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Um Escritor do Norte no Cânone da Literatura Brasileira.

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12/02/2021 19h52
Por: Esaú Brilhante do Nascimento Fonte: Tapajós de fato
Um Escritor do Norte no Cânone da Literatura Brasileira.

Apesar de ocupar 60% do território brasileiro, a Amazônia desperta um interessa apenas marginal na grande maioria dos debates sobre cultura em âmbito nacional. Referente a literatura, um número grande de autores são jogados ao esquecimento ou tem sua circulação reduzida para curto leitores. Acrescentando o fato que qualquer narrativa sobre a região enquadra-se necessariamente na disputa política por existência, de modos de vida constantemente atacados por um projeto de modernização homogêneo, surge, cada vez mais, a necessidade de resgatar nomes de seu esquecimento e trazê-los para o presente.

Optei aqui em trazer o nome de Dalcídio Jurandir, por acreditar que o escritor paraense se enquadra perfeitamente na situação anteriormente mencionada. Seu projeto de 10 romances, com cerca de 3 mil páginas, oferece uma apresentação da história cotidiana e da cultura da Amazônia que é exemplar em termos de amplitude e fidelidade aos detalhes. Esse projeto de escrita, denominado O Ciclo do Extremo Norte, é profundamente marcado pela experiência biográfica, social, cultural, histórica e política do autor. Três espaços da Amazônia retratados nos romances são: a Ilha do Marajó, cenário da trilogia inicial do ciclo, os subúrbios de Belém, onde se passa os cinco posteriores, e a região do Baixo Amazonas, representada pela cidade de Gurupá, no romance final.

Um traço fundamental da obra de Dalcídio Jurandir é o intenso diálogo com os fatos históricos, sociais e culturais, econômicos e políticos seguindo a tradição do romance realista do século XIX, que foi retomada pelo neorrealismo e os romances de crítica social da década de 1930. Segundo o próprio autor, a principal tarefa do escritor de romance, que é “um gênero eminentemente social”, é o seu comprometimento com as questões socais.

Esse retrato da Amazônia no século XX se destaca pelo fato de ser articulado em sua maior parte através da voz dos habitantes da região, notadamente dos mais humildes, que assim se tornam sujeitos da História. Como bem constatou o historiador Vicente Salles, “não é possível escrever a história social paraense sem o conhecimento da obra de Dalcídio Jurandir.”

Em 1972 Academia Brasileira de Letras concedeu a Dalcídio Jurandir o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra. Jorge Amado, em seu discurso de saudação, qualificou essa obra como “uma das mais importantes da nossa ficção em qualquer tempo”.

O romance de estreia, Chove nos Campos de Cachoeira, pode ser resumido desta forma: o enredo passa-se por volta de 1920 na vila de Cachoeira, na Ilha de Marajó. Inicia-se o caminho do menino Alfredo, filho de pai branco, letrado, funcionário público, e de mãe negra, doméstica. Esse romance de formação de um indivíduo desdobra-se num romance social, na medida em que, a partir da perspectiva micro-histórica de sua família, é apresentada a sociedade de uma vila do interior.

Quando terminou o romance, em 1939, enviou-o para concorrer ao prêmio Dom Casmurro de Literatura, concedido pela revista de mesmo nome no Rio de Janeiro. A revista era a mais importante publicação do gênero na época, e tinha como banca avaliadora Oswald de Andrade, Jorge Amado e Rachel de Queiroz. Vencedor do prêmio em 1940, o romance foi publicado logo depois.  

É com essa narrativa que engloba personagens como vaqueiros, pescadores, lavradores, canoeiros, lenhadores, colhedores de açaí e empregadas domesticas, das quais as mais velhas foram escravas, que Dalcídio Jurandir desdobra uma história vista de baixo da Amazônia no século XX. O que torna mais urgente seu reencontro com os leitores do norte, onde sua obra ganha, não apenas novos olhares, mas novas possibilidades de luta articuladas a uma imaginário regional.

Obras do ciclo do extremo norte: Chove nos campos de Cachoeira; Marajó; Três Casas e Um Rio; Belém do Grão Pará; Passagens dos Inocentes; Primeira Manhã; Ponte de Galo; Os Habitantes; Chão dos Lobos; Ribanceira (Sendo o segundo um ponto fora da curva na história geral)

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