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Se é bom para a Universidade é bom pra gente, porque a Universidade é nossa!

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18/09/2020 11h52
Por: Beatriz Martins Moura Fonte: Beatriz Martins Moura

Em 2011 um conjunto de 1200 estudantes, dos quais eu fiz parte, ingressava na recém-criada Universidade Federal do Oeste do Pará, na leva de universidades instituídas a partir do REUNI. Éramos nós a primeira turma da UFOPA. Ouvimos nossos nomes na rádio, ao som da música entoada pelo mestre Pinduca: “Alô, alô papai, alô, mamãe, põe a vitrola pra tocar, pode soltar foguetes, que eu passei no vestibular!”- quem é paraense sabe bem a emoção que isso significa. A partir dali um processo de profundas transformações passaria a ser implementado pelas mãos de todas/os nós, alterando dinâmicas históricas da região, como a lacuna no acesso ao ensino superior por jovens nortistas, com destaque especial para negras/os, indígenas, quilombolas e de comunidades ribeirinhas, assim como de jovens de camadas socioeconômicas vulnerabilizadas. Além disso, a chegada da Universidade produziu mudanças nas dinâmicas socioeconômicas da cidade que a partir daquele momento se constituiria um polo universitário.

Santarém já contava com dois campi de universidades públicas federais, a Universidade Federal do Pará e a Universidade Federal Rural da Amazônia, cujas sedes eram em Belém, capital do estado, também com campi da Universidade Estadual- UEPA, bem como com faculdades privadas, entretanto, a UFOPA veio para ampliar de forma significativa o leque de oportunidades e possibilidades de formação para nós. Todas e todos que vivenciamos de dentro sabemos bem que internamente travamos um sem número de disputas e lutas para configurar aquela como uma universidade que nos representasse, que tivesse a nossa cara, a cara das nossas comunidades, lutas essas que ainda são travadas cotidianamente por jovens negras/os, indígenas e quilombolas por sua permanência. O fato é que, ao longo dos últimos dez anos, a UFOPA foi se constituindo um polo importantíssimo no que diz respeito à produção de conhecimento a partir de espaços de ensino institucionalizados, bem como à formação de pesquisadoras/es. Assim como eu, inúmeros foram as/os recém formadas/os que se lançaram nas pós graduações no país, enunciando nossos conhecimentos e pesquisas e muitas vezes reivindicando nossa conexão com esse lugar. Essas/es mesmas/os estudantes acabam, por retornar mestras/es e doutoras/es para ocupar a docência, como é meu caso.

A universidade construiu aqui um campo sólido de produção de pesquisas nas diversas áreas do conhecimento acadêmico que, aliado com as potencialidades analíticas e reflexivas que trazemos de casa, das comunidades, dos aprendizados com nossas avós, mães, tias, possibilita a elaboração de olhares críticos sobre nossas realidades. No campo das ciências humanas, de onde falo com maior propriedade, temos formado jovens cientistas sociais dedicados a subversão dos velhos olhares estereotipados sobre nós, sobre quem somos e como nos constituímos enquanto região. Somos agora pesquisadoras/es negras/os indígenas, quilombolas, ribeirinhas/os, nossas pesquisas apontam caminhos que irreversivelmente estabeleceram novas formas de produzir pesquisa e conhecimento, temas que de fato se conectam com nossas demandas e lugares no mundo. 

Não bastasse isso, a UFOPA impacta profundamente a economia local, seja na geração de emprego e renda, seja na movimentação produzida com a chegada numerosa de professoras/es, servidoras/es e estudantes. Nos aluguéis, nos setores de serviço e comércio, na entrega de profissionais mais qualificados para atuarem no mercado de trabalho aqui, as consequências são enormes. A lista poderia se estender, mas gostaria de destacar esses como aspectos centrais para essa breve conversa. Não é difícil concluir o que digo se conversamos com as pessoas pela cidade, todo mundo pode dizer a seu modo como percebe os impactos decorrentes da existência de uma sede universitária aqui. Sem dúvida alguma o campo de disputas em torno da configuração dessa universidade permanece aberto e constantemente somos provocadas/os a lutar para que ela seja cada dia mais plural, mais diversa, mais respeitosa, porque ela é nossa!

O projeto em curso de descredibilização da universidade pública e dos conhecimentos científicos, levado a cabo pelo atual governo encontra eco nas velhas elites políticas locais, nas mentes conservadoras de certa mídia e na lógica perversa de setores econômicos. Não nos enganemos, entretanto, que seja isso falta de conhecimento, como eu disse, qualquer pessoa na cidade é capaz de elaborar suas percepções sobre como a UFOPA transformou o cenário por aqui, de diversas maneiras. Trata-se de um perigoso movimento de produzir deliberadamente desinformação e descolamento da população em relação à Universidade que é um patrimônio da nossa cidade. Sigamos vigilantes, porque a Universidade é nossa!

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Beatriz Martins Moura
Sobre Beatriz Martins Moura
Graduada em Antropologia pela Universidade Federal do Oeste do Pará- UFOPA, mestre e doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de Brasília- UnB, professora substituta na UFOPA, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Documentação das Expressões Afro-religiosas do Oeste do Pará e Caribe- NPDAFRO/UFOPA e Membro do Coletivo Zora Houston
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