Sábado, 15 de Junho de 2024
Território Cartilha

Justiça Climática Pelo Bem Viver: a construção coletiva da cartilha a partir dos moradores do quilombo de Murumuru

A cartilha Justiça Climática Pelo Bem Viver conta sobre a história e as mudanças do quilombo de Murumuru através da visão de moradores, com ênfase nas mudanças climáticas. Um projeto do Tapajós de Fato em parceria com as populações tradicionais da região.

10/10/2023 às 15h56 Atualizada em 10/10/2023 às 16h07
Por: Damilly Yared Fonte: Tapajós de Fato
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Foto: Tapajós de Fato
Foto: Tapajós de Fato

A cartilha Justiça Climática Pelo Bem Viver, que possui três edições, entre elas a edição que fala do quilombo de Murumuru, foi construída pela equipe do Tapajós de Fato em parceria com a Federação das Organizações Quilombolas de Santarém, no quilombo de Murumuru. O quilombo está localizado na região do planalto, no município de Santarém, no oeste do estado do Pará, tendo seu acesso por via terrestre, pela PA - 370 (Curuá-una), que dá acesso a diversas comunidades quilombolas, ou através de rabetas, pelo rio Maicá.

A cartilha Justiça Climática pelo Bem Viver terá sua entrega realizada no quilombo de Murumuru no mês de outubro, pela equipe do Tapajós de Fato, na escola da comunidade para crianças e adolescentes e toda a comunidade. Esta cartilha foi uma construção coletiva, a equipe do Tapajós de Fato ouviu alguns moradores e lideranças do quilombo, que fizeram com que fosse possível criar a cartilha, a partir da visão de cada um sobre o território.

Os moradores fizeram primeiro um resgate da história do quilombo, do seu reconhecimento, que apesar de uma existência longa, o reconhecimento do território como quilombo é recente, são apenas 20 anos. Mas a história de luta e resistência do seu povo já faz 182 anos, e é um  território que preserva suas raízes culturais e históricas, além de lutar pela conquista de seus direitos territoriais e sociais, mantêm práticas tradicionais de agricultura, pesca, cultura e outras atividades que refletem seus modos de vida ancestrais.

Foto: Tapajós de Fato

A cartilha traz ainda dois personagens centrais para contar a história do quilombo e de seus modos de vida, João Pacu e Dona Lucinda, que são pessoas que vivem na comunidade e falam sobre as mudanças significativas tanto da paisagem, quanto dos modos de vida e cultural, e como isso se transformou ao longo dos anos diante de seus olhos.

As transformações socioculturais e ambientais, por exemplo, ocorreram no território sob efeito das mudanças climáticas e também do apagamento da identidade cultural do quilombo através da colonização das igrejas.

As histórias são contadas e comentadas por João Pacu, que resgatou um pouco do que eram os cordões de pássaro [cuja a origem é desconhecida, porém, pesquisas apontam que surgiu no século XIX, entre escravizados em rodas de capoeira e carimbó], uma apresentação que mobilizou antigamente toda a comunidade para fazer grandes festivais e apresentações, o que atualmente já não acontece mais.

Dentro da cartilha será possível observar a riqueza dos detalhes das histórias, desde a cultura até o modo de vida atual e como isso foi mudando e a comunidade se moldando com o passar do tempo.

 

Abordando mudanças climáticas

A construção coletiva da cartilha no território buscou principalmente evidenciar as mudanças climáticas, que foram significativas, e como cada personagem veio passando por elas ao longo da sua história e, como o quilombo vem enfrentando isso.

Foto: Tapajós de Fato

 

As mudanças climáticas, por exemplo, além da alteração na paisagem natural do quilombo, afetaram as produções de açaí, que já foi tema de grandes festivais do território, não apenas o açaí ficou escasso como também o pescado.

Desta forma, a abordagem sobre a mudança climática no território de Murumuru através da linguagem lúdica e educativa da cartilha, buscou também jogar luz sobre esse tema diante da visão dos povos tradicionais, que são os primeiros impactados por essas mudanças, e para retratar isso a história contada por Dona Lucinda, coordenadora da Z-20, aborda como essas mudanças foram ocorrendo com o passar dos anos - “Há anos atrás, não tinha como armazenar o pescado e a pesca era praticada todos os dias, tinha peixe para dar para o vizinho, peixe salgado, peixe fresco, e todos tinham. Era muito farto [...] a gente podia escolher o peixe que queria comer, hoje em dia não dá para escolher, outro dia meu marido passou o dia inteiro pescando e trouxe apenas três peixes numa sacolinha de açúcar.  A minha geração e a segunda geração ainda estão comendo peixe, a geração dos meus netos e bisnetos eu não sei mais se vai comer peixe, porque a tendência é acabar, a seca tá vindo, o lago que nunca tinha secado, agora seca, e o peixe vai embora”.

O foco em mudanças climáticas dentro dos territórios, serve principalmente para alertar a população sobre os processos que as comunidades tradicionais vêm enfrentando ao longo dos anos, é uma forma de sensibilizar a própria população do território, além de mobilizar organizações parceiras para ajudar a mitigar as problemáticas que essa população enfrenta com foco em mudanças climáticas.

Foto: Tapajós de Fato

A subsistência dessas comunidades, atualmente, passam pelo processo de entendimento de como mitigar os efeitos das mudanças do clima, através disso, o Tapajós de Fato que é um veículo de comunicação popular, independente e alternativo, parceiro das organizações presentes dentros dos territórios, usa a cartilha “Justiça Climática Pelo Bem Viver” como uma ferramenta de informação do território para o território, além de estendê-la para o restante da população através do link, para que todos os leitores possam acompanhar um pouco mais da realidade das comunidades tradicionais através do acesso à cartilha.

As histórias abordadas nesta matéria fazem parte da cartilha Justiça Climática Pelo Bem Viver - Território de Murumuru, e dentro dela você encontrará essas e outras histórias.

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