Sábado, 15 de Junho de 2024
Gênero e Sexualidade Maternidade

Maternidade e Militância: mães-solo universitárias e os desafios para militar e maternar na universidade

Ingrid Ohandra, conta os desafios de conciliar a militância no movimento estudantil, a maternidade e a universidade.

14/11/2023 às 20h44 Atualizada em 10/02/2024 às 00h54
Por: Damilly Yared Fonte: Tapajós de Fato
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Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

A maternidade é a construção social com a raiz mais fincada em nosso meio, é através do mito do “amor materno” que a sociedade coloca mulheres em situações desafiadoras e não lhes dar qualquer condição [na maioria das vezes] de permanecer em diversos espaços, seja ele trabalho, universidade, militância e até mesmo espaços de lazer. 

Se ser mulher no país em que somos maioria [e pouquíssimas políticas são pensadas para mulheres] já é difícil, ser mulher e mãe é ainda mais desafiador, mas, ser mulher, mãe e ousar estar na universidade, parece ser uma escada muito mais íngreme a ser subida.

A universidade que, por muito tempo foi um espaço elitizado, heteronormativo e masculino. Passou a ter a presença de mulheres apenas no século XIX [19] e no século XX [20], um espaço ainda bastante limitado. 

Claro que atualmente o acesso de mulheres na universidade é bastante amplo, mas o que não é debatido prioritariamente é como fazer com que as mulheres permaneçam nesses espaços, e principalmente se as universidades têm estrutura para receber mulheres mães, bem como os espaços de militância dentro da universidade.

Para as mães que estão na universidade o desafio vai de conciliar a rotina de estudos com a rotina de trabalho, e a rotina de estudo dos filhos, muitas vezes os espaços de representações estudantis não pensam a realidade dessas mulheres.

Mas, como encarar o desafio de estar na universidade, de ser mãe, ser militante dentro de um espaço que a própria militância acaba excluindo e colocando essas mulheres em situações de limitadoras, e acabam fazendo com que sua luta na universidade pareça cada vez mais solitária?

Para compreender um pouco dessa realidade e seus desafios, o Tapajós de Fato traz na série “maternidade e militância”, a trajetória de Ingrid Ohandra Bentes, 22 anos, estudante do Curso de Direito da Universidade Federal Oeste do Pará [UFOPA], militante do Coletivo dos Estudantes Com Deficiência Rodrigo Pantoja [CECD] e do Centro Acadêmico de Direito Vandria Borari (CAD Borari) e mãe do Amir.

Início da trajetória mãe-militante

Aos 12 anos, Ingrid Ohandra descobriu através de uma consulta junto com sua mãe que tinha uma cicatriz nos olhos, que poderia ter sido causada pela toxoplasmose, e essa condição não teria correção, assim ela precisaria se adaptar a sua situação.

Mais tarde, já com seus 16 anos, Ohandra estava no terceiro ano do ensino médio na Escola Diocesana São Francisco, pouco tempo após ter seu filho, quando foi ao colégio fazer uma prova de matemática, e acabou ouvindo de uma funcionária do colégio - “tu estudou para a prova? tu te lembras que tu tens um filho, e que teu filho depende de ti para ter um bom futuro, se tu não fizeres uma boa prova, como é que tu vai dar um futuro pro teu filho?” - causando na estudante um grande estresse, que fez com que aumentasse a pressão nos olhos, o que a fez ficar sem enxergar por um período, e quando a estudante recuperou a visão, recuperou apenas a visão do olho direito.

E a partir de então, a estudante passou a lutar dentro do ambiente escolar ainda por acessibilidade, pois sabia das dificuldades que enfrentaria, além de buscar conhecer mais sobre os direitos da pessoa com deficiência, e foi então que Ohandra entrou na universidade e conheceu o CECD, onde atua até os dias de hoje como coordenadora e militante PCD dentro e fora da universidade.

Foto: Acervo Pessoal/Ohandra

A universidade, a maternidade e a militância

Ingrid Ohandra ingressou na Ufopa no ano de 2020, quando seu filho completou um ano de vida, foi nessa época também que a estudante começou a trabalhar, e para conseguir dar conta dessa rotina pesada e exaustiva precisou contar com o apoio de sua mãe, que ficava com seu filho no período de 9h da manhã até às 16h, quando ela saía do trabalho para a universidade. Foi um período complicado para a jovem estudante que precisa conciliar trabalho, universidade e a criação do seu filho.

Até que Ohandra se deparou com a pandemia, onde tudo precisou ser fechado e ela ficou o período da pandemia todo dentro de casa cuidando do filho, o que ela relata ter sido um momento essencial, pois foi nessa época que seu filho recebeu o diagnóstico de autismo, e foi então que decidiu sair do trabalho para focar na maternidade e na universidade.

Quando as aulas voltaram de forma presencial, a estudante entrou no Centro Acadêmico de Direito (CAD Borari), onde ela relata ter sido um período difícil, pois a universidade acabava de voltar para o regime presencial e ela ainda estava se acostumando após um longo período de rotina em casa.

Foto: Acervo Pessoal/Ingrid Ohandra

Ao se ver envolvida na situação de participar do movimento dentro da universidade, a militante relatou que a cabeça deu um giro de 360º onde se viu questionando porque se colocou na situação de militar, até que percebeu que já fazia isso desde o seu ensino médio, de lutar por seus direitos dentro da escola, por acessibilidade.

Na volta das aulas pós-pandemia, ela passou por um período de readaptações, tanto sobre a universidade, mas também com o cuidado e a dedicação ao filho, precisando assim renunciar ao seu cargo dentro do centro acadêmico, pois a maioria das reuniões eram no período da manhã [onde precisava se dedicar ao cuidado de seu filho], e as reuniões e espaços de militância não eram pensados para mulheres que são mães e têm rotinas diferentes dentro da universidade, fazendo com que a estudante ficasse apenas no coletivo de estudantes com deficiência. 

Mesmo renunciando ao seu cargo, Ohandra permaneceu na luta dentro da Universidade, por acessibilidade, levando inclusive seu filho para a universidade para que conseguisse participar de alguns espaços na luta por uma universidade mais inclusiva.

A militante relata ainda que chegou a ser questionada por andar com seu filho nos espaços da universidade [enquanto lutava por seus direitos], mas quando parou para refletir, sobre a maternidade e seu espaço de luta disse, “meu filho faz parte da minha vida nesse período, e se ele está comigo desde o início, ele vai continuar”. Foi assim que Ohandra retornou para o centro acadêmico, mas pontuou aos colegas que o período da manhã seria destacado para cuidar do seu filho, assim só participaria de reuniões de forma remota.

Nessa caminhada dentro da universidade e da maternidade, outra experiência que Ingrid compartilhou foi sobre sua ida a campo, no qual a militante precisou levar seu filho, e conseguiu perceber que os professores dentro da universidade têm se tornado mais sensíveis e empáticos, entendendo que cada aluno tem uma particularidade na vida e a maternidade é uma.

Nesse momento em que Ingrid Ohandra segue para a finalização do seu curso, ela relatar ficar feliz quando vê outras mães nos corredores da universidade, pois sabe a dificuldade que é, e nesse momento onde precisa se dedicar ao Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), a estudante relata que o pensamento de desistir da universidade quando se é mãe acaba se multiplicando, e sabe que as mulheres mães na universidade lutam muito para permanecerem naquele espaço e não desistir por conciliar a tarefa de ser mãe e estudante, principalmente por ver o filho ficar cada vez mais em casa, enquanto precisa passar mais tempo na universidade.

A entrevistada se emociona ao lembrar que esse período tem sido um pouco mais difícil, por passar um período longo fora de casa, ela acaba vendo o filho apenas por um curto período, chegando em casa diversas vezes às 23h, e seu filho ainda está esperando acordado para vê-la, e mesmo com esse período mais intenso que está passando em relação à universidade, Ingrid Ohandra faz o possível para que sua manhã seja com o filho [o tempo que a entrevistada tem entre tantas tarefas] seja proveitoso, seja para montar brinquedo ou outra atividade, e reflete o quanto é importante que seus pares dentro da universidade saibam respeitar esse tempo e compreender que além do centro acadêmico, ela é mãe, e o apoio dentro do centro acadêmico se torna essencial para que ela permaneça nesse espaço.

Ser mãe, sem romantizar a maternidade

Embora a maternidade seja muito romantizada pela sociedade, como se a mulher tivesse nascido para exercer essa função sem o direito a sentir-se cansada, exausta, Ingrid Ohandra, conta como se sente diante da tarefa de ser mãe.

Ingrid relata que “é uma montanha-russa, tem dias em que é uma maravilha, mas tem dias, que meu Deus do céu” e lembra das mudanças que as mulheres passam durante a gestação e quando tornam-se mães, a exemplo das mudanças no corpo, a mudança de rotina ao ficar em casa ao invés de ir se divertir em uma noite, e lembra que não gostar dessas mudanças não a torna menos mãe, e reitera que “as pessoas não entendem que antes de a gente ser mãe, a gente é ser humano”.

Ohandra fala ainda sobre as renúncias que as mulheres fazem ao escolher a maternidade, “ela escolhe ser mãe, escolhe assumir a responsabilidade de criar e educar aquela criança, ela vai renunciar a muita coisa” - enfatiza a entrevistada.

A mãe, diz ainda que a maternidade está lhe mostrando a força que ela nem imaginava que tinha, seja a força de permanecer na universidade e lutar por um futuro melhor como as mães-solo espalhadas por todos os lugares. Ohandra enfatiza ainda: “não sou uma mãe perfeita. Muito longe de ser isso, mas nos olhos do meu filho, eu sou a mulher mais perfeita do mundo, sou uma super-heroína”

A caminhada na luta de Ingrid Ohandra se confunde com a de milhares de jovens espalhadas nas universidades pelo Brasil, é uma luta pelo direito de estudar, de permanecer e de ter políticas pensadas para que essas mulheres sigam dentro da universidades, pois a maioria das vezes, seja a universidade ou seja seus grupos de atuação não pensam no espaço para as mães, não pensam atividades em que uma mãe possa permanecer com o seu filho, Ohandra destaca que “se nós mães, não tivermos em cima, lutando, solicitando uma creche, por exemplo, um espaço para nossa criança ficar dentro da universidade, ninguém vai falar isso por nós, por nossas pautas, as outras pessoas não vão lembrar, porque têm suas pautas específicas para lutar” - finaliza Ingrid.

Foto: Acervo Pessoal

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