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Reportagem Especial Da Luta não Fujo

Da Luta Não Fujo: Conheça a história de Marilene Rodrigues Rocha, guerreira na defesa dos direitos das mulheres do campo

“Eu me coloquei mais representando as mulheres do campo... eu tento ajudar e valorizar... me colocar no lugar daquela que está lá no roçado”.

11/09/2021 10h07 Atualizada há 2 semanas
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Da Luta Não Fujo: Conheça a história de Marilene Rodrigues Rocha, guerreira na defesa dos direitos das mulheres do campo

Agricultora, mãe de família, sindicalista e ativista social, Marilene Rodrigues Rocha, atualmente com 52 anos de idade, é natural da comunidade Santo Amaro, localizada na Resex Tapajós-Arapiuns. É integrante do Movimento Tapajós Vivo e da Associação de Moradores Agroextrativistas e Indígenas do Tapajós (Ampravat). Além disso, Marilene é diretora social da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Santarém (AMTR), secretária de Administração e Finanças do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém (STTR), membro do Comitê Gestor do Fundo Dema e tesoureira da Cooperativa dos Trabalhadores Agroextrativista do Oeste do Pará (Acosper). Muito bem-disposta, Marilene Rocha concedeu entrevista ao Tapajós de Fato, falando sobre suas experiências pessoais e profissionais na região do Tapajós e Baixo Amazonas.

 

O caminho trilhado

Em sua conversa com a equipe do Tapajós de Fato, Marilene Rocha conta que sempre gostou de fazer parte da Igreja Católica, de organizações, comitês – como o do Fundo Dema – e associações, como o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém.

 

Assim, sua jornada dentro do STTR iniciou-se em 2007, quando assumiu a diretoria do sindicato, substituindo o ex-diretor, que teve seu mandato cassado. Após isso, em 2008, ocupou a administração e a tesouraria do sindicato, funções que assumiu até o ano de 2012. 

 

Em seguida, até 2016, Marilene foi vice-presidente da associação. Nesse período, o presidente Manoel Edivaldo, conhecido como “Peixe”, passa a ter a responsabilidade de participar do Comitê Gestor do Fundo Dema, como representante na articulação, análise e aprovação de projetos. Além disso, seu trabalho dentro do Comitê foi de levar informações às associações sobre esses projetos do Fundo Dema. Ao mesmo tempo, foi presidente da Casa Familiar Rural de Santarém (CFR), por 2 mandatos.

 

Desde 2019, Marilene integra, também, o Movimento Tapajós Vivo (MTV), embora desde muito antes já acompanhasse o movimento. Ela relata que se uniu ao coletivo por “ser moradora da área da Resex [Tapajós-Arapiuns] e morar na beira do rio Tapajós, sabendo quanto nosso rio tá sendo prejudicado pela poluição, pelas agressões ambientais das empresas... dos garimpo, da hidrelétrica... foi pelo amor mesmo à nossa região, à nossa classe”, conta ela. 

 

A luta se faz com a família

Casada e mãe de 3 rapazes e 1 moça, Marilene relata sobre sua vinda da comunidade para Santarém: “meus filhos tiveram que acompanhar tudo comigo... meu esposo ele nunca veio pra cidade, ele mora no interior... e toma conta das nossas coisa... e ele mudou totalmente aquela vida agressiva que ele tinha... hoje ele é outra pessoa, ele entendeu que o movimento defende muito a nossa categoria”. 

 

Além disso, o apoio da comunidade, principalmente na Igreja, é de grande importância na caminhada de Marilene: “eu me sinto muito fortalecida”, diz ela. Da mesma forma, seus pais, Frediano Rocha, de 84 anos, e Mirta Rodrigues, de 83, a apoiam. Ambos contribuem financeiramente com o STTR, muito incentivados pela atuação da filha na associação.   

 

A força da mulher amazônida

“Eu quero ver cada mulher alegre trabalhando lá na roça, mas que chegue, tenha seu alimento para comer, criando seus próprios animaizinhos nos seus quintais e... eu fiquei muito gratificada de fazer parte da casa família rural e ter alguém que diz assim olha eu passei na Casa Familiar Rural, e a dona Marilene ajudou com muita parceria”. É assim, com muita emoção, que Marilene fala sobre o apoio que vem dando às mulheres do Tapajós durante esses anos. Ela deixa claro, porém, que contou com o apoio de muitas outras mulheres durante sua trajetória nos movimentos sociais e dentro do STTR: “Não é só eu de mulher... tem a Secretaria da mulher, tem a Secretaria da Juventude, que é uma mulher, tem a secretária de políticas sociais e tem outras”. Dentre suas companheiras, em especial, Marilene cita Maria Ivete Bastos, Marta Campos e a já falecida Derci Godinho, que a acompanharam de perto.

 

Sua determinação e seu forte posicionamento ao lado das mulheres da área rural, agricultoras e chefes de família foram o motor da construção da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Santarém (AMTR), projeto que nasceu graças à sua representação junto à Ford, conforme ela contou ao Tapajós de Fato: “mas assim eu me coloquei mais representando as mulheres do campo... eu me vejo muito com mulher que cada mulher que mora na área rural ela que trabalha e faz toda a economia da casa né... a gente dava também assistência na construção de uma associação de mulheres... aí foi a época que apareceu um projeto, um apoio, da organização Ford, [através do da Fase e Fundo Dema], ela é de outro país, dos Estados Unidos. Veio uns doadores de lá que queriam conhecer na Amazônia alguma organização de mulheres, e aí apontaram que a região do baixo Amazonas tinha muito conflito nas hidrelétrica, nas barragens, o agronegócio muito forte, e as mulheres estavam passando um momento difícil e aí me escolheram para ir representar nesse um jantar, uma reunião com jantar em Belém... e essa reunião teve sucesso, porque eu fui falar em nome das mulheres daqui da Amazônia... veio mulheres do Maranhão, de Rondônia e do Acre, e nós conseguimos puxar esse projeto pra cá... então através desse projeto, a gente conseguiu criar a Associação de Mulheres no município de Santarém”.

 

Sobre os sonhos realizados ao lado de suas companheiras de luta, Marilene relata: “Por mais que eu tenha esse acúmulo de trabalho... não só eu, mas com as colegas, a gente se junta, é... a gente consegue algum projeto já que veio apoiar as nossas colegas... dentro da associação de mulheres, um carro, pequenos projetos que chegou lá no quintal da agricultora como tela pra pintinho, moinho, um motocultivador... eu fico assim alegre, não só eu, mas outras colegas”.

 

A esperança também resiste

 

Atualmente, Marilene Rocha ocupa mais uma vez, desde 2016, a tesouraria do STTR, até o final deste mês. Além disso, ela trabalhará na tesouraria da Acosper até março de 2022. Ela não chegou a concluir o Ensino Fundamental, mas afirma que fará o possível para completar seus estudos, objetivo já alcançado por seus 4 filhos. Sua residência atual é na cidade de Santarém, porém sua vontade é retornar à sua comunidade após o encerramento de suas atividades no STTR. “Tem muita coisa assim que eu acho que... que eu vou ainda... participar melhor”, diz ela. 

 

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