Sábado, 15 de Junho de 2024
Reportagem Especial Agroecologia

A agroecologia como ferramenta de mudança para garantir um futuro mais saudável

A agroecologia ajuda na preservação da Amazônia por envolver práticas sustentáveis.

26/10/2023 às 15h29 Atualizada em 26/10/2023 às 17h26
Por: Fernanda Lima Fonte: Tapajós de Fato
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Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

A cada dia, os noticiários nos assustam com informações a respeito de calamidades decorrentes da seca. São rios que secam, peixes e cetáceos que morrem, cidades que decretam situação de emergência, comunidades que ficam isoladas e, consequentemente, desabastecidas. A estiagem tem sido severa, mas a esperança de um futuro mais digno e menos calamitoso ainda persiste por meio de iniciativas sustentáveis de manejo da terra: as ações agroecológicas.

O que é agroecologia?
Agroecologia é uma forma de agricultura sustentável que está pautada em sistemas agrícolas que incorporam as questões sociais, políticas, culturais, energéticas, ambientais e éticas, incluindo a agricultura familiar. No contexto atual, ela é uma abordagem necessária para lidar com os problemas socioambientais e políticos decorrentes do atual modelo econômico. Ela propõe uma revisão dos métodos convencionais de agricultura em larga escala, que devasta grandes áreas e que é responsável por boa parte do que se está passando nestes tempos de seca extrema, baixa umidade do ar e longos períodos sem chuvas.
Consoante às pesquisas de Luís Carlos Pinheiro Machado, doutor em Agronomia e autor do livro “Dialética da Agroecologia”, a produção agroecológica tem capacidade para produzir cerca de 6% a 10% a mais do que o agronegócio, sendo mais limpa e mais barata.

Membros da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais / Foto: Ana Cecília de Moura Costa

A base da agroecologia é a integração entre conhecimentos científicos e tradicionais, reunindo diversas fontes de conhecimento, como o saber popular e tradicional transmitido de geração para geração por agricultores familiares, povos indígenas e camponeses, promovendo uma agricultura que seja ambientalmente sustentável, economicamente eficiente e socialmente justa. Além disso, esse sistema busca aliar o respeito aos processos naturais, à preservação da biodiversidade, ao uso responsável dos recursos naturais e à valorização das comunidades rurais, garantindo sua autonomia e segurança alimentar.

A agroecologia, assim, opõe-se à produção centrada na monocultura, na dependência de insumos químicos, na alta mecanização da agricultura, no latifúndio (a concentração da propriedade de terras produtivas nas mãos de poucos), na exploração do trabalhador rural e no consumo não local da produção. (Fonte: ecycle.com.br)

Ações agroecológicas locais de mulheres trabalhadoras rurais

Trabalhadoras rurais / Foto: Ana Cecília de Moura Costa

O Tapajós de Fato conversou com Ana Cecília de Moura Costa, diretora social da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Santarém. Ela defende a ideia de que a agroecologia seja uma intervenção capaz de minimizar os impactos das mudanças climáticas aqui na nossa região, porque a agroecologia na vertente da produção rural familiar respeita muito o uso do solo e os corpos d’água, uma vez que evita o uso de produtos que poluem, como defensivos agrícolas.

Produtos de origem na agricultura familiar / Foto: Ana Cecília de Moura Costa

Ela fala ainda do trabalho preventivo das mulheres trabalhadoras rurais nos seus quintais agroecológicos, as quais “estão nessa luta há bastante tempo, defendendo a agroecologia, defendendo o bem viver, defendendo o protagonismo feminino em toda essa questão. A mulher tem um papel muito importante na defesa do território, na defesa da agroecologia e também é uma questão agora que está todo mundo, né?, correndo atrás de uma alternativa. Como se pode remediar [a crise climática]? (...) Como se pode minimizar [a elevação de temperatura]? (...) com a permanência no território, com a permanência de práticas culturais que não ofendem a natureza, alternando novas práticas [de manejo da terra], associando técnicas tradicionais a técnicas inovadoras”.

Produtores na Feira Agroecológica de Produção Familiar na Ufopa / Foto: Ana Cecília de Moura Costa

Ana ressalta que as associadas estão bem espalhadas – umas no Eixo-Forte, outras no Arapixuna, outras no Ituqui, na várzea, etc. –, mas todas defendem que os princípios da agroecologia são base para uma agricultura sustentável. Segundo Ana, a bioagroecologia e a diversidade de plantas e árvores ajudam na manutenção do clima da região, mas as mulheres responsáveis pela aplicação de ideias agroecológica precisam que a sociedade e autoridades estejam fortalecendo essas mulheres dando-lhes condições de produzir de forma agroecológica e, portanto, mais sustentável.

O trabalho de conscientização e de orientação tem sido realizado pela campanha “Climou”, que tem a participação de coletivos de mulheres e que leva às comunidades o conhecimento necessário sobre justiça climática e sobre práticas sustentáveis agroecológicas como a agricultura de produção familiar.

Feira agroecológica da produção familiar no Campus Tapajós da Ufopa

Em 2016, nasceu a Feira da Agricultura Familiar como uma ação do Projeto Incubadora de Empreendimentos Econômicos Solidários da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). O coordenador do projeto é o professor Luiz Gonzaga Feijão da Silva, que conversou com o Tapajós de Fato sobre a feira e sobre os produtores que expõem e que comercializam seus produtos nela.

O professor disse que “dentro desse projeto, o nosso trabalho com os agricultores familiares, principalmente, de Mojuí dos Campos, nós identificamos essa necessidade de auxiliar eles a inserir a produção deles num circuito de comercialização que fosse o mais próximo possível dos consumidores. Então, com o apoio, inicialmente, muito grande, do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Mojuí dos Campos, mas também com o apoio do Sindicato [dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais] de Santarém e de outras organizações [com] que a incubadora já trabalhava, nós propomos a realização dessa feira dentro da universidade ainda ali na sede, que antes ficava lá na Mendonça Furtado, e, assim, a gente começou a fazer a feira uma vez por mês com o auxílio da universidade no sentido de bancar o transporte dos produtores e dos produtos e, depois, já com certa autonomia dos produtores em relação a esses custos, a feira passou a ser uma feira presencial e semanal [em todas as quintas-feiras], que só passou por uma breve interrupção durante a pandemia, mas que, desde 2016, faz parte do cotidiano da universidade, faz parte do cotidiano das redondezas da universidade e é um projeto de relevância e que contribui muito tanto para o aprendizado dos alunos, dos professores, como também para a inserção e para a aproximação da universidade com a comunidade, seja de produtores, seja de consumidores”.

Luiz Gonzaga destaca a inclusão e a diversidade dos produtores que, pela vivência, já têm práticas sustentáveis e já dominam, em graus diferentes, assuntos voltados para as questões sociais e ambientais, o que é uma condição desejada para que o produtor participe da feira, mas não é determinante. Mesmo aqueles que não possuem essas práticas são inseridos na feira, já que ela pretende também desenvolver uma “mudança de hábitos; portanto, critérios de produção, de comercialização, política, meio ambiente são assuntos que cotidianamente nós debatemos, nós conversamos por diversos canais. E esses pontos (...) acabam convergindo para pautas que vão valorizar a diversidade e a inclusão de grupos ou setores da sociedade que socialmente são marginalizados. Então, estão na nossa base de produção e de comercialização, na feira, pessoas que fazem parte de grupos de mulheres, agroextrativistas, indígenas, movimentos urbanos e periurbanos, movimentos agroecológicos e já tivemos uma participação muito presente de associações de orgânicos. Então, todos esses agentes, pelas reivindicações que eles realizam no seu cotidiano, na sua vivência, para se firmar e para assegurar que a sociedade reconheça a sua existência e reconheça a sua importância, acabam por ter o desenvolvimento desse debate ambiental e social (...). Então, desde 2016, nós ofertamos e promovemos uma série de oficinas que vão transitar por temas e por debates que acabam fortalecendo essa responsabilidade socioambiental da feira”, o que, naturalmente, gera nos produtores o desejo do uso práticas agroecológicas.

O professor acredita que a realização de intercâmbios entre os produtores é importante, pois essa interação gera transformação e, para ele, “o fio condutor dessa transformação nós estamos apostando que é a agroecologia”, que tem sido uma pauta cada vez mais importante no contexto de defesa do meio ambiente em que a feira está inserida. Dessa forma, os feirantes também decidiram que estava sendo incoerente o uso de sacolas plásticas e, desde o dia 12 de outubro, os produtos vendidos têm sido levados pelos consumidores em sacolas retornáveis, o que gerou oportunidade para produtoras de sacolas [ecobag]. Vale destacar que as embalagens plásticas têm sido um dos principais desafios de quem luta em defesa do meio ambiente.

Se você quiser saber mais sobre a feira, ouça o primeiro episódio do podcast Não Abra Mão da Sua Terra clicando no aqui

É necessário, portanto, retornar ao uso equilibrado dos recursos naturais, com que a MÃE-NATUREZA nos tem presenteado, mantendo um tratamento respeitoso à diversidade da floresta para que ela se mantenha autossustentável de modo que ela continue nos servindo de proteção, de fornecedora de animais e de vegetais que ajudem na nossa sobrevivência e de reguladora de temperatura, combatendo naturalmente as mudanças climáticas.

 

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