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Evangelização dos povos indígenas: Enquanto o genocídio dizimou os corpos, o etnocídio extrai suas almas

Os indígenas não precisam que alguém vá até as aldeia para “salvar as almas deles”. Basta apenas que respeitem seus costumes, territórios e os deixem livres para viverem sua própria cultura.

14/06/2021 18h32
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Evangelização dos povos indígenas: Enquanto o genocídio dizimou os corpos, o etnocídio extrai suas almas

As primeiras missões religiosas que chegaram no Brasil foram da Companhia de Jesus, os jesuítas, no ano de 1549. O objetivo era catequizar os indígenas do território brasileiro no início do período colonial. Isso se deu através da submissão dos povos indígenas a um regime de trabalho e religiosidade totalmente baseado nos valores eurocêntricos da igreja católica da época.

O resultado dessa exploração foi que a Companhia de Jesus levantou um montante considerável, pois recebia ajuda da igreja católica e ainda usava a mão-de-obra indígena em atividades agrícolas como fazendas, engenhos e olarias. E essa rotina de trabalho impostas aos indígenas despertou a cobiça dos bandeirantes em vendê-los como escravos, na época. 

Na região de Santarém as ações de catequização dos indígenas se deu de forma violenta e drástica,assim como  nas demais regiões.  Com o intuito de promover a ocupação do oeste amazônico pela Coroa Portuguesa, Pedro Teixeira organizou uma expedição que saiu do Pará para ir até Quito, no equador. Na sua volta, ao passar pela região de Santarém, ele reconheceu a aldeia Tapajó como a maior da região, e disse que havia um número enorme de populações no arredores e que provavelmente haviam uns 67 mil guerreiros.

Toda essa população foi aprisionada para se tornarem força de trabalhos, pois, para a região, os escravos africanos não eram a melhor opção, devido o auto custo para os patrões. Os indígenas trabalhavam construindo igrejas, em roçados, como soldados e remadores nas expedições.

Em 1661, chegou à região o jesuíta João Felipe Betendorf, na primeira missão jesuíta no rio amazonas.  Esta missão se constituiu com um pequeno povoamento e m torno de uma igreja e, ao logo dos anos, com o avanço das missões religiosas pelo rio amazonas, o povoado cresceu consideravelmente com a descida de milhares de indígenas para a Vila de Santarém. Esse movimento demográfico forçado culminou em grades perdas aos indígenas: genocídio, etnocídio, interferência na organização social e na religiosidade. Com a chegada dos jesuítas, os indígenas passaram, também, a trabalhar coletando drogas do sertão (cacau, castanha-do-pará, baunilha, etc).

Em 1759 os jesuítas foram expulsos do Brasil pela Coroa Portuguesa, mas o desastre já estava feito na vida dos povos indígenas, após esse período os indígenas continuaram a ser atacados, violentados e mortos. No século XXI novas missões intolerantes começaram a invadir os territórios indígenas, agora, com um novo perfil, o Protestantismo ganhou força na Europa e isso refletiu para no países latinos. Nesse momento da história missões protestantes chegaram na Amazônia.

Essas novas invasões religiosas provocaram um novo ataque étnico aos povos indígenas. O resultado das atividades religiosas com os indígenas é tremendamente grave . Eles demonizam a crença ancestral dos pajés e até as bebidas fermentadas (que são fundamentais para perpetuação das crenças) e pregam que os indígenas precisam ter suas almas salvas, desconsideram de todas formas as culturas dos povos nativos e esvaziam dos corpos indígenas a espiritualidade. Enquanto o genocídio dizimou os corpos, o etnocídio extrai suas almas.

Os indígenas, se quiserem, tem direito de viverem isolados, o avanço de atividade de evangelização, bem como os demais tipos de invasões sofridas, colocam em risco a vida das populações indígenas, na bagagem dos religiosos vai junto uma série de doenças e vírus que podem facilmente matar os nativos, desencadeando uma cadeia de problemas.

A intolerância religiosa persegue os povos indígenas desde o período colonial, inicialmente pela igreja católica e, séculos depois, juntou-se a essa perseguição religiosa, o protestantismo. Dados do IBGE      , mostram que, em 1991, 14% da população indígena era evangélica, em 2010 esse número subiu para 25%, o número se elevou e, em 2018 chegou na casa dos 32%

O Conselho de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas  (Conplei) registram mais de 2 mil pastores e lideranças que atuam com a missão de “ver Deus glorificado entre as tribos do Brasil”. O lema do Conplei é, “Em cada povo uma igreja bíblica genuinamente indígena”. E isso só gera mais problemas, pois a história dos povos indígenas é atropelada, desconsiderada.

Os indígenas já foram evangelizados por brancos, agora, com o avanço de mais uma onda de evangelização que vem ganhando força desde os anos 2000, tem-se indígena evangelizado indígena, o processo já se estruturou dentro das aldeias, algo que é muito ruim. Independentemente de quem segura a bíblia, a vulnerabilidade social e econômica é o que facilita a entrada dos missionários nos territórios.

 Esse problema se intensificou ainda mais com a chegada do governo Bolsonaro, a atual Ministra da pasta Mulher, Família e Direitos Humanos, pastora Damares Alves, é a favor da revisão da política de isolamento de indígenas. A ministra é uma figura que ilustra muito bem o “conservadorismo religioso” do atual governo. Damares é fundadora da ONG Antini – voz pela vida, que é investigada pelo Ministério Público Federal por tráfico e sequestro e exploração sexual de crianças.

No Brasil, a religião sempre foi uma forma de conquista. A evangelização é um processo de poder, um reflexo da colonização que se perdura há 500 anos no Brasil, destruindo vidas e a ancestralidade de povos indígenas.

A destruição cultural através de intervenções violentas como os processos de dominação religiosa que ainda ocorrem com os indígenas é umas das formas mais perversas de silenciamento de um povo. Interferência desse tipo colocam em risco a garantia de direitos dos povos indígenas, tendo em vista o tremendo negacionismo que há no atual governo, que não se preocupa em se mostrar totalmente baseados em preceitos evangélicos, desconsiderando pluralidade étnica e cultural na qual o Brasil se consolidou.

É importante que o conhecimento e a filosofia dos pajés sejam respeitadas, todo o conhecimento que eles carregam foi o que garantiu o equilíbrio da vida na terra.  Os cantos sagrados, os rituais de cura, as rezas e todos os saberes ancestrais tornam eles os grandes sabedores do mundo. Os indígenas não precisam que alguém vá até as aldeia para “salvar as almas deles” eles também não precisam “entregara a alma para Jesus”.  Eles já têm as religiões e o deus deles.  Basta apenas que respeitem seus costumes, territórios e os deixem livres para viverem sua própria cultura.

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