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Empate Resistência

Dia Internacional dos Povos Indígenas: a luta pelo direito ao território e à vida

Há mais de 500 anos os indígenas sofrem os impactos da colonização, a escalada de violência e retirada de direitos aumentam a cada dia.

09/08/2021 19h28 Atualizada há 1 mês
Por: Tapajós de Fato

A data foi criada por decreto da ONU em 09 de agosto de 1995, como resultado da atuação de representantes de povos indígenas de toda a Terra. Essa medida visava criar condições para a interrupção dos ataques sofridos pelos povos indígenas em seus territórios, após mais de quinhentos anos da expansão das formas de invasão colonialistas impostas aos indígenas. Garantir, também,  condições de existência minimamente dignas aos povos indígenas de todo o planeta, principalmente no que se refere aos seus direitos à autodeterminação de suas condições de vida e cultura, bem como à garantia aos Direitos Humanos.

De acordo com o censo do IBGE  de 2010, o Brasil tem 896,9 mil indígenas. Isso significa que o número de indígenas no país em 2010 representava 29,9% do número estimado para 1500, quando começou a colonização, já que em de acordo com a Funai, 500 era de aproximadamente 3 milhões de habitantes, sendo que aproximadamente 2 milhões estavam estabelecidos no litoral do país e 1 milhão no interior. Em 1650, esse número já havia caído para 700 mil indígenas e, em 1957, chegou a 70 mil, o número mais baixo registrado. De lá para cá, a população indígena começou a crescer.

Há 521 anos os donos da terra vêm lutando pelo território e pelo direito à vida, desde a chegada dos europeus em terras brasileiras os indígenas  passaram a ser perseguidos e mortos, até  hoje os exploradores continuam saqueando as riquezas dos territórios e destruindo o ambiente natural, que, além de garantir a pesca a caça e a água.

Com o passar do tempo as lutas dos povos indígenas têm outras faces, mas os povos indígenas estão organizados e alinhados na defesa de suas vidas e os territórios. o apajós de Fato entrevistou a indígena Maura Arapin, da aldeia Braço Grande-TI Terra Preta, povo Arapiun. Maura é  Coordenadora do Departamento de Mulheres Indígenas do Baixo Tapajós, que faz parte da organização do CITA- Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns. 

Para o enfrentamento das lutas, é de extrema importância que os indígenas ocupem os espaços de poder. Maura disse que essa importância se dá porque “é de lá que vem as decisões finais, é lá que decidem o nosso futuro, os Projetos de Lei, é lá que decidem os grandes empreendimentos. e quando se fala nos espaços de poder  a gente não fala somente de política, a gente fala de universidade, hospitais, nas diferentes áreas onde se tem o poder da fala, o poder de decisão. então, ter os povos indígenas dentro desses espaços  é uma garantia de fala, de representatividade indígena, porque só os povos indígenas  sabem de quais as necessidades e quanto uma população sofre, quais são os desejos, quais são as dores, quais são as frustrações. Ter esses espaços ocupados por vozes indígenas é um grande avanço enquanto população tradicional”.

Fazendo uma análise da política, Maura avalia que o resultado é positivo, visto que  muitas vagas nas Câmaras Municipais e a gestão de alguns municípios foram ocupadas por indígenas. “É um espaço onde há décadas vem se lutando por essa representatividade, e quanto os indígenas estão ocupando esses espaços, significa que nós estamos nos organizando e colocando as pessoas para nos representar. quando se tem uma voz indigena calada dentro desses espaços de poder é como se calassem uma população inteira. Os povos indígenas vem ocupando esses espaços de decisão justamente por isso, para garantir o direito de fala e a representatividade através desses conhecimentos de dores e frustrações. mesmo que se tenha um  indígena dentro desses espaços de decisões, a gente costuma falar que ele também nos representa seja ele de qualquer povo, seja da região Sul, Norte, independente disso nós nos sentimos representados porque é um espaço de poder, é uma voz indígena falando e não existe uma pessoa mais importante, que conheça a luta dos povos indígenas do que um próprio indigena. Quando se elege um vereador, se elege um povo”, disse Maura Arapium.

Ultimamente o governo brasileiro tenta, de várias formas, acabar com as terras indígenas e com a vida dos povos originários, a luta para defender o território é o principal desafio que está sendo enfrentado. “Há muito tempo  tem se  travado lutas árduas, principalmente para a sobrevivência e resistência dos povos indígenas, no Brasil, mas, atualmente, as principais lutas dos povos indígenas é a garantia do direito aos seus territórios”.

O governo vem aprovando projetos que ferem a existência dos indígenas dentro dos seus territórios, e nós existimos aqui muito antes de dizerem que o Brasil foi descoberto. Os  povos indígenas enfrentam  uma luta para sobreviver dentro de sua própria mãe, que é a nossa mãe terra. Quando fere o direito à terra, quando fere o direito de território, fere todos os direitos, fere o direito à educação, à saúde. E quando se trata de luta territorial, está incluso tudo isso, o meu território não é só onde eu resido, a minha aldeia, é todo o espaço que eu, enquanto indígena ocupo, seja ele universidade ou espaço político, lá também é o meu território. Por isso, a nossa luta maior é defender o nosso território, a demarcação das Terras Indígenas. Quando um governo aprova um projeto que favorece ao agronegócio, que favorece à matança dos nossos rios de onde tiramos a nossa sobrevivência, está também matando a população indígena”, disse a Coordenadora de Mulheres do CITA.

As lutas travadas há séculos são para garantir a vida das futuras gerações dos povos indígenas. Os mais velhos têm as experiências e conhecimentos ancestrais, e a juventude tem a força para lutar. Maura Arapiun avalia que é preciso que estas duas pontas estejam alinhadas e caminhem juntas. “A juventude vem ocupando espaços muito importantes na defesa dos povos indígenas, elas vem se fortalecendo umas às outras para que a sua voz seja respeitada, embora muitas pessoas tentem calar, embora as violências que vem acontecendo tentam  intimidar os jovens, mas a gente ver que a população jovem indígena está cada vez mais responsável por sua luta, e tomando para si a responsabilidade de lutar em defesa de suas terras, em defesa de seus direitos. Os jovens vem lutando com todas as classes, sejam elas adultas, os mais velhos,  ele tem tomado consciência de que deve ocupar esses espaços onde as mulheres e os mais velhos não podem estar”.

Mas o cenário é assustador, a proporção que tem a violência contra os indígenas é tão grande que em algumas vezes acaba afastando a juventude da luta. Maura conta que estar à frente das lutas indígenas é está sob risco de ter a vida ceifada, a morte  da indígena Daiane Griá Sales, jovem indígena kaingang, de 14 anos, que teve o corpo dilacerado dentro uma lavoura no estado do Rio Grande do Sul, agora no mês de agosto é o reflexo dessa violência. Maura diz que, quando isso ocorre, a juventude também morre, “porque foi tirado uma parente de dentro de nós, foi retirado um corpo e devolvido para a Mãe Terra, mas foi tirado de uma forma brutal! Onde milhares de jovens tentam sobreviver dentro desses ataques. Quando se vive dentro de um território de conflitos , a juventude, muita das vezes fica com medo, mas ela vem se fortalecendo com esses acontecimentos, isso vai instigando cada vez mais os jovens  a lutar em defesa do seu território e ocupar os espaços de falas e de decisão.” 

Maura diz que os jovens estão mais empoderados e preparados para enfrentar os desafios. “O jovem precisa primeiro ouvir o mais velho para saber como, de fato, é a luta. A luta não se inicia em redes sociais, na cidade, a luta se inicia na aldeia, que é o nosso espaço de construção, é o espaço onde nos fortalecemos”. Ela diz ainda que, em alguns casos, os jovens são calados pelas lideranças, às vezes, as lideranças mais velhas não confiam naquele jovem , mas quando se anda lado a lado, juventude a anciões, acredito que se tem muito a aprender. o jovem sai mais fortalecido e mais ciente de qual é seu papel dentro da sociedade, dentro de um movimento indígena”. Na visão de Maura, os jovens estão ocupando os espaços, mas estão ocupando de uma maneira mais atual, "através das redes sociais, se formando através da mídia, denunciando através da mídia, e isso é importante, que os jovens possam ocupar cada espaço onde se possa fazer as denúncias  contra os ataques aos nossos direitos originários.” disse a indígena do povo Arapiun.

Ela finalizou dizendo que os povos indígenas estão resistindo a cada dia que se passa, pois a luta dos povos indígenas é uma luta que nunca vai parar e que nunca parou. “muitos dos nossos foram mortos lutando pela defesa do nosso território, e muitos de nós vamos sobreviver porque nós vamos continuar lutando para que os nossos territórios sejam demarcados, para que os nossos direitos sejam respeitados, para que a Constituição Federal seja respeitada. Se for basear na CF, nós temos direito à terra, nós temos direito à cultura, temos direito à nossa crença, e por tudo isso nós travamos uma luta grande e vamos continuar, não é fácil, mas nós não vamos parar. Não há política, não há governo que vai calar a voz dos povos indígenas.

 

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