Sábado, 15 de Junho de 2024
Cultura Artesanato

Trançados do Arapiuns: a importância do artesanato na memória coletiva e saberes ancestrais para comunidades

“A importância na minha visão do artesanato para a região do Arapiuns, é a valorização da Cultura que os nossos ancestrais deixaram para nós”, afirma a artesã Luziete da Silva.

01/03/2024 às 12h31 Atualizada em 04/04/2024 às 14h42
Por: Thaís Oliveira Fonte: Tapajós de Fato
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Foto reprodução da internet
Foto reprodução da internet

A Associação de Artesãos e Artesãs das comunidades de Vista Alegre, Nova Pedreira e Coroca - Trançados do Arapiuns(AARTA), surgiu em 2004 com um grupo de 10 mulheres que buscavam através do artesanato da fibra do tucumã encontar uma possibilidade de geração de emprego e renda sustentável. Mas a associação formalizou-se legalmente somente em 2006 com 22 pessoas das três comunidades citadas acima, com o objetivo de fortalecer o trabalho dos artistas e fazer com que os produtos fossem valorizados no mercado.

Trançados é uma referência ao trabalho artesanal de trançar as palhas do tucumanzeiro, palmeira nativa da amazônica, de onde se tira a fibra para fazer o artesanato.  

Arapiuns se refere ao nome do rio que margeia as comunidades naquela região. O rio para as pessoas é fonte de vida, de sustento e que interliga uma comunidade a outra.

“Então de 2006 para cá, a associação foi crescendo e aos poucos mesmo com as dificuldades a gente conseguiu parcerias com o SEBRAE que colaborou com oficinas e  cursos de design de acabamento de boa qualidade, de venda  e valorização do trabalho. Com isso, a associação foi crescendo e tivemos  a oportunidade de ganhar três vezes o prêmio Top 100, promovido pelo SEBRAE”, conta Luziete da Silva, artesã e sócia fundadora da AARTA.

Com o crescimento da associação, sentiu-se a necessidade de expandir e abranger outras comunidades, para que elas também pudessem ter fonte de renda e valorização de seus trabalhos. Com isso, atualmente fazem parte da AARTA, as comunidades de Vista Alegre, Nova Pedreira, Coroca, Vila Brasil, Tucumã, São Miguel, Vila Gorete e Nova Sociedade, todas se localizam na região do Arapiuns. No momento somam-se 140 associados, artesãos e artesãs que transformam a fibra da palha do tucumã em lindas mandalas, cestos, bolsas, utensílios domésticos e outras variedades, todos produzidos manualmente e pintados com tintas naturais feitos de raízes, folhas e frutos que dão aquele retoque colorido. Além desses produtos, os artistas confeccionam biojoias feitas de sementes e látex.

A comercialização desses produtos ocorre diretamente em Coroca, a comunidade dispõe uma loja de artesanato, e os principais clientes são os turistas que vão até a comunidade conhecer as riquezas naturais e culturais do local. É vendido também para outras cidades e comunidades, mediante encomendas.  

Da palha de tucumã ao artesanato

Foto reprodução da internet

Antes de ser transformada em artesanato, a fibra da palha do tucumã passa por vários processos, que vão desde sua retirada das árvores até os produtos prontos, todos feitos manualmente, com muita dedicação e amor. 

Segundo os artesãos, os passos são: primeiro, tem que retirar a guia do tucumanzeiro na mata e remover os espinhos, colocar para secar ao sol durante 3 dias, sendo na última noite passada no sereno, para ficar clara e macia.

As tintas são feitas de plantas, folhas, frutos, cascas e raízes que são cozidas junto com a fibra para tingi-las. Com jenipapo fazem fazem o preto, crajiru o vermelho, capiranga o bordô, urucum o laranja, com a raiz do açafrão fazem amarelo e da mistura do jenipapo com açafrão fazem os tons de verde.

Depois de todo esse processo iniciam-se às produções, arquitetadas ancestralmente, recordando os modos tradicionais artesanalmente, com grafismos simbólicos.

Histórico da comunidade de Coroca

Foto: Marlon Rebello

Coroca é uma comunidade tradicional e antiga com mais de cem anos de existência, localiza-se à margem esquerda do rio Arapiuns, no projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) da Gleba Lago Grande. Esse tipo de assentamento é considerado “diferenciado”, pois, quando criado já havia pessoas morando no local.

O nome “Coroca” foi escolhido pelos primeiros moradores, pois as pessoas se referiam ao lugar, como “lago das Corocas”, esse nome remete ao pássaro Anu-Coroca que se juntavam todo fim de tarde em um lago na comunidade para cantarolar, hoje é o lago onde criam tartarugas. Assim, foi nomeada a comunidade que atualmente é composta por 23 famílias, consideradas extrativistas, ribeirinhas, artesãos e pescadores.

A comunidade é conhecida pelo seu potencial turístico comunitário, que vem crescendo na região e fortalecendo as práticas coletivas e ancestrais, sem agredir a natureza. 

A comunidade é movimentada por turistas de todos os lugares que vão até o local conhecer o Lago das Tartarugas, meliponicultura, a culinária, o artesanato, é claro, as lindas praias de areia branca, além do majestoso e cristalino rio Arapiuns, que banha aquele lugar. Coroca e outras comunidades que trabalham com turismo de base comunitária são exemplos de que é possível ter geração de renda mantendo a floresta de pé.  

Qual a importância do artesanato para região?

Hoje o artesanato contribui para o fortalecimento da cultura ancestral e geração de renda sustentável nas comunidades do Rio Arapiuns, Luziete afirma: “hoje as pessoas trabalham porque teve a valorização do trabalho, as comunidades estão se organizando como associações, cooperativas. É importante ressaltar que a organização foi fundamental para a valorização das produções, e isso contribui para a geração de  renda,  porque aí o artesanato valorizado somou a renda das famílias”.

Foto reprodução das redes sociais dos Trançados do Arapiuns

Ao trançar cada palha é trançado ancestralidade, memória coletiva, resistência, cultura e saberes tradicionais que são repassados de geração para geração, como forma de valorização e afirmação da identidade das comunidades e de um povo criativo e rico em conhecimentos, que não precisam destruir a natureza para produzir.

Além de serem produtos que geram renda que ficam nas comunidades, que é de suma importância para a permanência das pessoas e fortalecimento dos territórios, também é uma forma de dar continuidade nas práticas de seus antepassados, cada desenho feito tem suas simbologias e significados e todos estão interligados com a natureza.

Cada peça é única e todo processo de teçume é feito com muito cuidado e atenção,  cada palha entrelaçada remete a ideia de que “uma palha vai puxando a outra “, assim  é a vida em um território que tem sua essência coletiva e ancestral.

“Então, a importância na minha visão do artesanato para a região do Arapiuns, é a valorização da cultura que os nossos ancestrais deixaram para nós, para mim isso é cultura, e essa valorização do trabalho que hoje é reconhecido e de suma importância. O trabalho feito à mão é peça única, então, isso não tem preço, por isso deve ser valorizada. Essa é a riqueza da nossa região!”, finaliza Luziete da Silva.

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