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Saúde SAÚDE

Relatos de resistência: como povos tradicionais têm se protegido contra o coronavírus

Lideranças indígenas e quilombola contam como tem sido enfrentar a pandemia.

13/04/2021 16h39 Atualizada há 2 meses
Por: Tapajós de Fato

Passado mais de um ano da pandemia, os níveis de contágio pela COVID19 e suas variantes continuam altos no Brasil, e esse caos que afeta a saúde dos brasileiros ocasionando milhares de mortes diariamente parece estar longe do fim.

Sobreviver a tudo isso tem sido uma missão diária para a população brasileira, e em meio a isso destaque-se a luta dos povos tradicionais que além dos desafios antigos como a luta por reconhecimento, a defesa de seus territórios e seus modos de vida, quilombolas e indígenas precisam também enfrentar a pandemia que já levou vários dos seus.

Muitos desses povos que vivem na região do Tapajós, possuem em seus territórios diversos problemas, como a falta de políticas públicas, que interfere na saúde, educação, segurança e diversos direitos. Ainda há também a falta de acesso à internet para requerer benefícios como o auxílio emergencial, por exemplo, que é uma possibilidade de renda para sobreviver em meio a pandemia.

Para contextualizar um pouco da realidade desses povos, o Tapajós de Fato conversou com uma liderança quilombola e duas lideranças indígenas, para saber como tem sido essa luta de proteção contra o coronavírus.

 

Resistência quilombola

 

Ana Cleide Vasconcelos, do Quilombo do Arapemã e coordenadora do Grupo de Mulheres na Raça e na Cor, destaca que a falta de assistência por parte dos governos tem contribuído para que o povo quilombola sofra ainda mais com as consequências da pandemia.

Ela afirma que são muitos os desafios que os quilombos estão tendo que lidar nesse período, um deles é relacionado a educação. O ensino online feito pelas escolas e faculdades, prejudica aqueles e aquelas que moram nesses territórios, pois o acesso à internet é precário ou inexistente, e isso faz com que crianças, jovens e adultos não acompanhem suas aulas por conta disso.

Mas para elas, um dos principais desafios é ligado a informação ao povo quilombola, que em sua maioria se encontra desassistido de orientações sobre proteção. Para além disso, se encontra sem acesso a saúde básica de qualidade, para que possa sobreviver.

Cleide relata que os habitantes dos quilombos têm se juntado para se fortalecerem eles mesmo, já que não possuem o devido amparo por parte dos órgãos públicos. Contam com a ajuda de projetos que podem viabilizar doações de cestas básicas, materiais de limpeza e higiene pessoal, mas nem sempre conseguem ajudar a todos com uma frequência maior, porém seguem na resistência buscando maneiras de se fortalecerem.

Questionada sobre o que precisa ser feito em relação a proteção do seu povo, Cleide é enfática ao defender a vacinação para todos.

“O que precisamos é que chegue à vacina para todo povo quilombola, é isso que precisamos. Não só para os idosos, mas também que chegue aos jovens, as crianças, aos adultos de todas as idades, pois todos nós precisamos. Pois, mesmo que sejam vacinados os idosos, os jovens podem sair e trazer o vírus para dentro de casa, então é isso que precisamos: que a vacina chegue para todo povo quilombola”.

 

Resistência indígena

 

Jecilaine Borari, que é presidenta da associação Iwipurãga do povo Borari da aldeia Alter do Chão e representa o povo Borari no conselho de liderança do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns (Cita), relata que para os povos indígenas enfrentar a pandemia tem sido muito difícil e desafiador, e que infelizmente a vacinação só chegou para a minoria dos indígenas da região do Tapajós.

Como desafios, ela destaca a preocupação em manterem suas conquistas, seus direitos que estão na constituição, mas não são respeitados, em preservar a vida, ter autonomia para decidir o que é melhor para a população indígena e que possam ser ouvidos seja no campo territorial, social, educacional e na saúde, cujo isolamento social para os indígenas é uma prática comum que utilizam como estratégia de sobrevivência há muito tempo, como por exemplo, para se livrarem de doenças, sejam físicas ou espirituais.

Jecilaine também fala da atuação de projetos e organizações para ajudarem os povos indígenas, tendo em vista que eles não se sentem assistidos pelo governo.

O Cita, por exemplo, atua de forma voluntaria nas aldeias se virando do jeito que pode, com ajuda de voluntários para que a população indígena não passe fome e não precise se arriscar para vir até a cidade e correr o risco de se infectar.

Ela relata o exemplo de fortalecimento do coletivo nas vivências Borari em meio a pandemia.

“Nós Borari, por exemplo, estamos com projetos coletivos, onde para nós, como o cultivo da terra trazendo cura para o nosso corpo e para a nossa mente. No momento em que mexemos na terra, estamos nos conectando com nossos ancestrais, além de estarmos produzindo alimentos saudáveis e plantas medicinais para o tratamento e para a prevenção do vírus. A troca de alimento entre nós, tem sido muito fundamental, por exemplo, quem pesca troca com quem planta e colhe e assim seguimos na luta para a nossa sobrevivência”.

 

O que ainda se espera

 

Para a artesã e integrante da associação Iwpuirãga, Ediane Farias, é necessário ter um grupo, órgão ou coletivo voltado realmente para as populações tradicionais da região, pois tanto o estado quanto o município até o momento, segundo ela, não apresentaram nenhum planejamento ou estratégia para a proteção e bem viver desses povos em meio a pandemia. 

Ela que é indígena da etnia Borari, destaca o quanto os povos tradicionais ficam à mercê de uma situação alarmante que está matando muitas lideranças, companheiros e companheiras de luta. E para ela além da vacinação para toda população, é necessária atenção para outras questões também.

“Então a saúde, alimentação e a educação também são pontos que devem ser bem visíveis para que os governantes possam tomar uma decisão de estratégia para que os indígenas não fiquem vulneráveis nessas situações”.

Em tempos onde a ganancia fala mais alto, e a população brasileira é quem paga a conta com suas vidas, a falta de amparo dos governantes aos povos tradicionais é extremamente preocupante. Pois, esses povos já sofrem há muito tempo com problemas que afetam diretamente seus modos de vida, como: invasão de territórios, mineração, garimpo, grilagem, e muitos outros.

A falta de acesso à informação e a serviços públicos básicos como a saúde, por exemplo, é algo que já vem sendo enfrentado antes mesmo da pandemia, e nesse momento tudo só se tornou ainda maior. A necessidade desses povos tradicionais por um amparo do poder público é urgente, pois além cada vida perdida, cada uma também leva consigo saberes ancestrais de cura, luta e resistência, que são a força desses povos que protegem o solo sagrado que é o Tapajós.

 

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