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Impactos da gentrificação em Alter do Chão.

A especulação imobiliária, aumento do turismo e obras governamentais são responsáveis por isso.

26/02/2021 11h20 Atualizada há 4 meses
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Impactos da gentrificação em Alter do Chão.

Gentrificação é uma palavra de origem inglesa, gentrification, que numa tradução literal, poderia ser entendida como o processo de enobrecimento, aburguesamento ou elitização de uma área. Porém, não é um processo de transformação social para melhorar a vida das pessoas de um local, elevando a qualidade de vida delas, na verdade, está longe disso. O fato é que grandes empresários, pessoas ricas e “empreendedoras” chegam em um determinado lugar e decidem ali pode ser um lugar “desenvolvido” e “urbanizado” com prédios e grandes estruturas. Mas, para que isso aconteça, toda a população daquele lugar ou território deve sair dali por não serem “bons o suficiente” para tudo aquilo que está sendo construído, e os que resistem, muitas vezes não aguentam o aumento do custo de vida e acabam saindo do lugar onde moraram a vida toda e que era seu lar.

Em Alter do Chão, localizada na cidade de Santarém, oeste do Pará, a gentrificação vem acontecendo já há alguns anos. Por ser conhecida internacionalmente como “caribe brasileiro”, Alter do Chão chamou a atenção do mundo todo com sua belíssima praia e cultura local. Porém, o que pra alguns é apenas uma forma de atração, para outros, é uma chance de se apossar de algo que possa ser lucrativo.

Sendo assim, muitos empresários chegaram em Alter do Chão, e suas propostas em comprar as casas dos moradores locais atraíram o povo que não percebeu que de pouco em pouco, foram perdendo seu território.

Grandes franquias chegaram na aldeia, deixando tudo “chique” demais, e à medida que o tempo passou, os moradores originais foram sendo deslocados para as partes periféricas, longe da praia.

Em conversa com o Tapajós de Fato, Ianny Borari, indígena e uma das moradoras de Alter do Chão contou que quando era criança, o que mais gostava de fazer era tomar banho no rio, e que as pessoas mais velhas costumavam utilizar mais da água para suas atividades diárias “o que mais mudou quando a gentrificação ficou mais evidente, foi o rio, pois sempre tomamos banho para ir à escola de manhã cedo, para lavar roupa, era cultural, porém com o aumento do fluxo de turistas, devido as praias e aos eventos culturais como o Sairé, grandes empresários abriram os olhos para a região e compraram as áreas mais privilegiadas”, Ianny afirmou também que hoje somente duas famílias resistem na parte mais privilegiada da cidade, que é de frente para a praia, e se negam a vender suas casas.

Hoje há muitas pessoas de fora que não entendem e olham com olhos de julgamento o que é cultural para quem sempre morou ali, e através desses julgamentos, que muitas vezes são até verbais, as pessoas ricas que se sentem donas do território, somente por terem comprado um terreno muito abaixo do valor de compra, vão aumentando o preço dos produtos e serviços para se adequarem a realidade deles sem pensar que 90% da população daquele lugar não tem a mínima condição de custear aquele gasto, e que futuramente não poderá mais habitar sua própria terra de origem.

Segundo o gestor público Yuri Rodrigues, a gentrificação é responsável também pela segregação de pessoas com hábitos e costumes diferentes “após um local ser transformado, as pessoas começam a ser retiradas de lá, causando uma transformação não só física, mas também social”. Com a mudança de ambiente, o preço do transporte aumenta, tal qual o valor dos imóveis também, causando uma especulação imobiliária no território. E Yuri segue dizendo que a gentrificação e a especulação imobiliária andam juntas, uma vez que uma é consequência da outra.

Essa compra de território é tão notada, que hoje em dia em Alter do Chão, é possível identificar pessoas de fora na mesma proporção que os que lá nasceram, e isso causa um enfraquecimento de uma cultura é tão rica e que tem sido passada de geração em geração.

 

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