Sábado, 15 de Junho de 2024
Cultura Denúncia

Anfiteatro Joaquim Toscano: descaso do poder público é uma ameaça ao legado cultural do espaço

Construído em 1980 carregando o nome do multiartista Joaquim Toscano, o anfiteatro localizado na praça Barão de Santarém escancara o descaso da gestão municipal com a cultura santarena.

11/01/2024 às 15h45
Por: Damilly Yared Fonte: Tapajós de Fato
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Foto: Damilly Yared - TdF
Foto: Damilly Yared - TdF

O anfiteatro Joaquim Toscano, que fica localizado na praça Barão de Santarém, ou como é popularmente conhecida, Praça São Sebastião, foi construído na década de 80, ficando por trás do Centro Cultural João Fona.

Um ponto turístico para quem passa por Santarém, e pouco aproveitado por quem reside na cidade, o espaço do anfiteatro nunca foi valorizado como deveria, tendo inclusive sua última reforma no ano de 2011, no governo de Simão Jatene, onde era apontado que o anfiteatro ganharia até camarim climatizado, atualmente, o lugar recebe apenas uma pintura para encobrir a sua deterioração.

Mesmo com baixo investimento do poder público, o espaço é tomado pelos nichos de cultura urbana, é comum por exemplo, ao passar pela praça Barão de Santarém, presenciar grupos urbanos ensaiando em cima do palco, e ao final do ano de 2023, o anfiteatro recebeu a Cantata de Natal, da escola de artes Emir Bemerguy, mostrando que tem potencial para ser um um espaço melhor aproveitado pelos fazedores de cultura da cidade.

Foto: Reprodução Portal Santarém / Cantata de Natal da escola de artes Emir Bemerguy

O anfiteatro também já foi palco de muitas lutas pela cidade, tendo sido sede do Acampamento Terra Livre no ano de 2022, organizado pelo CITA, e concentração ou encerramento de muitas manifestações que ocorreram na cidade, como Grito dos Excluídos, Ele Não e manifestações contra o aumento da passagem no transporte público.

O descaso com o anfiteatro

A equipe do Tapajós de Fato recebeu a denúncia e foi até o local verificar as condições em que se encontra o anfiteatro, e infelizmente, o que foi encontrado não corresponde com o tamanho da importância que a construção histórica tem para o município de Santarém.

Ao chegar no local, é possível observar os grafites de artistas locais que foram feitos com o intuito de valorização da cultural local, bem como o grafite de dy_kayapó e Norah que traz a mensagem crítica do voto pela educação, mas, apesar das intervenções artísticas nas paredes do anfiteatro, a realidade da sua estrutura é outra.

O local está em estado de abandono pelo poder público, com um odor forte de fezes humanas encontradas na parte interna do anfiteatro, além da destruição das grades na parte posterior e acúmulo de lixo no local, servindo de moradia para a infestação de ratos, baratas e até mesmo atentando contra a segurança pública, uma vez a iluminação do local ao anoitecer também é precária.

Foto: Damilly Yared/Tapajós de Fato

O que deveria ser um camarim representa o abandono do poder público local, que deveria zelar pela preservação desse patrimônio histórico e cultural da cidade.

Foto: Damilly Yared/Tapajós de Fato

E para entender a importância histórica do anfiteatro Joaquim Toscano para o município, o Tapajós de Fato conversou com Francisco Vera Paz, que é escritor, dramaturgo, poeta, narrador de histórias, artista plástico, pesquisador e professor com 25 anos de trajetória no movimento cultural de Santarém-PA e região, tendo seus trabalhos voltados às questões amazônicas com atenção especial para as culturas originárias e demais matrizes de expressão popular.

O dramaturgo faz um resgate de quem foi Joaquim Toscano, que se notabilizou pelos seus múltiplos talentos, onde era um cantor muito requisitado, que animava festas de carnavais, serestas populares, além de ser um tenor lírico, apreciador de óperas italianas. O artista Joaquim Toscano pertenceu a geração de artistas que preparou o caminho para gerações como a do Maestro Isoca (Wilson Fonseca), Bemerguy e outros nomes que são referências na cultura santarena do século 20.

Francisco Vera Paz destaca que “o anfiteatro é um marcador cultural da memória santarena, e também um aparelho cultural em que a população vivencia o seu direito de ter acesso aos produtos culturais que estão em circulação na cidade”, o artista ainda destaca que o espaço contribui para renda, economia, projeção da imagem no contexto regional e fora dele, acreditando que por isso, é um espaço que precisa de cuidados.

O professor enfatizou também que o espaço do anfiteatro é utilizado pelo próprio governo municipal, pela população e produtores culturais para demandas imediatas, pois as vezes a percepção é que ele é apenas um palco, quando na verdade, o espaço conta com uma grande estrutura, de camarim, de concentração de artistas, de túneis com passagem de material e para passagem de pessoas, escadaria, o que permite que ele seja utilizado não apenas de forma imediata, mas também como um espaço de atividades formativas, de gestão. Não sendo apenas um palco para apresentações.

Há 13 anos o anfiteatro não recebe reformas, e a utilização de sua estrutura em sua totalidade não acontece, o descaso com a cultura santarena está escancarado em praça pública, para que toda a população veja o quanto a gestão municipal se importa. Não há qualquer projeto para a restauração e o uso do anfiteatro.

"Um povo sem arte e sem cultura é um povo que não existe", um templo de homenagem à história do grande artista Joaquim Toscano deveria ter mais valorização, afinal, é a cultura que reverbera a memória da arte em Santarém.

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