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Um ano do primeiro caso de Covid-19 no Pará: situação ainda é alarmante

Risco de contágio em território minerado é elevado devido à continuidade da atividade mineral .

19/03/2021 11h07 Atualizada há 3 meses
Por: Tapajós de Fato Fonte: Coletivo de Comunicação MAM

Desde o primeiro caso de Covid-19 registrado no Pará, no dia 18 de março de 2020, o risco de contágio pelo coronavírus e suas variantes continua aumentando para quem vive nas proximidades da indústria mineral. No ano passado, o estado liderou o número de contaminações de Covid-19 na região amazônica, e o mês de junho foi o momento em que os casos confirmados de coronavírus se interiorizaram para os territórios minerados, com a manifestação da doença principalmente na capital Belém, com 15.524 casos confirmados da doença, Parauapebas (6.106), Ananindeua (3.411), Abaetetuba (2.055), Canaã dos Carajás (1.582) e Barcarena (1.358), segundo dados das respectivas  secretarias de saúde. 

São justamente esses municípios que, um ano após o registro do primeiro caso oficial de Covid-19, ainda sofrem com a alta incidência de casos devido às dinâmicas da essencialidade forjada das atividades do setor da mineração, decretada no início da pandemia pelo Ministério de Minas e Energia através da Portaria nº 135 de 2020. A mineração cria atividades diretas e indiretas que constroem uma cadeia de contágio do vírus. Podemos verificar essa dinâmica, nesse período, nas regionais de saúde do Pará 1 e 11, essas que correspondem a Metropolitana, Marajó Oriental e Baixo Amazonas e Carajás, respectivamente.

Índices de Covid-19 por região no mês de junho de 2020, momento em que os casos confirmados
de coronavírus se interiorizaram para territórios minerados

A continuidade das atividades de mineração foi um dos fatos responsáveis por criar um fluxo de atividades e de trabalhadores nos municípios, o que propicia a proliferação do coronavírus nos territórios elevando as taxas de contaminações nas regiões onde ela possui dinâmica, seja com a extração, siderurgia ou mobilidade dos trabalhadores.  

“Quando falamos em atividade mineral não podemos considerar apenas as áreas de mineração, principalmente na Amazônia e, particularmente, no Pará. A atividade mineral é um sistema complexo que envolve transporte, logística e circulação de pessoas, que produz uma dinâmica regional de atividades no interior das cidades em que ela é desenvolvida e em todo seu entorno também”, afirma Bruno Malheiro, doutor em Geografia e professor da Universidade do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

Em 2021, as regiões continuam com número de casos de Covid-19 em alta

Mineração e Covid-19

O Pará é o segundo estado com maior número de trabalhadores na mineração, segundo o Relatório de Informações sobre a Economia Mineral Brasileira (2020), do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). No mês de março, o estado tinha 18 casos confirmados de Covid-19 e, depois de três meses, esse número subiu arbitrariamente para 66.328 casos, com destaque para as regiões do Nordeste e Sudeste paraense. 

Um ano depois, temos uma situação de saúde ainda preocupante no Pará, principalmente nas regionais mineradas. Verificamos no mapa abaixo as regionais de saúde que atuam em territórios com projetos de mineração. Temos a Regional 1 que conta em sua dinâmica influência da Norks Hydro e Imerys; a Regional 11 com a Vale S.A em projetos em Marabá, Parauapebas e Canaã dos Carajás; Regional 9 com a mineradora Alcoa e MRN, e o garimpo em Itaituba e Jacareacanga; Regional 12 com a mineração da Vale S.A com o projeto Onça Puma.

No gráfico acima, podemos ver que as principais Regionais (1, 2, 9, 11 e 12) da saúde do estado são as que apresentam os maiores percentuais nos números de casos e, como dito anteriormente, nas regiões de influência da mineração. Resguardar a mineração como atividade essencial possibilitou o agravo de casos de contaminação por Covid-19 em municípios minerados e na região onde se localizam. “Basicamente, o entendimento de uma atividade essencial é aquela que fornece condições básicas para nossa existência, como alimentação, saúde. A mineração ser considerada uma atividade fundamental, em si mesmo, não impacta de forma imediata a dinâmica de manutenção da vida”, explica Malheiro.

A lógica da mineração serve aos interesses do mercado, principalmente internacional, gerando baixos retornos de melhorias para as regiões em que a mineradora instala-se e atua. “A dinâmica que temos na Amazônia é estruturada para abastecer o mercado internacional, principalmente a China. Então, de certa maneira, ela é sim fundamental, mas não necessariamente para a Amazônia, mas sim para os mercados que ela abastece”, pontua.

Dos dez municípios com maiores números de casos de Covid-19, nove possuem relação direta ou indireta com a dinâmica regional da mineração. Só na porção oriental do estado do Pará temos, em números de casos totais até março de 2021, Parauapebas com 35,496 casos, Marabá com 12,837 e Barcarena com 6,870, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde do Pará (SESPA).   

A situação em Barcarena – Uma das formas de circulação do vírus é pelos trabalhadores e trabalhadoras da mineradora norueguesa Norks Hydro, que deslocam-se da capital Belém e de Abaetetuba todos os dias e noites em direção à Barcarena, onde está o complexo minerador, retornando ao final dos turnos. 

Belém e Abaetetuba são lugares, também, de interação, com espaços de consumo e de entretenimento, que são utilizados por trabalhadores da mineração de Barcarena. “Eu tenho parentes que trabalham na Hydro, na Albras, na Alubar, na Imerys e moram aqui em Abaeté (Abaetetuba). Muitos deles nasceram e moram aqui, mas trabalham lá. Outros vêm buscar serviços médicos, como ir a farmácia ou ao hospital e alguns circulam em festas, bares”, afirma Pedro Silva Silva, morador de Abaetetuba.

Barcarena é o município que está em nono lugar na colocação do estado com maiores índices de casos de Covid-19, representando uma porcentagem de 1,78%. A continuidade da mineração leva a uma problemática que pressiona ainda mais o sistema de saúde do município minerado por causa do excesso populacional gerado a partir dos deslocamentos dos trabalhadores. 

“As grandes empresas em atividade no município apresentam um entrave relativo aos cuidados de saúde para os casos de Covid-19 e infecções respiratórias emergentes, porque grande parte dos trabalhadores não residem no próprio município. Ou seja, traz-se uma demanda de casos suspeitos que teriam que ser preferencialmente acolhidos na atenção primária do município de origem do trabalhador”, relata o médico do Sistema Único de Saúde (SUS) de Barcarena, Alan Xingu.

Dessa forma, as mineradoras tornam-se verdadeiros pólos de contaminação e difusão da Covid-19. “O atendimento de trabalhadores acontece nas unidades básicas de saúde, nas unidades de pronto atendimento e nos hospitais locais, sendo triados pelo nível de gravidade. O primeiro contato geralmente acontece pela equipe de saúde da família ou por demanda atendida em mutirões para a detecção de casos suspeitos de Covid-19. Bairros que ficam nas proximidades de grandes empresas não têm capacidade para lidar com a demanda de pacientes além da sua população de origem residente local”, conclui.

Complexo da Norsk Hydro em Barcarena (Foto: Pedrosa Neto/Amazônia Real)

A Norsk Hydro, que opera três instalações (refinaria, usina de fundição e mina de bauxita) no Pará lucrou, no final do quarto trimestre do ano passado, 7, 27 bilhões de coroas norueguesas, o que equivale a R$ 4,85 bilhões. “A pandemia teve impacto direto no complexo minerário. O governo emitiu algumas MPs (Medidas Provisórias) que flexibilizaram jornadas, propiciaram redução de salários e alguns outros fatores que agravam a situação”, conta o funcionário João Tocantins. 

Ele ainda afirma que os trabalhadores tiveram que se mobilizar para garantir o mínimo de condições para continuarem vivos e sustentando suas famílias, sem perder seus salários. “Trabalhadores que, por ventura, fossem infectados ficariam afastados de quarentena para tratamento e para não perderem, com isso, seus salários e benefícios. Conseguimos mudar a tabela, uma turma que chamamos de ‘pulmão’, para que pudesse cobrir esses trabalhadores que fossem afastados em tratamento pela Covid-19”, revela.

A situação em Carajás – Parauapebas ocupa o segundo lugar em números de casos do coronavírus, com 35,495 confirmações, e Marabá com 12,837, na quinta posição. O ex-trabalhador da mineradora Vale, Evaldo Fidelis, explica sobre a dinâmica de trabalho no complexo minerador de Carajás, que teria contribuído para as contaminações entre os trabalhadores e, consequentemente, de suas famílias. 

“O complexo Carajás envolve quatro municípios: Eldorado, Curionópolis, Parauapebas e Canaã dos Carajás. Ou seja, pessoas que moram em Parauapebas trabalham em Canaã dos Carajás e circulam por todos esses municípios. Estamos falando de trabalhadores diretos da Vale e da massa de terceirizados que circulam diariamente entre os trabalhadores e familiares”, pontua. 

Segundo reportagem do jornal Brasil de Fato, um dos primeiros casos notificados de morte por Covid-19 foi em Parauapebas, em 10 de abril de 2020. A vítima foi um trabalhador da Usina de Beneficiamento na Serra Norte que não apresentava histórico de viagem e nem de comorbidades. Nove dias depois, em 19 de abril, morreu outro trabalhador que realizava sua atividade na Mina de Manganês da Vale, no mesmo município. 

A atividade da mineração em Parauapebas, que é historicamente minerada, tornou-se uma grande problemática para os moradores de áreas urbanas e agrárias, como afirma o morador do Projeto de Assentamento Palmares II, pertencente ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Carlos Tapiri. “Aqui no Assentamento Palmares temos muitos funcionários da terceirizada da Vale e da própria Vale. A grande maioria dos infectados pela Covid-19, segundo o infectologista do município relatou, são os funcionários da própria Vale. Eles são os maiores vetores”, pontua.

Nas regiões localizadas pela influência direta ou indireta da mineração há um grande número de funcionários, sejam eles diretos ou terceirizados, e isso vai, segundo Malheiro, criando circuitos de contágios. “Precisamos entender que decretar a mineração como atividade essencial durante toda a pandemia é desconhecer todo esse potencial que produz relações imediatas entre sujeitos regionalmente. Particularmente em Carajás, o epicentro no número de casos da Covid-19 por habitantes foi onde a mineração estava: Marabá, Parauapebas e Canaã dos Carajás”, finaliza.

 

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