Segunda, 21 de Junho de 2021 04:48
093991489267
Reportagem Especial Reportagem

Ser jornalista: o preconceito impedindo o sonho de exercer a profissão

A história de Geovany, que apesar de todo talento não teve oportunidades por ser portador de deficiência visual.

02/09/2020 13h00 Atualizada há 5 meses
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Fotos: Tapajós de Fato
Fotos: Tapajós de Fato

Em uma pesquisa feita em 2018 pela Apae, cerca de 6,7 % dos brasileiros, o equivalente a aproximadamente 14 milhões, possuem algum tipo de deficiência, e desse total menos de 1%, ou seja, apenas cerca de 140 mil estão empregados. Desde essa pesquisa dois anos se passaram, mas a situação do brasileiro não melhorou, e a maior causa desse grande problema é o preconceito. Em Santarém, assim como em todo Brasil, muitos sofrem com isso, e uma dessas pessoas a sofrer com essa discriminação a pessoas com deficiência é o jornalista Geovany Luiz Lemos Lopes, que em entrevista ao Tapajós de Fato contou um pouco sua história.

Geovany nasceu em Santarém, aos 20 anos de idade descobriu através de médicos que estava sofrendo perda de visão. Com essa informação, ele buscou alternativas de reverter essa situação, procurou por médicos e especialistas em outros estados do Brasil, porém nenhum deles tinham a solução para o seu problema de retinose pigmentar. Aos 25 anos, o jovem santareno perdeu totalmente sua visão. Sem almejar nada em seu futuro, só pensava que sua vida tinha acabado, não tendo ânimo para mais nada.

Superação

Através de seus familiares e amigos que o incentivaram a voltar a viver, Geovany deu início a sua superação. “Minha superação iniciou quando eu comecei a ter uma vida social, sair com os meus amigos para festa, para um barzinho para curtir uma boa música, aí eu comecei a perceber que o mundo não parou de girar simplesmente porque eu fiquei cego” afirma Geovany. A partir desta sua percepção começaram a reavivar alguns planos que foram deixados para trás depois de sua perda, “então comecei a vislumbrar o interesse e a vontade de voltar a estudar, principalmente quando eu conheci a tecnologia assistiva, o manuseio do computador, que eu aprendi e hoje em dia trabalho com isso”.

Desde então, ele descobriu que é capaz de tudo que quiser como qualquer outra pessoa, chegou até a passar um tempo morando sozinho, “aprendi todo um processo de adaptação, sempre morei no centro e de repente vim morar sozinho numa parte periférica da cidade, tive que aprender a sobreviver, morei 3 anos e meio sozinho até que meu irmão veio morar comigo” contou o jornalista, e descreveu um pouco de suas atividades cotidianas, “mas até lá tive que a prender a lavar, passar, cozinhar, cuidar de cachorro, cuidar de casa, lavar banheiro, enfim, tudo.”

Geovany Luis em sua casa - Foto: Tapajós de Fato

Faculdade

Depois de descobrir sobre a tecnologia assistiva e aprender a mexer em programas de acessibilidade, e com incentivos sua vontade de voltar a estudar foi crescendo, e seu talento para escrever bem fez com que o indicassem o curso de jornalismo. Durante a faculdade, Geovany conta que sofreu bastante preconceito tanto de alunos quanto de professores da instituição, que só foi amenizando depois que estes começaram a conhecer um pouco sobre ele e sua história.

Fotos: Tapajós de Fato

A falta de materiais adaptados para pessoas com deficiência visual, como audiobooks, livros em alto relevo ou braile, mostrou o quanto as instituições de ensino não estavam preparadas para receber pessoas como ele, mesmo sendo um direito seu que deveria ser garantido. Mas como estava determinado, não deixou que isso o atrapalhasse e se reinventou através do sistema operacional DOSVOX, que permite pessoas cegas utilizarem um microcomputador, e com essa ferramenta em suas mãos, aprendeu a mexer em programas de edição de áudio. Após iniciado o curso, Geovany foi perguntado diversas vezes sobre qual seria seu maior interesse no jornalismo, e logo percebeu que se identificava com o veículo cujo a voz é o principal instrumento para comunicar.

Acredito que eu gosto muito do veículo rádio, então quando eu fui pra faculdade eu vislumbrei essa possibilidade, esse universo radiofônico, porque mexe muito com a imaginação da gente tendo em vista que é um veículo que a gente usa muito a voz e trabalha muito a mente do ouvinte”.

 E com esse grande interesse pelo veículo, ele relata também seu desejo pessoal que pode ser alcançado por meio do rádio, “então, como eu conheço os dois lados da moeda, o lado de quem enxergou e o lado de quem ficou cego, achei que isso seria muito fácil e eu poderia também dar a oportunidade para outros colegas com deficiência visual e outras deficiências também, sendo a voz dessa galera toda aí, a questão de ajudar também, então foi o rádio que me chamou para o jornalismo”.

Ainda durante a faculdade Geovany fez seu trabalho acadêmico orientado (TAO), na área do rádio, que era um projeto de programa radiofônico chamado “SuperAção”, e que estava com muita vontade de colocá-lo no ar depois da faculdade, pois como conseguiu apoio para esse projeto pensou que essa ajuda viria também depois da faculdade. No entanto, não aconteceu bem da forma que ele esperava.

Mercado de trabalho

Após se formar, Geovany Luis foi atrás das empresas de comunicação da cidade em busca de uma vaga para trabalhar em um tão sonhado estúdio de rádio, assim podendo ajudar e dar voz a pessoas que como ele sofriam com o preconceito e com a falta de acessibilidade presente em todos os lugares do Brasil. Contudo, chegando ao mercado de trabalho, Geovany se deu conta que a sociedade ainda não estava pronta para reconhecer suas capacitações e suas qualidades como profissional, pois o preconceito deturpa a forma de pensar das pessoas e não as deixa ver habilidades e virtudes que as pessoas com deficiência têm, e para a surpresa dele, os veículos não estavam dispostos a aceitá-lo por conta disso, por julgarem que ele não era capaz de realizar as atividades da profissão como qualquer outro jornalista.

Compreendendo como de fato era a realidade, Geovany se decepcionou com o que vivenciou. Participou de processos seletivos injustos e sem a acessibilidade, que ele tem por direito, e mesmo com um grande talento, com sua voz de locutor e com suas habilidades de edição de áudio que o fazia tão competente quantos seus concorrentes, ele não conseguiu nenhum emprego em sua tão sonhada área. Mesmo se saindo muito bem, o preconceito e a discriminação falaram mais alto mais uma vez, e mostraram que até mesmo nessas grandes empresas de comunicação infelizmente ainda existe o pensamento de que alguém com deficiência é inferior ou incapaz. Logo essas que têm como um de seus principais objetivos dar voz a população, negligenciam em criar oportunidades a quem mais merece.

Por conta da falta de oportunidades, mesmo com capacitação e competência, o jornalista teve que se adaptar novamente ao meio em que vive, deixando o sonho de trabalhar em rádio e tendo que escolher uma alternativa para que pudesse se sustentar. Através de alguns amigos, Geovany recebeu a ideia de trabalhar com educação especializada ensinando crianças e jovens deficientes, mostrando seu exemplo de superação e mostrando para elas que podem sim serem o que quiserem e podem chegar onde quiserem. Para isso Geovany iniciou sua segunda graduação, dessa vez no curso de Pedagogia, com o intuito de mostrar que nem tanto preconceito é capaz de pará-lo.

Normal não, extraordinário

O comunicador que ainda não alcançou seu objetivo de trabalhar como jornalista, e dar voz aos que precisam, deu seu jeito de conseguir sua renda de outras formas e segue sua vida se aperfeiçoando. Hoje ele trabalha editando áudios e fazendo propagandas, é massoterapeuta, toca violão, é lutador de jiu-jitsu e judô e uma grande inspiração para todos. Ele é um grande exemplo para os que acham que uma pessoa com qualquer tipo de deficiência é inferior, quando na verdade isso faz com que ela seja superior e esteja acima de qualquer dificuldade que a vida ou pessoas possam lhe impor.

Fotos: Tapajós de Fato

 

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.