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Amapá vs Pará: uma pseudo rivalidade

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22/01/2021 12h07 Atualizada há 5 meses
Por: Ciro Brito Fonte: Tapajós de Fato
Amapá vs Pará: uma pseudo rivalidade

Há alguns dias um vídeo da macapaense Juliana Campos bombou nas redes sociais. Nele, a blogueira “denunciava” uma suposta apropriação, por parte do Pará, da cultura de todos os outros Estados do Norte. “O Pará por muitas gerações vende a ideia de que a cultura nortista inteira pertence a eles”, disse.

 

O principal motivo para o ressentimento, segundo ela, é justamente o esquecimento do Amapá pelo restante do Brasil. O Estado sofreu com um apagão de energia elétrica por semanas durante novembro de 2020. “O meu Estado ficou recentemente há 20 dias sem luz e as pessoas não sabiam nem em que região ele era”.

 

O ressentimento despejado no Pará reflete uma gota no rio Amazonas, o nosso oceano. O esquecimento do Amapá, bem como de outros Estados do Norte, não se deve à colocação política ou midiática que o Pará arrebatou hoje em dia, deve-se ao colonialismo interno, que nos assombra desde meados de 1500, por ocasião da invasão a Ilha de Vera Cruz. Naquele momento, já se desenhava que o centro de poder do que hoje conhecemos como Brasil não seria ao Norte, mas ao Sul. Capitais, ciclos econômicos, ligações com a Coroa portuguesa, nobreza instalada e a se instalar. Alguns dos elementos que foram delineando uma desigualdade regional que atualmente se reflete nos apagões em Roraima e no Amapá, na superlotação dos cemitérios e falta de oxigênio no Amazonas e, inclusive, na instalação de uma atmosfera de animosidade entre Amazonas e Pará e Amapá e Pará.

 

Não somos rivais! Somos irmãos. Basta rememorar o dia 13 de setembro de 1943, em que o Estado do Amapá, antes Território Federal desmembrado do Estado do Pará, foi elevado à Unidade da Federação por meio do Decreto-Lei nº 5.812. Esse processo de desmembramento e autonomia política fez parte de uma discussão de fortalecimento regional e de mais representatividade política, eixos que deveriam agir em prol de mais políticas públicas para ajudar na elevação dos índices socioeconômicas desta que é a região que ostenta os piores indicadores do País.

 

Estamos em estado de calamidade, dado a pandemia do Coronavírus (SARS-CoV-2). Mais do que nunca, o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro deveria se fortalecer nas localidades onde sempre foi frágil (ou enfraquecido). A região Norte tem a menor distribuição de unidades de pronto atendimento na rede pública em comparação ao restante do País e até mesmo com a região Centro-Oeste, que tem menos habitantes e extensão territorial muito inferior. O Norte possui 77 unidades para cerca de 18 milhões de habitantes, enquanto o Centro-Oeste dispõe de 100 unidades para aproximadamente 16 milhões de pessoas. Na sequência, está o Nordeste, com 217 estabelecimentos de pronto atendimento, o Sul, com 252, e o Sudeste, com 582, de acordo com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES). Não obstante, o Sudeste é a região com maior razão de médicos por 1.000 habitantes (2,81) contra 1,16, no Norte, e 1,41, no Nordeste. O Distrito Federal tem a razão mais alta, com 4,35 médicos por mil habitantes, seguido pelo Rio de Janeiro, com 3,55. Na outra ponta estão estados do Norte e Nordeste. O Maranhão mantém a menor razão entre as unidades federativas, com 0,87 médico por mil habitantes, seguido pelo Pará, com razão de 0,97.

 

Os dados da saúde por si só já reforçam, entretanto poderíamos ainda elencar os da educação, cultura, turismo etc, para comprovar que nós do Norte temos mais motivos para nos unir do que nos dividir. Por isso, não há que se colocar lenha em qualquer fogueira de animosidade ou de rivalidade. A história nos mostra que sempre estivemos unidos territorialmente e à margem das tomadas de decisão e do protagonismo de pautas da mídia nacional.

 

Vivenciando processos históricos semelhantes ao nosso, os Estados do Nordeste vêm buscando alianças oficiais. Uma delas, criada em 2019, é o chamado Consórcio Nordeste. Trata-se de uma aliança jurídica do bloco de 09 estados nordestinos que busca atrair investimentos e alavancar projetos de forma integrada para a região, além de possibilitar compras conjuntas e implementação integrada de políticas públicas nas áreas de segurança e educação. Como disse Flavio Dino, governador do Maranhão “O Consórcio Nordeste quer mostrar como é possível fazer política priorizando o diálogo em vez do conflito”.

 

A priorização do diálogo antes do conflito, ciúme ou ressentimento deve ser a tônica de uma aliança que deveria emergir no Norte. Até porque, como afirma Juliana Campos, “o égua é de todos, a maniçoba é de todos, o açaí é de todos...”. Dessa forma, poderíamos deixar de agir sombreados por emoções e pressões que emanam de redes sociais, que quase sempre vêm a partir de situações aviltantes como a que esteve o Amapá em novembro de 2020 e como a que se apresenta atualmente no Amazonas. Reações essas que chegam corriqueiramente de forma tardia.

 

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