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Reportagem Especial Resistência

25 de Julho: Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha

Mulheres negras do Baixo Amazonas falam de suas lutas, da força das mulheres negras e os espaços que ocupam.

25/07/2021 15h48 Atualizada há 2 meses
Por: Tapajós de Fato

Segundo a Fundação Palmares, desde 1992, um grupo de mulheres iniciou a mobilização pela criação da Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas, que juntamente à Organização das Nações Unidas (ONU) conseguiram que a data, 25 de Julho, fosse reconhecida como o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.

No Brasil o reconhecimento ocorreu em junho de 2014, por meio da Lei nº12.987, que institui o dia 25 de Julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, homenageando uma das principais mulheres, símbolo de resistência e importantíssima liderança na luta contra a escravização.

 Mulheres negras do Baixo Amazonas, que estão em diferentes espaços de luta pelos direitos de todas, pelo direito ao meio ambiente, à saúde, à arte e à educação, contarão um pouco de suas lutas enquanto mulheres negras

 A mulher negra professora.

Luane Fróis que é professora da Educação Básica, Integrante do Movimento de Mulheres Negras de Santarém. 

Salve, Tereza de Benguela! Salve a Luta das Mulheres Negras da Amazônia!”Membra do Coletivo de Mulheres Negras Zélias de Monte Alegre. Militante Negra e Mãe do Pedro, Fala da importância do 25 de Julho, “No Brasil, a data homenageia a memória da líder quilombola Tereza de Benguela, esquecida pela hidrografia nacional, assim como muitas heroinas negras. Tereza é símbolo de luta política, coragem, inteligência e resistência do povo negro. Uma data importante para chamar atenção da sociedade, sobretudo, do poder público no que diz respeito às opressões que atravessam o corpo da mulher negra - mulheres de vários lugares - Trans, periféricas, das aldeias e quilombos, dos terreiros, mulheres marginalizadas e subalternizadas. E ainda hoje, essas mulheres são as  principais vítimas de feminicídio, racismo, violência doméstica,  obstétrica,  mortalidade materna, violência policial. A luta pelo 25 de Julho e pelos outros 364 dias  é pelo direito de viver. É por justiça, liberdade, respeito através de políticas públicas voltadas para nossas demandas ...para nós e para as nossas.

A mulher negra nos movimentos sociais.

Izabel Cristina, turismóloga, militante do Movimento Tapajós Vivo (MTV) e do Movimento pela soberania popular na mineração (MAM), fala dos desafios de ser mulher e está na luta dos movimentos sociais.

 “Em nossas organizações populares estamos todos os dias a quebrar uma linha que segura a bola do machismo. Tem horas que a gente cansa, pois exige de nós dinamismo, rebeldia e ousadia. Às vezes eu chego a dizer que isso não me atinge mais, mas atinge sim, o machismo e o preconceito racial ferem a alma, a dignidade, a criatividade.

Eu sempre procurei não interiorizar as ideias as propostas, os projetos ignorados pelo fato de ser mulher. Já vivenciei em lugares onde as minhas ideias foram ignoradas, mas, aí vinha um homem e apresentava as mesmas propostas e elas eram aceitas. Nossa! Isso te desestabiliza, tira você de órbita.

Tenho consciência de que ser uma militante de posicionamento, de deixar bem claro qual é a bandeira que levanto e defendo, isso incomoda muito os homens eles não estão habituados com essa ideia de ser coordenado por mulheres, pois os movimentos populares e sindicais, em sua grande maioria, foram comandados por homens e homens machista que se julgam autossuficiente.

Todos os dias as mulheres têm que provar que tem ideia é que são capazes de coordenador, mobilizar e direcionar um movimento que sejam grandes ou pequenos. Na minha concepção, os desafios hoje estar em nós mesma, em ter coragem para assumir o comando das organizações com um mística e espiritualidade própria.

Mais é preciso saber também respeitar meu espaço, não é pelo fato de ser mulher e estar à frente de um movimento ou coletivo que eu vá me sentir superior aos homens e à outras companheiras, entendendo que a espiritualidade de cada um é que vai fazer a diferença, saber coordenar é diferente de chefiar, sempre primei pelo trabalho em parceira, me respeite que eu te respeito, me trate bem que te trato da mesma forma. Isso vale para todas as pessoas, independente se ser homem ou mulher e ser preta ou branca.

Eu sou preta, do povo preto, filha de pai e mãe pretos e meu sangue e vermelho da mesma cor do povo indígena ou do povo branco. O que me faz diferente no movimento popular é a minha conduta e o tratamento que dou aos mesmo companheiros e companheiras.

Viva a mulher preta! Coragem para continuar na luta e ousadia para renascer e florescer todos os dias diante de tonto machismo e racismo, seja ele encubado ou explícito”.

A mulher negra na Arte.

Danielle Andrade. Engenheira Sanitarista e Ambiental e artista visual, fala como a arte pode ser  uma arma de luta contra o machismo e o racismo que a mulher negra sofre. “25 de Julho é uma data para dar visibilidade e fortalecer a luta de mulheres negras contra o machismo e o racismo, opressões que continuam atravessando nossas vivências e violentando nossos corpos, gerando como consequências a violação e restrição de direitos básicos como o acesso aos serviços de saneamento e à água potável, um dia também para lembrar das nossas mais velhas, mulheres que abriram os caminhos para que hoje nós possamos falar, estudar, ocupar espaços de poder e reivindicar direitos. Refletir sobre o quanto a rede de apoio criada entre mulheres negras é importante para o enfrentamento da violência racial. Como pintora, foi a partir do contato e incentivo de outras mulheres negras que iniciei minha vida artística, produzindo pintura em tela nos quais mulheres negras são protagonistas. O sistema racista tenta excluir, inviabilizar, limitar a presença de corpos negros em várias áreas da sociedade e na arte isso não é diferente, por isso considero a arte produzida por mãos negras um ato de resistência e subversivo. Meus pincéis e materiais de arte também são meus instrumentos de luta, pois faço uso deles para retratar corpos que continuam sendo apagados, hipersexualizados e desumanizados.

Enquanto mulher negra criadora de arte, pintar mulheres negras significa expressar na tela, papel ou qualquer superfície a própria percepção meu ser, da minha identidade e ancestralidade, representa a libertação. Por muito tempo pintores brancos utilizaram estereótipos racistas para representar copos negros, hoje podemos encontrar mulheres pretas que usam a arte para descontruir essa realidade, por isso é necessário dar visibilidade a essas produções.”

A mulher negra na saúde.

 Ingrid Sabrina, 27 anos, mãe do Thomás, Psicóloga, Mulher Negra e Amazônida. Faz parte do Movimento de mulheres negras de Santarém, é Conselheira Municipal da Juventude, integrante da Pastoral da Juventude e da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Santarém. Coordenadora da Abrapso-nucleo Santarém (Associação de Psicologia Social), Integrante da Comissão de Gênero do CRP 10.

Ingrid falou que se sente “contemplada em comemorar o dia 25 de Julho, por ser uma data no qual celebra as mulheres negras da América Latina e caribe, uma data pensada para nós que além do Machismo, sofremos o racismo também.

Minha atuação enquanto Psicóloga Negra, tem sido bastante desafiadora, estou em atuação há 3 anos e tenho encontrado muitos desafios, de estudar, trabalhar, ser mãe e escutar dores, oferecer afetos.

Tenho tentando construir uma Psicologia que seja amazônica, uma Psicologia que fuja desse sistema de patologização, que ofereça de fato humanização e oportunidade de sentir e compreender o outro de uma forma holística integrativa.

A mulher negra no sistema judiciário

Lílian Regina Furtado Braga, Santarena. Promotora de Justiça, aquilombada na 13° Promotoria de Justiça de Santarém, que tem atribuições em temas de meio ambiente, patrimônio histórico e cultural e urbanismo. Faz parte da Comissão de Estudos, Debates, e Combate ao racismo em territórios quilombolas do Ministério Público do Estado do Pará. Atualmente é mestranda do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Direito da Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. E acompanha o MOVIMENTO DE MULHERES NEGRAS DE SANTARÉM e o MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO - MNU. E é mãe da Maria Clara.

Lílian diz que “ser mulher negra dentro do sistema de justiça, é ocupar um lugar em que mulheres pretas e indígenas declaradas são raridades.

Não saberia informar o percentual de mulheres negras no Ministério Público.  Aos poucos tem se realizado censo ético que daqui algum tempo será possível analisar com um pouco mais de fundamento a composição dos órgãos que compõe o sistema de justiça. Ser mulher negra no Ministério Público é para mim a grande oportunidade de fazer parte de uma instituição importantíssima nas relações de efetividade dos direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros.

É desenvolver a imagética para as meninas negras de que esse lugar é para negros também”.

A mulher negra empreendedora.

Alessandra Caripuna, mulher preta e Quilombola. Administradora, coordenadora  da Kitanda Preta,  Afro empreendedora, Militante movimento Negro e de  Mulheres Negras, criadora da Marca de roupas  Negrices Caripuna e Mãe do Zinquê.

Alessandra fala dos desafios e da importância de ser uma empreendedora negra. “Empreender tem suas dores e sabores, desenvolver um trabalho com afeto e profissionalismo dentro de sistema que nos oprime e que não nos dá oportunidades de mostrar que podemos e temos capacidade para gerar renda, é doloroso. Por isso importância do 25 Julho, essa data vem reafirmar nossos passos que vêm de África, nos trazendo para reflexão de que nosso trabalho é importante e vai para além da moda, temos plena consciência do nosso papel de luta contra racismo estrutural, dentro e fora do espaço que ocupamos.  Importante que meninas e meninos negrxs saibam que podem sonhar e realizar seus sonhos, que nos vejam como um caminho possível de viver do seu trabalho, com dignidade, amor, força e Poder. Sejamos inspiração para aqueles que estão aqui e aqueles que ainda virão.

A Negrices Caripuna é também espaço Político.

Salve, Tereza de Benguela!!

Unidas na lutar por igualdade de direitos

Um exemplo dessa união é o Coletivo de Mulheres Negras e Quilombolas de Oriximiná – Dandaras, que foi criado em 2019 a partir de um grupo de dança. Para além da dança, o coletivo trabalha questões sociais, étnico-raciais, igualdade de gênero e política.

Rosivalda Santos, que faz parte da coordenação do Coletivo Dandaras, disse que o Dandaras está dentro da Associação de Remanescente de Quilombolas de Oriximiná (ARQMO), na coordenação de mulheres. O objetivo do coletivo é “trabalhar a potencialidade das mulheres, a valorização da mulher nos seus vários viés, tudo que está ao nosso redor, afinal de contas, nós estamos inseridas num contexto e precisamos avançar cada vez mais”, uma maneria que o coletivo buscou trabalhar a autoafirmação das mulheres foi através da realização de oficinas de confecção de bonecas pretas feitas de pano, com mulheres adultas e com crianças e “tivemos palestra sobre empoderamento feminino, ações voltadas para a beleza negra sobre ancestralidade”. O Grupo tem mais de 40 mulheres participando.

As mulheres negras representam a força e o afeto da mulher brasileira, todos os dias elas estão na luta em busca por respeito e direitos. O Brasil é um dos países mais cruéis para uma mulher viver, é racista, machista, e as mulheres negras são as que mais sofrem os impactos dessa vergonhosa construção e comportamento da sociedade brasileira.

Que a força de Tereza de Benguela permaneça viva dentro de cada uma das milhares de mulheres negras do Brasil!

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