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Piripkura: um filme sensacional na Amazônia que merecer ser visto

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19/03/2021 10h54 Atualizada há 3 meses
Por: Esaú Brilhante do Nascimento Fonte: Tapajós de Fato
Piripkura: um filme sensacional na Amazônia que merecer ser visto

Os documentários na Amazônia convergem com a gênese do nosso cinema nacional. Quando a tecnologia do cinema mal tinha chega em nossas terras, essa foi usada como registro da expedição que Marechal Cândido Rondon realizou à Amazônia junto com o ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt, em 1914. Na época, um projeto de pesquisa sobre a fauna brasileira vinha sendo preparado por Theodore Roosevelt, acompanhado pelo Marechal Rondon, coronel do exército brasileiro que também nutria interesse pela fauna brasileira. Apesar de existirem copias as imagens originais dessa expedição foram perdidas no incêndio do Museu Nacional em 2018.

Até as década de 60 as investidas cinematográficas na Amazônia se realizaram basicamente nesse intuito de exploração filmada. O que por um lado limita a abordagem, por outro cria uma forte tradição documental na região.

Assim entra o filme em questão, Piripkura é um documentário na Amazônia que consegue ser um excelente material cinematográfico sem cair em vícios recorrentes do formato, além de ser comovente e uma impressionante história de resistência que elucida a situação do Brasil com suas populações nativas.

Dirigido por Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge, o documentário, conta a história de uma missão de um grupo de funcionários da Funai, liderado por um homem chamado Jair Candor, em busca de dois índios da etnia Piripkura, na região das fronteiras de Mato Grosso, Rondônia e Amazonaspara manter uma portaria do governo que protege a região destinada aos Piripkura.

Candor está na Amazônia há mais de meio século e é especializado em tribos isoladas. Há 30 anos, ele rastreia os passos de Pakyî e seu sobrinho, Tamandua, que vivem sozinhos na floresta, em uma área cercada por madeireiras, garimpeiras e latifundiários. 

Na simplicidade da trama encontramos um de seus principais trunfos, a delimitação clara de que se trata de uma missão de agentes externos ( Funai), por uma atividade institucional(demarcação de terra), que envolve a população indígena, impede que o documentário caia no erro de pretender assimilar um ponto de vista dos nativos, como se fala-se por eles. Da mesma forma, de aderir um discurso paternalista sobre a floresta e seus moradores, reproduzindo uma visão simplista recorrente nos documentários feitos por agentes externos no local.

Porém, acredito que o ponto alto do filme, e o que engrandece sua perspectiva audiovisual, é a sua capacidade de contar sua história com imagens. Não vemos horas de entrevistas explicando os mínimos acontecimentos, ou uma voz off relatando tudo que acontece, direcionando para nós uma interpretação. Pelo contrário, vemos uma câmera sempre próxima as personagens que captura sua dinâmica em sua simplicidade e espontaneidade. Existe uma alternância entre uma câmera na mão nos momentos de busca (seguindo caminhos por terra) e planos fixos em momentos de conversa e planejamentos, conduzindo muito bem o ritmo do filme. Aliando uma montagem muito consciente a um trabalho de fotografia primoroso, nesse movimento de mostrar a Amazônia de dentro.

A floresta, assim, não é filmada com longas tomadas aéreas para fazer criar uma paraíso verde perdido e idílico em referência a uma “Amazônia perdida”, mas apresenta a dinâmica da floresta com a captura do som ambiente no áudios do documentário, aliado a planos mais fechados e longos nos elementos que forma esse ecossistema. Esteticamente impressionante, esses planos não servem apenas para ilustrar, pois formam assim toda uma abordagem intimista que nos mergulha no recorte proposto.

As conclusões que tiramos são feitas a partir do que vemos, e é exatamente essa abordagem intimista que nos faz refletir sobre o constante estado de violência que as populações indígenas foram e são submetidas no País, sufocadas cada vez mais pelo projeto de acumulação do capital pelas grandes empresas, proteladas pelo poder público.

Um filme que integra a Amazônia em uma totalidade, tira o caráter abstrato e estatístico que existe da região no imaginário nacional, e expõe uma constante pautada na resistência desses sujeitos, em um documentário que tem em seus personagens uma força tão emocionante quanto necessária.

O filme está disponível no sistema de streaming do Amazon Prime.

 

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