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Reportagem Especial 7 de Setembro

Especial História de Verdade: a Cabanagem e a Independência do Brasil

Cerca de 30 mil pessoas morreram durante os cinco anos da Cabanagem, o equivalente a 30% da população do Grão-Pará.

07/09/2021 10h54
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Especial História de Verdade: a Cabanagem e a Independência do Brasil

Ao contrário do que se fez crer ao longo dos anos, o processo de Independência do Brasil não ocorreu de forma pacífica. Na verdade, muito do que se encontra nos livros de História em relação ao acontecimento do dia 7 de setembro de 1822 são retratações fantasiosas. A realidade do evento proclamado com o Grito do Ipiranga foi muito mais dura e marcada por derramamento de sangue, especialmente no Estado do Grão-Pará, região que hoje corresponde ao estado do Pará

 

Já raiou a Liberdade/No Horizonte do Brasil 

Nos meses antecedentes a setembro de 1822, havia muitos conflitos ocorrendo entre brasileiros e portugueses. De um lado, Portugal desejava que o Brasil retomasse sua posição de colônia; de outro, o Brasil havia conquistado sua elevação a Reino Unido com Portugal e Algarve e desejava manter sua autonomia – através da independência. Para alcançar seus objetivos, o parlamento português fez D. João VI prisioneiro e reduziu significativamente o poder de D. Pedro. Além disso – e este fato foi o que levou ao Grito do Ipiranga –, Lisboa enviou 7.100 soldados que, somados aos seiscentos que já estavam na Bahia, tentariam atacar o Rio de Janeiro e destruir aqueles que fossem favoráveis à Independência. Junto com essa notícia, recebida por D. Pedro já no dia 7 de setembro, vinham recomendações do ministro brasileiro, a favor da Independência, José Bonifácio, para que separasse definitivamente o Brasil de Portugal. Irritado e pressionado, o regente assim o fez. Como disse o historiador Aldrin Moura: ‘’não houve um Grito do Ipiranga como vimos em pinturas ou cinemas. O que houve foi um comunicado de Dom Pedro I, para seus companheiros [...]”.

 

Brava Gente Brasileira 

 Após o processo de Independência, as questões de cunho social, político e econômico não foram alteradas. Por essa razão, a adesão à Independência, principalmente na região do Grão-Pará, foi tardia. Em 1823, a província lutava contra a Independência do Brasil, luta essa que contava com a participação de índios, escravos, trabalhadores, pequenos comerciantes, dentre outros membros da sociedade local. Em janeiro deste ano, o Cônego Batista Campos liderava um grupo de revoltosos, denominado Os Patriotas, com o apoio do povo das vilas de Cametá, Vigia Macapá, Mazagão, Monte Alegre e Santarém. 

 

Ou ficar a Pátria livre…

 Devido à demora da província em aderir ao processo de Independência, Dom Pedro I enviou ao Grão-Pará um comandante de fragata inglês, John Grenfell, encarregado de incorporar o Pará ao Brasil. No dia 11 de agosto de 1823, Grenfell chegou a Belém e bloqueou os portos da cidade. Ainda, assegurou que viera para oficializar a definitiva condição do Brasil como nação livre e manter a ordem na província. Pressionou a Junta Governativa para que a adesão paraense acontecesse logo, fato que ocorreu no dia 15 de agosto. 

 

Ou morrer pelo Brasil

No dia 20 de outubro de 1823, 256 revoltosos presos por Grenfell, que estavam na cadeia pública, foram transferidos para bordo de um brigue que ancorou no meio da baía de Guajará. As escotilhas foram fechadas e apenas uma fresta ficou aberta para entrada de ar. O calor levou os presos ao desespero. Reivindicando a abertura das escotilhas, devido à falta de ar, os presos gritavam, clamando por água e ameaçando as autoridades paraenses.

Foi atirada sobre eles água de má qualidade, gerando uma agitação entre os cativos. Temendo que estes conseguissem sair do porão do navio, os guardas atiraram para dentro do brigue e lançaram sobre a multidão cal virgem. Por duas horas os presos debateram-se em agonia. Em três horas ouvia-se apenas silêncio.

Na manhã do dia 22.10.1823, quando as escotilhas foram abertas, havia no porão 252 corpos, cobertos de sangue e dilacerados. Uma longa vala comum foi escavada para recebê-los. As feições disformes e cobertas de cal, branco, dos mortos lembravam palhaços, motivo pelo qual o Brigue São José Diligente foi depois renomeado como Brigue Palhaço. Esse episódio deixou os ânimos ainda mais exaltados e marcou um momento de consciência política e de identidade paraense, evidenciado mais tarde, em outros movimentos, como a Cabanagem, que eclodiu em Belém, em janeiro de 1835.

 

Vossos peitos, vossos braços/São muralhas do Brasil

A abdicação ao trono de D. Pedro I, em 1831, teve reflexos violentos no Grão-Pará. Liderados pelo cônego Batista Campos, os cabanos – pessoas pobres que viviam em cabanas à beira dos rios, composta também por indígenas e ex-escravos – depuseram uma série de governantes nomeados pelo Rio de Janeiro para a província. Em dezembro de 1833, o governo conseguiu controlar a situação, e Bernardo Lobo de Sousa assumiu o governo da província. As atitudes de Lobo de Sousa aumentaram a agitação e o descontentamento da população. Os cabanos foram apoiados pelos irmãos Antônio e Francisco Vinagre, lavradores do Rio Itapicuru, do seringueiro Eduardo Nogueira Angelim e do jornalista do Maranhão Vicente Ferreira Lavor.

À medida que o movimento avançava, por medo da ameaça de radicalização, a elite que se uniu à revolta dos cabanos recuou e estes últimos assumiram o controle. Em janeiro de 1835, dominaram Belém e executaram Lobo de Sousa. Assim, instituiu-se o primeiro governo cabano, entregue ao fazendeiro Félix Antonio Malcher, que, com medo da violência das camadas mais pobres da população, perseguiu os membros mais radicais do movimento. Mandou prender e deportar Eduardo Angelim e Francisco Vinagre e jurou fidelidade ao imperador, o que causou sua deposição e execução.

Francisco Vinagre assumiu o segundo governo cabano, mas não conseguiu resolver as divergências entre os revoltosos, e os traiu, ao permitir que as forças regenciais retomassem Belém. Isso fez com que os cabanos, vencidos na capital, retiraram-se para o interior. No entanto, por serem profundos conhecedores da terra e dos rios, eles infiltraram-se nas vilas e povoados e conseguiram a adesão das camadas mais humildes da população. Liderados por Antônio Vinagre e Angelim, reforçaram suas tropas e retomaram Belém. Com a morte de Antônio, Eduardo Angelim foi escolhido para o terceiro governo cabano, que durou dez meses. 

No entanto, os cabanos, durante todo o longo período de lutas, não souberam se organizar. Abalados por divergências internas, sem um programa de governo, sofreram também uma epidemia de varíola. O regente Feijó decidiu restabelecer a ordem na província. Em abril de 1836, mandou ao Grão-Pará uma poderosa esquadra comandada pelo brigadeiro Francisco José de Sousa Soares de Andrea, que conseguiu retomar a capital. 

Os cabanos abandonaram outra vez Belém e retiraram-se para o interior, onde resistiram por mais três anos. A situação da província só foi controlada pelas tropas do governo central em 1840. A repressão foi violenta e brutal. Incapazes de resistir mais, os rebeldes foram subjugados. Ao fim do movimento, cerca de 30 mil habitantes do Grão-Pará – 30% da população – haviam morrido pelas mãos de mercenários e pelas tropas governamentais. Assim terminava a Cabanagem, uma continuação da Guerra da Independência.

 

Parabéns, oh, Brasileiros!

Ainda hoje, encontram-se vestígios dos diversos combates ocorridos durante a Cabanagem, como trincheiras cavadas pelos cabanos. Segundo os moradores atuais, elas serviam para atrasar os perseguidores dos cabanos mata a dentro. Existem também vestígios ideológicos: é comum a ideia de cabano remeter a bandidos e malfeitores. Apesar disso, a memória do movimento permanece viva nos descendentes dos cabanos e os impulsiona a continuar lutando por seus direitos. Na comunidade de Cuipiranga, em Barcarena, que fica na margem direita do Rio Arapiuns, entre o Rio Arapiuns e o Rio Amazonas, constituiu-se um dos principais polos de resistência da revolução popular da Cabanagem – lá, os guerreiros mestiços lutaram contra as forças militares do império brasileiro. Assim, a Cabanagem ainda está presente na memória das lideranças mais velhas da região. O movimento da é comemorado como um exemplo de resistência pela população que se autoidentifica como indígena, e as lideranças celebram eventos, como ocorreu em Cuipiranga, em 2011, onde a comemoração dos 175 anos da Cabanagem ressaltou a resistência dos tapuios e cabanos. O movimento indígena faz da Cabanagem uma história do presente. Com essa disposição política, no contexto conflituoso do Baixo Tapajós, os indígenas e mestiços ressurgidos na história como índios não vencidos pela repressão sofrida na Cabanagem, ainda resistem, colocando-se como obstáculo ao avanço de interesses econômicos e governamentais.

 

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