Segunda, 27 de Setembro de 2021 00:17
093991489267
Notícias Da Luta Não Fujo

Da Luta Não Fujo: Conheça a trajetória Padre Edilberto Sena, liderança do movimento social, no Tapajós

Fui aprendendo que não basta ligar minha vida a Deus. Jesus me ensinou que construir o reino de Deus só acontece cuidando da vida na terra

03/09/2021 12h44 Atualizada há 3 semanas
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Tapajós de Fato
Tapajós de Fato

Escritor, comunicador popular e ativista social. Esse é o Padre Edilberto Francisco Moura Sena, natural de Belterra, atualmente com 78 anos de idade. Iniciado na vida eclesiástica por meio da Ordem Franciscana, Pe. Edilberto é também um dos fundadores do Movimento Tapajós Vivo, foi diretor da Rádio Rural, e já lançou os livros “Amazônia: o que será o amanhã?” e “Uma revolução que ainda não aconteceu”. É formado em Filosofia, tendo estudado um ano na faculdade interna dos franciscanos do Nordeste, e dois anos nos USA, em um instituto franciscano de Quincy, Illinois. Além disso, tem formação em Teologia, no Instituto Teológico da Arquidiocese de Salvador, Bahia. Já visitou diversos países, sempre em busca de aperfeiçoamento, e concedeu entrevista ao Tapajós de Fato, para contar sua trajetória.

 

O início da Missão

Bem-humorado e carismático, Pe. Edilberto Sena revisitou seu passado ao dividir sua história com o Tapajós de Fato. Ainda muito jovem, aos 14 anos de idade, é convidado para ser padre, em Belterra, à época distrito de Santarém. Prontamente, ele aceita o desafio e, para concretizar o plano, parte para a Paraíba. Lá, Pe. Edilberto ingressa no seminário franciscano, onde permanece até seus 21 anos, e de onde segue para Pernambuco e torna-se frade franciscano, em 1963. Sete anos mais tarde, em 1970, é ordenado padre franciscano, em pleno auge da Ditadura Militar. Logo em seguida, pe. Edilberto tem sua primeira experiência pastoral na cidade de Monte Alegre, onde viveu de 1971 a 1975, quando retornou para Santarém, com o objetivo de trabalhar na formação de seminaristas. Atualmente, o padre continua em Santarém e está aposentado da paróquia, mas continua em missão, na ocupação do bairro Bela Vista, no Saubal, e na Comissão Justiça e Paz da arquidiocese de Santarém. 

 

Fé e ativismo andam de mãos dadas

“Ao longo dos meus 78 anos comecei seguindo a fé de meus pais tradicionais. Quando jovem frade, período de 60, 70 e 80, acompanhei a evolução teológico pastoral da Igreja, período do surgimento da Teologia da Libertação.Fui aprendendo que não basta ligar minha vida a Deus. Jesus me ensinou que construir o reino de Deus só acontece cuidando da vida na terra , a minha e as dos outros. Então, as questões sociais fazem parte da evangelização. Assim fazia Jesus, e assim tento eu fazer”. É assim que Padre Edilberto justifica sua ligação tanto com a Igreja como com os movimentos sociais. Duas experiências de vida foram fundamentais em seu amadurecimento de ligação entre a fé e a luta social. Uma delas foi sua vivência de sete anos morando na área onde hoje é o bairro Santarenzinho, entre 1981 e 1988, quando ali era apenas o fim da cidade; a outra foi sua estada de 7 anos na região do Lago Grande do Curuai, de 1994 a 2000. Viver com o povo lhe ensinou que “fé sem obras nada vale”, em suas próprias palavras.

 

As mãos e a voz comunicam a Luta

Através dos livros que escreve e de seus trabalhos na rádio, Padre Edilberto comunica aquilo em que acredita e que defende. Tendo estudado comunicação popular em rádio na academia comunicacional de Hilversum, na Holanda, e continuado os estudos nessa área em Costa Rica, esteve por 12 anos na direção da Rádio Rural (RR), onde também comandava seu próprio programa. Nesse mesmo período, ele fundou a Rede de Notícias da Amazônia (RNA), cujo objetivo é unir as várias emissoras de rádio instaladas nos municípios da região amazônica. A Rede, hoje, conta com 20 emissoras, em 7 dos 9 estados da Amazônia, faltando apenas os estados de Tocantins e Mato Grosso. Além disso, pe. Edilberto lançou, em 2014, o livro “Uma revolução que ainda não aconteceu”, escrito em 2013 durante uma viagem de três meses à Itália. De acordo com ele, trata-se de uma interpretação de quem viveu a época da ditadura militar. Anteriormente, em 2009, ele já havia lançado outro livro, “Amazônia, o que será amanhã?”, resultado da reunião de seus editoriais diários produzidos e apresentados na Rádio Rural de Santarém. Atualmente, o padre se dedica a escrever mais um livro, ainda sem data de lançamento.

Luta contra quem?

Reconhecido como um líder do ativismo local, Padre Edilberto é alvo de ataques frequentes por conta do trabalho que realiza. Isso não é de hoje. No início de sua carreira na Rádio Rural, em 1977 – período da Ditadura Militar –, quando produzia um programa intitulado “A Bíblia em sua vida hoje”, que discutia as questões da vida cotidiana à luz da Bíblia, o padre foi ameaçado pelo diretor da Polícia Federal, sob acusação de subversão: “é, então, se cuide, se preocupe, porque você está sendo vigiado”. Já recentemente, segundo relatado pelo padre em sua entrevista, aconteceu o seguinte episódio: “Um dito locutor de TV online, no Facebook me acusou de ser guerrilheiro de Cuba, vagabundo e contra o progresso”. Um dos advogados responsáveis pela defesa do padre, Ciro Brito, afirmou que foi feita uma tentativa de diálogo com o apresentador, com o apoio de um delegado, mas o acusado não foi encontrado. Assim, foi enviada a ele uma notificação extrajudicial, pedindo sua retratação. Como o pedido não foi atendido, foi iniciado um processo penal, que está se desenrolando no Juizado Especial Criminal de Santarém. A defesa do padre alega que, apesar de reconhecer a importância da imprensa para a democracia, e que há liberdade de expressão na divulgação de informações, isso não pode gerar ataques contra outras pessoas. As palavras proferidas pelo apresentador, segundo o advogado, ultrapassam o campo da liberdade de expressão. Ainda assim, apesar dos ataques, o padre se mantém na luta.

 

Luta em várias frentes

Atualmente, Padre Edilberto é presidente da Rede de Notícias da Amazônia, membro da Comissão Justiça e Paz da arquidiocese de Santarém, membro do Movimento Tapajós Vivo, produz notícias e análises radiofônicas para a emissora da Rio Mar, de Manaus e para a Rede Pan Amazônica, que reúne emissoras de Bolívia, Brasil, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela. Quando questionado sobre sua posição de liderança, pe. Edilberto afirma simplesmente: “Um verdadeiro líder é aquele que forma outros líderes”, mostrando que continuará na luta ao lado dos seus.

Acesse as redes sociais do Tapajós de Fato: FacebookInstagram e Twitter.

 Acesse ainda o Podcast Tapajós de Fato

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.