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O clássico do cinema brasileiro que veio do norte.

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02/02/2021 14h48 Atualizada há 5 meses
Por: Esaú Brilhante do Nascimento Fonte: Tapajós de Fato
O clássico do cinema brasileiro que veio do norte.

Na década de 60, em todo o mundo, surgiram várias iniciativas  na forma de se fazer cinema. Essas iniciativas são chamadas de movimentos cinematográficos. Amplamente influenciados pelo movimento dos anos 40 que ficou conhecido como neorrealismo italiano, com uso de locações reais, devido a destruição dos estúdios durante a guerra, o uso de atores não profissionais e uma temática “crua” e realista nos seus longos, apresentando as mazelas da Itália vítima da segunda guerra mundial. O movimento produziu uma abalo gigantesco com seu novo estatuto de verossimilhança, diferente de tudo que já tinha sido feito no mundo do cinema. Filmes como Roma, Cidade Aberta(1944) de Roberto Rossellini e Ladrões de Bicicleta(1948) de Vittorio De Sica, são os grandes marcos do período.

No final dos anos 50, na França, surgem os primeiros filmes dos críticos de uma revista de cinema em Paris. Esse grupo de diretores formou o movimento conhecido como Nouvelle Vague francesa. Basicamente as mudanças postas eram uma maior liberdade na forma de contar suas histórias, até então presas ao modelo industrial de estúdio. A popularização de câmeras de menor porte possibilitou uma dinâmica maior no movimento, gravar na rua, e um barateamento significativo no custo de produção dos filmes. O marco inicial do movimento é La Pointe-Courte (1955) de Agnès Varda, mas se consolidada com Acossado(1960) de Jean-Luc Godard e Os Incompreendidos(1959) de François Truffaut.

O Brasil também propõem seu movimento, o Cinema Novo Brasileiro. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) de Glauber Rocha, Os Fuzis (1964) de Ruy Guerra e Vidas Secas (1963) de Nelson Pereira dos Santos são os grandes expoentes do movimento.

Nesse contexto mundial há filmes que não enquadram-se necessariamente em um movimento mas que assimilam as mudanças discutidas. É o caso do filme paraense Um Dia Qualquer(1965) dirigido por Líbero Luxardo. Líbero Luxardo foi um importante cineasta paulista, que depois de ter produzido documentários no Rio de Janeiro e no Mato Grosso do Sul se estabelece no Pará. É um dos nomes fundamentais do cinema da região, gravando pela primeira vez com equipe e atores Paraenses.  

O filme conta a história de um homem que anda pelas ruas de Belém depois da morte de sua mulher, relembrando os momentos que tiveram. Com isso, o filme é basicamente uma crônica do cotidiano paraense, desde lotações, encontro no Igarapé, a praça Batista Campos, Igrejas, o Círio de Nazaré, o Ver-o-Peso, no dia de São João, onde a cantora paraense Marina Monarcha canta uma canção de Waldemar Henrique para vender os produtos típicos da feira, terreiro de umbanda no bairro da Pedreira, a vários outros espaços da região. Além disso, uma trilha sonora de ninguém menos que Pixinguinha, com ilustres participações de Alípio Martins e o violonista Sebastião Tapajós.

Além da liberdade narrativa de uma história não linear, composta por lembranças, a abordagem “crua” das diferentes camadas da sociedade paraense dialogam plenamente com os movimentos de vanguarda no mundo todo. Os enquadramentos são abertos, capturando personagem e ambiente, identificando o quanto um expressa do outro. O filme teve um lançamento “hollywoodiano” em Belém, alcançando imenso adesão do público local, muito pelo caráter representativo. O longa é um grande exemplo de produção artística que pode dialogar com um contexto mundial sem deixar de ser regional, e ser orgulhoso disso. O filme foi restaurado pela cinemateca brasileira e é encontrado no YouTube.

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