para servir ao cidadão, e não o contrário, é necessário adaptar o espaço acadêmico às condições do seu público; logo, é preciso prever condições para a manutenção das mulheres-mães no ensino superior.

 

Ações favoráveis às mães-pesquisadoras

 

Em 2016, surgiu o Parent in Science com o fito de provocar a sociedade e o meio acadêmico para discutir parentalidade dentro das universidades e do meio científico. Havia uma lacuna quanto a dados sobre uma questão fundamental: o impacto dos filhos na carreira científica das mães pesquisadoras. O grupo tem pioneirismo em promover seminários e palestras que tratem do assunto. Foram dezenas de cidades por todo o Brasil alcançadas por esses eventos, que influenciaram as práticas das universidades, de modo que essas instituições passaram a pensar ações voltadas às mulheres-mães pesquisadoras.

 

Em 2021, a fim de reduzir os impactos da pandemia de covid-19, a Universidade de São Paulo (USP) promoveu o Programa Mãe e Pai Pesquisadores, destinado aos bolsistas dos programas de pós-graduação em licença maternidade, paternidade e adoção. Com a iniciativa, a Universidade tornou-se a primeira instituição de ensino e pesquisa do país em que as estudantes mães recebem seis meses de licença-maternidade remunerada e os estudantes pais, um mês de licença-paternidade remunerada. O benefício foi resultado de uma parceria entre Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG) da USP e o Escritório USP Mulheres. O recurso suplementa as bolsas concedidas pelas agências de fomento (Capes, CNPq e Fapesp) dos pesquisadores que se tornaram mães e pais.

 

Em setembro do ano passado, a Universidade Federal Fluminense (UFF) inaugurou uma Sala de Apoio às Mães, um espaço de acolhimento de estudantes que exercem a maternidade e que necessitam de suporte para a continuidade nos estudos. No local, elas podem amamentar seus filhos, alimentá-los, trocar fraldas e ainda descansar durante o turno de estudos.

 

E o movimento de pensar as mulheres-mães pesquisadoras chega à Santarém

 

A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) começou uma pesquisa para identificar acadêmicas que sejam mães. Isso é resultado de incentivos financeiros de órgãos de fomento à pesquisa como a Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará (Fapespa), que prevê em seus editais 5 mil reais de apoio para a montagem de espaço recreativo em eventos acadêmicos. Esse lugar deve ser destinado ao desenvolvimento de atividades lúdicas e socioeducativas direcionadas às crianças cujos pais estarão participando direta ou indiretamente da apresentação de trabalhos em seminários ou em congressos.

 

Mulheres-mães indígenas e pesquisadoras em debate

 

As universidades hão de oportunizar mais lugar na pesquisa, no fazer ciência para mulheres-mães pesquisadoras, para que elas possam emprestar o seu olhar diferenciado incluindo o lugar de fala delas, de vivência delas, o qual não só beneficiará aos seus próprios filhos, mas também, devolverão compreensão de mundo melhor também à academia. A sociedade como um todo ganhará com as contribuições científicas delas.

 

Quando se incentiva a entrada e a permanência das mulheres-mães na universidade, também se abre um exemplo real para outras tantas que desistiram da ideia de estarem ou de permanecerem na jornada universitária quando tiveram filhos, pois teriam que ultrapassar todos os desafios que a lida da maternidade e da academia lhes apresentaria. Essas mulheres-mães pesquisadoras serão representantes vivas da força e da presença feminina na academia.

 

Professora doutoranda Luanna Arapiun: mulher-mãe, indígena e pesquisadora / Foto: arquivo pessoal

 

Luanna Arapiun, doutoranda em Educação na Amazônia pelo PGEDA e professora na Formação Acadêmica Indígena (FAIN), compartilhou com o Tapajós de Fato como é ocupar esse espaço de poder, sendo mulher, mãe de uma menina, que, assim como a mãe, terá a chance de se tornar futura pesquisadora. Luanna disse, que sua rotina da lida acadêmica só foi e continua sendo possível, por conta de ela ter conseguido uma rede de apoio e, desde a graduação, acesso ao incentivo financeiro governamental (bolsa-permanência). Ela problematiza ainda sobre as mulheres que não contam com rede de apoio e, tampouco, com recursos para permanecerem estudando, levando-as a ‘trancar’ ou até a desistir dos seus cursos. De maneira geral, conhecemos alguma mulher – amiga, parenta, alunas – passando por esta situação dentro das universidades, porque não falamos mais sobre isso?

 

A pesquisadora relembra um grande desafio na graduação e na pós-graduação: “Eu estava pesquisando dentro da aldeia sobre biblioteca, leitura. E durante todo esse tempo, especificamente, os dois anos de mestrado, eu levava a minha filha para dentro da aldeia; então, mensalmente, ela ia comigo fazer pesquisa (...). Eu tenho um companheiro e todo tempo ele pediu para ficar [com a bebê], mas a gente sabe que, no fim das contas, nos primeiros anos da criança, há um apego maior com a mãe, e isso acaba demandando tempo, muita energia e, consequentemente, desgaste. Não podemos romantizar esse processo”.

 

Ela frisa ainda que “se a gente está pensando, de fato, nas mulheres que no decorrer da academia viram mães, precisamos pensar formas de permanência diferenciadas para essas mulheres; espaços, editais, tempo(...). O que mais me incomoda é que, embora haja um número significativo de mulheres nas universidades – sejam alunas, sejam servidoras –, pouco tem sido debatido sobre o assunto”. Ela fala que os homens devem participar das discussões, mas, a participação, as decisões, as proposições voltadas para mulheres devem, inquestionavelmente, ser pensadas por mulheres, sobretudo, a partir das diversas realidades que permeiam a universidade.

 

A professora Luanna está mobilizando rodas de conversa com mulheres indígenas para que se discuta a situação atual da mulher indígena na universidade, a maternidade, pesquisa e as condições objetivas e subjetivas, já que não há como pesquisar e estudar sem recursos. Segundo ela, “nós temos muitas demandas, mas precisamos nos fortalecer e organizar para que as demandas e desafios sejam visíveis, para que elas possam ser materializadas”. O objetivo do grupo de mulheres é, inicialmente, escutar e pensar formas de dar visibilidade a esses desafios, ampliar o debate e o fortalecimento à permanência materna.

 

A academia precisa possibilitar que essas mulheres-mães se tornem sujeitos que fazem ciência. Isso também é favorecer a inclusão e a devolução do que lhes foi negado por muito tempo:  a dignidade de ter uma sociedade que acolhe e que pensa políticas públicas afirmativas para o fortalecimento da luta e para o surgimento e cumprimento de leis que oportunizam mais ingressos e a permanência de mulheres-mães nesse espaço de poder.

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