Sábado, 15 de Junho de 2024
Reportagem Especial Alternativa

Agroecologia em Santarém: indispensável, viável e sustentável

A agroecologia não apenas produz alimentos, mas também organiza a vida de forma mais equilibrada e permite que as comunidades tenham controle sobre a produção e acesso a alimentos saudáveis. Não basta produzir quantidade e sim qualidade

15/11/2023 às 16h40 Atualizada em 10/02/2024 às 00h53
Por: Fernanda Lima Fonte: Tapajós de Fato
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Rerodução da Internet
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Em tempos difíceis, em que as plantações têm sido castigadas pela seca e o uso de agrotóxicos tem ganhado aval do Congresso Nacional, é necessário buscar alternativas que garantam a segurança alimentar para a população. Nesse sentido, a agroecologia se faz indispensável, viável e sustentável.

A agroecologia é uma forma de agricultura sustentável que está pautada em sistemas agrícolas que incorporam as questões sociais, políticas, culturais, energéticas, ambientais e éticas, incluindo a agricultura familiar. No contexto atual, ela é uma abordagem necessária para lidar com os problemas socioambientais e políticos decorrentes do atual modelo econômico. Ela propõe uma revisão dos métodos convencionais de agricultura em larga escala, que devasta áreas colossais e que é responsável por boa parte do que se está passando nestes tempos de seca extrema, baixa umidade do ar e longos períodos sem chuvas.

Por tudo isso, a agroecologia é indispensável. Ela oferece exatamente aquilo do que a sociedade necessita. É viável porque propõe métodos de baixo custo, sendo aplicável, inclusive, na agricultura familiar, prática muito comum em nossa região. É sustentável porque os danos ao meio ambiente, quando há, são mínimos.

 

O DIFERENCIAL DA AGROECOLOGIA QUE A TORNA TÃO IMPORTANTE PARA O EQUILÍBRIO CLIMÁTICO DO PLANETA

Arquivo do IECOSOL

Conforme Tarcísio Maia, Mestre em Agroecologia e professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), “Não há dúvida que o impacto da mudança climática irá prejudicar cada vez mais à vida de muitas pessoas e famílias. As consequências nós já estamos sentido em termos de saúde, trabalho e renda, acesso aos recursos naturais, habitação, deslocamento e migrações forçadas e tantos outros mais. (...). Lamentavelmente, como aconteceu com a expressão desenvolvimento sustentável, é cada vez mais evidente a profunda confusão no uso do termo Agroecologia. Tal vulgarização começa a se tornar preocupante, gerando interpretações conceituais que estão longe de entender que se trata de um novo paradigma em construção, onde tem-se confundido a Agroecologia com um modelo de agricultura. Também é comum confundir Agroecologia com a simples adoção de determinadas práticas ou tecnologias agrícolas ambientalmente mais adequadas ou com uma agricultura que não usa agrotóxicos ou, simplesmente, com a substituição de insumos

. Por isso mesmo, é cada vez mais comum ouvirmos frases equivocadas do tipo: “existe mercado para a Agroecologia”; “a Agroecologia produz tanto quanto a agricultura convencional”; “a Agroecologia é menos rentável que a agricultura convencional”; “a Agroecologia é um novo modelo tecnológico”. Em algumas situações, chega-se a ouvir que, “agora, a Agroecologia é uma política pública”, “a Agroecologia é um movimento social” ou “vamos fazer uma feira de Agroecologia”. “Apesar da provável boa intenção do seu emprego, todas essas frases estão equivocadas, se entendermos a Agroecologia como um enfoque científico, como uma matriz disciplinar”. Na verdade, essas interpretações expressam um enorme reducionismo do significado mais amplo do termo Agroecologia, mascarando sua potencialidade para apoiar processos de desenvolvimento rural mais sustentáveis.

 Agroecologia, mais do que simplesmente tratar sobre o manejo ecologicamente responsável dos recursos naturais, constitui-se em um campo do conhecimento científico que, partindo de um enfoque mais abrangente, pretende contribuir para que as sociedades possam redirecionar o curso alterado da coevolução social e ecológica, nas suas mais diferentes inter-relações e mútua influência. Por isso, uma das diferenças fundamentais entre “agrônomos convencionais e agroecólogos é que estes últimos tendem a ser, de forma geral, metodologicamente mais pluralistas”. Já os científicos “não têm sido verdadeiramente capazes de ouvir o que os agricultores têm a dizer, porque as premissas filosóficas da ciência convencional não conferem legitimidade aos conhecimentos e às formas de aprendizagem dos agricultores” e, com isso, não são capazes de romper com a suposta superioridade da ciência convencional.

Agroecologia busca integrar os saberes históricos dos agricultores com os conhecimentos de diferentes ciências, permitindo, tanto a compreensão, análise e crítica do atual modelo do desenvolvimento e de agricultura, como o estabelecimento de novas estratégias para o desenvolvimento rural e novos desenhos de agriculturas mais sustentáveis, desde uma abordagem transdisciplinar, holística. Como exemplo, temos a ROMARIA DO BEM VIVER, que tem como Tema: “Água é bem comum, com a defesa dos territórios coletivos e proteção do bem comum”, evento muito importante que acontece na região da RESEX Tapajós-Arapiuns e no PAE Lago Grande, no município de Santarém/PA, reunindo famílias, agricultoras e agricultores, pescadoras e pescadores todas e todos juntos em busca do bem viver.”

 Instagram @romariadobemviver2023

O professor também empresta o que teoriza Sevilla Guzmán (2004), “os elementos centrais da Agroecologia podem ser agrupados em três dimensões: a) ecológica e técnicoagronômica; b) socioeconômica e cultural; e c) sócio-política. Estas dimensões não são isoladas. Na realidade concreta elas se entrecruzam, influem uma à outra, de modo que estudá-las, entendê-las e propor alternativas supõe, necessariamente, uma abordagem inter, multi e transdisciplinar, razão pela qual os agroecólogos e seus pares lançam mão de ensinamentos da Física, da Economia Ecológica e Ecologia Política, da Agronomia, da Ecologia, da Educação e Comunicação, da História, da Antropologia e da Sociologia, para ficarmos em alguns dos aportes dos diferentes campos de conhecimento.

A Agroecologia, segundo Morin (1999, p.33) identifica como do “pensar complexo”, em que “complexus significa o que é tecido junto”. O pensamento complexo é o pensamento que se esforça para unir, não na confusão, mas operando diferenciações. A Agroecologia, logo, não se limita no modelo convencional, cartesiano e reducionista, no paradigma da simplificação (disjunção ou redução), pois, como ensina Morin, este não consegue reconhecer a existência do problema da complexidade. E é disto que se trata, reconhecer que nas relações do homem com outros homens e destes com o meio ambiente, estamos tratando de algo que requer um novo enfoque paradigmático, capaz de unir os conhecimentos de diferentes disciplinas científicas, com os saberes tradicionais.

De uma forma geral, a Agroecologia é entendida, repetimos, como um enfoque científico destinado a apoiar a transição dos atuais modelos de desenvolvimento rural e de agricultura convencionais para estilos de desenvolvimento rural e de agriculturas mais sustentáveis (Caporal e Costabeber). Segundo Miguel Altieri, a Agroecologia constitui um enfoque teórico e metodológico que, lançando mão de diversas disciplinas científicas, pretende estudar a atividade agrária sob uma perspectiva ecológica. Sendo assim, a Agroecologia, a partir de um enfoque estruturado, organizado, adota o agroecossistema como unidade fundamental de análise, tendo como propósito, em última instância, proporcionar as bases científicas (princípios, conceitos e metodologias) necessárias para a implementação de agriculturas mais sustentáveis. Logo, mais do que uma disciplina específica, a Agroecologia se constitui num campo de conhecimento que reúne várias “reflexões teóricas e avanços científicos, oriundos de distintas disciplinas” que têm contribuído para conformar o seu atual corpus teórico e metodológico (Guzmán Casado et al., 2000: 81). Por outro lado, como nos ensina Gliessman (2000), o enfoque agroecológico pode ser definido como a aplicação dos princípios e conceitos da Ecologia no manejo e desenho de agroecossistemas mais sustentáveis.

Portanto, a adesão ao enfoque agroecológico não supõe pleitear ou defender uma nova “revolução modernizadora”, mas sim uma ação dialética transformadora, que parte do conhecimento local, respeitando e incorporando o saber popular e buscando integrá-lo com o conhecimento científico, para dar lugar à construção e expansão de novos saberes socioambientais, alimentando assim, permanentemente, o processo de transição agroecológica. Portanto, ao não se tratar de uma nova revolução, no enfoque agroecológico passa a ser central o conceito de transição e esta não é apenas e simplesmente buscar a substituição de insumos ou a diminuição do uso de agrotóxicos, mas de um processo capaz de implementar mudanças multilineares e graduais nas formas de manejo dos agroecossistemas. Isto é, buscar a superação de um modelo agroquímico e de monoculturas, que já se mostrou excludente e sócio-ambientalmente inadequado (ou outras formas de agricultura sócio-ambientalmente insustentáveis), por formas mais modernas de agriculturas que incorporem princípios e tecnologias de base ecológica.

Mais do que mudar práticas agrícolas, tratar-se de mudanças em um processo político, econômico e sócio-cultural, na medida em que a transição agroecológica implica não somente na busca de uma maior racionalização econômico-produtiva, com base nas especificidades biofísicas de cada agroecossistema, mas também de mudanças nas atitudes e valores dos atores sociais com respeito ao manejo e conservação dos recursos naturais e nas relações sociais entre os atores implicados. Então, quando se faz referência à Agroecologia está se tratando de uma orientação cujas contribuições vão mais além de aspectos meramente tecnológicos ou agronômicos da produção, incorporando dimensões mais amplas e complexas que aquelas das ciências agrárias chamadas de “puras”, pois incluem tanto variáveis econômicas, sociais e ambientais, como variáveis culturais, políticas e éticas da sustentabilidade(...). É preciso deixar claro que a Agroecologia não oferece, por exemplo, uma teoria sobre desenvolvimento rural, sobre metodologias participativas e, tampouco, sobre métodos para a construção e validação do conhecimento técnico. Mas essa ciência busca, principalmente, nos conhecimentos e experiências já acumuladas, ou através da Aprendizagem e Ação Participativa, por exemplo, um método de estudo e de intervenção que, ademais de manter coerência com suas bases do conhecimento humano, contribua na promoção das transformações sociais necessárias para gerar padrões de produção e consumo mais sustentáveis”. 

O QUE TORNA A AGROECOLOGIA VIÁVEL

 Arquivo do IECOSOL

 

O professor Tarcísio, em conversa com o Tapajós de fato, menciona a viabilidade da agroecologia. Para ele “A Agroecologia proporciona as bases científicas, para a promoção de estilos de agriculturas mais sustentáveis, tendo como um de seus eixos centrais a necessidade de produção de alimentos em quantidades adequadas e de elevada qualidade biológica para toda a sociedade, numa perspectiva que favorece a busca da Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável. Não se trata de apoiar agriculturas de nicho, mas de estabelecer estratégias capazes de impulsionar outros estilos de desenvolvimento rural de agriculturas mais sustentáveis, considerando as dimensões econômicas, sociais, ambientais, políticas, culturais e éticas da sustentabilidade. Para a professora da Universidade Federal de Viçosa, Irene Maria Cardoso, a agroecologia é sim capaz de alimentar o mundo.

Esse novo modelo, segundo ela, passa por cadeias curtas de comercialização, cortando diversos intermediários, além da valorização e utilização do saber tradicional, e não apenas o técnico. “É uma outra lógica. Antes, quem sabia tudo da agricultura eram os técnicos. Só que esses agricultores desenvolveram conhecimento na compreensão ecológica e cultural dos sistemas alimentares, porque quando eles manejam tem um componente cultural, não é só técnico.

 Esse componente cultural, de conhecimento dos processos e interações dos sistemas alimentares, foi desenvolvido em 10 mil anos. Como é que pode pegar esse conhecimento e jogar fora? Sem ele, a agroecologia não vai sustentar o mundo” e o fortalecimento da pauta da agroecologia passa pela parceria com a saúde coletiva. “A promoção da saúde é fundamental para se pensar em outro modelo de sociedade”. As feiras agroecológicas nas cidades seriam justamente os locais de construção deste novo modelo. “São espaços profundos de outro tipo de produção de conhecimento, de relação solidária, que resgatam também o processo de relação com as crianças modernas, que vão descobrir que o alimento não é algo que está nas prateleiras do supermercado, dentro de caixinhas coloridas. É preciso reencantar também a produção de alimentos no processo de produção de vida”, nos ensina a Profª Irene. Segundo ela, a feira é um espaço importante, porque se compra produtos que estão fora das prateleiras convencionais. “Os supermercados lucram bastante em relação ao produtor. As feiras têm o mecanismo de venda mais direta, sem intermediários”, diz. Ressalta que nas feiras existe ainda um processo cultural e político de interlocução entre consumidores e produtores, sobre como os produtos foram obtidos, a qualidade dos alimentos etc. “Há uma relação direta com os produtores muitas vezes de uma agricultura periurbana que é totalmente invisibilizada dentro da própria cidade”.

 

O PAPEL DA AGRICULTURA FAMILIAR PARA UMA SOCIEDADE QUE NECESSITA DE UMA PRODUÇÃO AGROECOLÓGICA E MAIS SUSTENTÁVEL

Como mencionado anteriormente, a agroecologia pode ser inserida na prática da agricultura familiar. A respeito disso, o professor comenta: “A agroecologia é uma alternativa à agricultura convencional.

Arquivo IECOSOL

 

Por meio dela a produção no campo é aliada à preservação dos recursos naturais e dos ecossistemas, de forma a promover o manejo sustentável com a valorização de sistemas orgânicos de cultivo e do conhecimento tradicional dos trabalhadores rurais a agroecologia surge como uma alternativa viável para a agricultura familiar, que busca, antes de tudo, condições para a manutenção da atividade e do grupo social através de um projeto de desenvolvimento sustentável. A agroecologia preserva o meio ambiente porque não utiliza agrotóxicos que matam os organismos vivos do solo, contaminam a água e que prejudicam também os seres vivos que compõem este ecossistema. “Como o nome já diz, a agricultura familiar envolve atividades agrícolas compartilhadas pela família e está ligada a diversas áreas do desenvolvimento rural. Uma característica marcante do setor é a produção diversificada que inclui produção agrícola, florestal, pesqueira, pastoril e aquícola.

 Hoje em dia, tanto os produtores quanto os consumidores têm mais consciência da importância de consumir alimentos saudáveis e livres de pesticidas e fertilizantes sintéticos. É por isso que a agricultura familiar agroecológica está ganhando mais espaço no mercado. A agroecologia é a ciência por trás da agricultura sustentável em todas as etapas de produção. Incentiva os produtores a fazer melhor uso dos bens e serviços da natureza, sem danificar esses recursos. Os métodos da agricultura familiar agroecológica não só fortalecem a resistência ecológica e econômica diante das atuais crises de clima, água e energia, mas também oferecem um caminho para o cultivo de alimentos mais saudáveis e que estejam ao alcance de todas das pessoas” (cf. em https://www.hfcarraro.com.br/agricultura-familiar-agroecologica). Segundo o ecoteólogo Leonardo Boff (2000, p. 20) a Pachamama está gritando, justamente por essa nova atitude ética que é o Cuidado com a Mãe Terra.

Na atual conjuntura socioambiental e econômica em que vivemos, sociedade essa das tecnologias e comunicação rápida, constata-se que esta é uma sociedade cada vez mais da solidão, do individualismo e da incomunicação. Parece contraditório, quando se tem a possibilidade de uma maior interação entre as pessoas e os demais seres vivos, devido às facilidades possibilitadas por meios das novas tecnologias, mas a realidade nos mostra o aumento da degradação ambiental, dos seres que habitam esse meio ambiente e, principalmente, a degradação do ser humano. Neste sentido, o teólogo Leonardo Boff em sua obra “Saber cuidar: Ética do humano - compaixão pela Terra” (1999), traz fundamental contribuição sobre o cuidado como chave do comportamento do ser humano para com os outros seres vivos, principalmente para com o planeta Terra, frente a um cenário de globalização, em seus aspectos negativos, por não favorecer o desenvolvimento de todos os seres vivos. Segundo Boff (1999, p.12), no cuidado identificamos os princípios, os valores e as atitudes que fazem da vida um bem-viver e das ações um reto agir, os quais não podem ser suprimidos e nem descartados. “O cuidado serve de crítica à nossa civilização agonizante e também de princípio inspirador de um novo paradigma de convivialidade” (BOFF, 1999, p.13). E qual é o nosso sonho? Boff (1999, p.13) diz que é vivermos nesse Planeta Terra, a nossa Casa Comum, onde valores estruturantes se produzirão ao redor do cuidado com todos os seres vivos, em especial com as pessoas, com as plantas, os animais, as paisagens e com a grande e generosa Mãe, a Terra. Por onde se olha, verificamos os sintomas que nos mostram as grandes devastações no planeta Terra e na humanidade, com um projeto de “crescimento” ilimitado, que sacrifica mais de dois terços da humanidade, esgota os recursos naturais da Terra e compromete o futuro das sucessoras gerações (BOFF, 1999, p. 17).

E qual será o limite de suporte do superorganismo Terra? Há possibilidades de salvamento? Leonardo Boff (1999, p.17) nos diz que iremos “percorrer um longo caminho de conversão dos nossos hábitos cotidianos e políticos, privados e públicos, culturais e espirituais”. Vivenciamos um crescente processo de degradação da nossa Casa Comum, o planeta Terra, confirmada pela crise atual em que estamos vivendo. Precisamos de um novo modelo de convivência que funde uma relação mais produtiva para com a Terra e inaugure um novo pacto social entre os povos no sentido de respeito e de preservação de tudo o que existe e vive. Só a partir desta mudança faz sentido pensar em alternativas que representem uma nova esperança (BOFF, 1999, p.17). O sinal mais evidente, que nos causa grande dor, é o efeito do descuido, do descaso e da total falta de cuidado para com a Casa Comum, a Terra, com destaque para o abandono com a vida, evidenciado pelo desaparecimento de mais da metade das espécies animais e vegetais atualmente existentes (BOFF, 1999, p.19). “Há um descuido e um descaso na salvaguarda de nossa Casa Comum, o planeta Terra. Solos são envenenados, ares são contaminados, águas são poluídas, florestas são dizimadas, espécies de seres vivos são exterminadas; …um princípio de autodestruição está em ação, capaz de liquidar o sutil equilíbrio físico-químico e ecológico do planeta e devastar a biosfera, pondo, assim, em risco a continuidade da espécie homo sapiens e demens” (BOFF, 1999, p.20).

É certo que existem indicações para um caminho que nos leve a respostas com outras visões de futuro para o planeta e para a humanidade. Elas não estão prontas e acabadas. Elas estão sendo constantemente gestadas no dia a dia daquelas e daqueles que ensaiam experiências exitosas significativas nos diversos lugares e situações do mundo atual. Muitos são os sujeitos dessas mudanças, que são orientados por um novo sentido de viver e de atuar, com um novo discernimento da realidade e por uma nova experiência do Ser, emergindo de uma caminhada coletiva, aparecendo um novo modelo de re-encantamento pela natureza e de compaixão por todos os seres vivos, especialmente os mais vulneráveis, inaugurando uma nova afetividade para com a vida e um sentimento de pertença amorosa à Mãe Terra (BOFF, 1999, pp.25-26). O que se contrapõe ao descuido e ao descaso é o Cuidado, que é uma atitude de responsabilidade e preocupação para com o outro ser, gerando diversas ações, tais como o cuidado material, pessoal, social, ecológico e espiritual para com a Casa Comum, a Terra. Conforme as palavras de Leonardo Boff (1999, p.34), “...O cuidado se encontra na raiz primeira do ser humano, antes que ele faça qualquer coisa. […] Significa reconhecer o cuidado como um ‘modo de ser’ essencial, sempre presente e irredutível à outra realidade anterior. É uma dimensão originária, impossível de ser totalmente desvirtuada. […] O ‘modo de ser’ cuidado revela de maneira concreta como é o ser humano”. Segundo Boff (1999, p.35), sem o cuidado, ele deixa de ser humano, acabando por prejudicar a si mesmo, destruindo tudo o que está ao seu redor. Por isso, a importância do cuidado, que deve estar presente em todas as nossas ações. O ser humano é um ser de cuidado, sua essência se encontra no cuidado. Nós somos cuidado, que está na constituição do ser humano. Sem o cuidado, deixamos de ser humanos, pois o cuidado está contido “a tudo o que o ser humano empreende, projeta e faz.

O cuidado é o fundamento para qualquer interpretação do ser humano” (BOFF, 1999, p.35). “Esse é o modo que poderá impedir ou minimizar a devastação da nossa mãe Terra e todos os seres que nela habitam. Esse é o jeito de ser que resgata a nossa humanidade mais essencial” (BOFF 1999, p.103). Cuidado significa desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção, bom trato... atitude fundamental, de um modo de ser mediante o qual a pessoa sai de si e centra-se no outro com desvelo e solicitude, […] provocando preocupação, inquietação e sentido de responsabilidade (BOFF, 1999, p.91), atitude desenvolvida ao longo da história e presente na agricultura.”

MULHERES SANTARENAS: PROTAGONISTAS NA AGROECOLOGIA 

Arquivo Tapajós de Fato

 

Marta Campos, presidente da Associação Municipal de Trabalhadoras Rurais (AMTR), falou ao Tapajós de Fato sobre a participação das mulheres santarenas em atividades agroecológicas: “Quando nós mulheres começamos a falar, a participar de seminários e a praticar Agroecologia era a esperança que brotava nas nossas vidas. Agroecologia é a diversificação das culturas, na integração entre agricultura e natureza e na promoção de práticas sustentáveis.

A agroecologia não apenas produz alimentos, mas também organiza a vida de forma mais equilibrada e permite que as comunidades tenham controle sobre a produção e acesso a alimentos saudáveis. Não basta produzir quantidade e sim qualidade. Além disso, a agroecologia é a esperança de excluir o agrotóxico da nossa mesa. Comer alimentos saudáveis e viver bem e praticando AGROECOLOGIA”.

Ouça a entrevista pelo  podcast  Não Abra Mão da Sua Terra.

 

 

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