Aconteceu no último dia 2 (segunda-feira) a Marcha Pelo Clima, em Santarém. Coberta por fumaça há quase dois meses, o município do Oeste do Pará, estado sede da COP 30 em 2025, sufoca.
A situação de calamidade pública, uma vez que a fumaça que cobre os céus de Santarém e de diversos outros municípios da região, está virando um problema de saúde pública devido ao aumento significativo dos índices de internações e atendimentos por problemas respiratórios no Hospital Municipal de Santarém, a Marcha levou a sociedade santarena às ruas para protestar contra ineficiência dos governos municipais e estadual, em agir diante do problema. Bem como, para cobrar ações mais efetivas.
Com o grito de “Santarém quer respirar!”, centenas de pessoas com cartazes de frases de ordem, usando máscara e indignadas com a situação de calamidade que afeta vários municípios do Oeste do Pará, saíram às ruas, em caminhada, para chamar a atenção para a situação que mesmo sendo gravíssima, não ganhou visibilidade na mídia tradicional a nível nacional.
“Nós estamos aqui na rua hoje para anunciar que a Amazônia já não é mais o pulmão do mundo. A Amazônia está se tornado, não mais um santuário, mas está se tornado um lugar de permissão e de destruição. Nós não podemos deixar. As nossas comunidades impactadas sofrem diariamente com o fogo e não sabem o que fazer e como fazer”, enfatiza o Ativista Climático Darlon Neres, um dos organizadores da Marcha.
Nome aos Bois
Nas últimas semanas, ganhou força o discurso do setor ruralista da região de que a fumaça que encobre Santarém decorre principalmente de áreas de assentamento. Nesse sentido, a Marcha também teve o papel de rebater esse discurso.
“Essa queimada não é do pequeno produtor, essa queimada é do agronegócio, genocida, assassino. Da especulação imobiliária. Da falta de verba, para proteger o nosso povo. [...] A queimada, a fumaça é um projeto consciente, gente, nós temos que entender isso. Não é por acaso. É um projeto consciente. O cara que faz uma queimada dessa, que joga essa poluição toda, ele sabe que isso está fazendo mal para o nosso pulmão”, relata o professor Maike Kumaruara.
No últimos dias, a Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Baixo Amazonas, e os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Santarém, Mojuí dos Campos e Belterra, lançam nota de repúdio contrapondo os termos do discurso, manifestado de forma pública, pelos ruralistas.
Os trabalhadores e trabalhadoras da agricultura familiar na Amazônia reforçaram que, a Agricultura familiar tem sido resistente como forma sustentável de relação com a terra, com práticas de aceiro, diversificação da produção agroextrativista, e, é exemplo de resiliência às mudanças climáticas.
Durante a Marcha a Presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém reforçou que a narrativa que culpabiliza o pequeno produtor e os trabalhadores da agricultura familiar é falácia. E enfatizou “a culpa não é da agricultura familiar é do agronegócio”.
Estado sede da COP 30 sufoca
O Pará, será estado sede da COP 30 em 2025, e para muitos dos que caminharam na Marcha Pelo Clima, vem falhando em atuar frente aos impactos da Crise Climática em seus territórios.
A fumaça, decorrente dos altos índices de focos de queimadas na região, requerem mais firmeza na fiscalização e no combate a esse crime ambiental. Nas últimas 48h, o estado do Pará notificou 584 focos de queimadas, o que representa 53% de todos os focos registrados no país, segundo dados do Sistema de Monitoramento de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Na região Oeste do Pará, o município com maior registro de focos foi Uruará, com 26 focos (6,7%) nas últimas 48 horas.
O Governo do Estado, em uma ação tardia na opinião de lideranças e ambientalistas locais, reforçou o contingente do Corpo de Bombeiros de Santarém com o envio de mais 8 viaturas para auxiliar no combate a incêndios e queimadas, e anunciou o reforço de mais 40 Bombeiros Militares que vão atuar no 4º GBM.
Para muitos dos caminhantes da Marcha Pelo Clima, o governo estadual demorou a agir, e quando agiu, as medidas foram pouco eficientes.
“Então, todos os territórios têm sofrido, além dos territórios urbanos[...] A maioria dos territórios que queimam em Santarém, vem das comunidades e os carros do corpo de bombeiros que atende Santarém não conseguem chegar à reserva [reserva extrativista Tapajós-Arapiuns], no Lago Grande, nas áreas rurais, no planalto, na Várzea. Com isso dificulta porque nós temos poucas brigadas voluntárias,[...] nós temos um sistema de saúde precário, nós temos um sistema de saúde que não atende à população”, enfatiza Darlon Neres.
Inação do Governo Federal
Os participantes da Marcha Pelo Clima, também denunciaram a inação do Governo Federal frente ao que vem acontecendo na região há meses e cobraram fortalecimento e investimento nos órgãos de fiscalização ambientais, como ICMBio e IBAMA.
“[...] Lula, tu precisa entender que o ICMBio e o IBAMA precisam ser valorizados, ele não pode buscar continuar sucateado. Companheiros nossos estão aí na brigada, quase morrendo com tanto calor. Tem companheiros nossos lutando contra esse fogo, e Lula precisa entender isso. É preciso também chamar a atenção daqueles que são os nossos. Não adianta tapar o sol com a peneira, companheiros, é preciso dar nome aos bois: o agro está nos matando”, enfatizou durante a Marcha Thiago, advogado popular do Maparajuba.
E por fim fica o recado dado pela população de Santarém na rua. “[...] nós precisamos ser escutados na COP, as comunidades precisam avisar ao mundo que o discurso do Helder Barbalho não é real, que o discurso pra fora [pro mundo] de uma Amazônia verde não é real. Nós vamos denunciar ao mundo na COP 30 que o Helder Barbalho tem vendido uma imagem, mas aqui, os principais impactos das mudanças climáticas, nós não vimos ser combatidos”(Darlon Neres).