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Política Retrocesso

Vereador homenageará a chegada de supremacistas brancos em Santarém

A Constituição eleva um Estado Democrático de igualdade. A proposição é inconstitucional, por conta do histórico escravocrata e do caráter supremacista e racista do grupo comemorado.

13/09/2021 10h18 Atualizada há 2 semanas
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Vereador homenageará a chegada de supremacistas brancos em Santarém

A Câmara de vereadores de Santarém fará na próxima terça-feira (14), uma sessão especial para homenagear a chegada de ex-confederados  em Santarém. A proposta é do vereador Carlos Silva, do Partido Social Cristão e foi aprovada por unanimidade pelos vereadores do município. 

 

Os Confederados surgiram nos Estados Unidos após o então presidente  declarar livre todos os escravos do país,  esse grupo que emprega  de ativistas supremacistas brancos não aceitaram a decisão e organizaram-se em mais de 11 estados americanos para defender seus ideais anti-negro, e mesmo tendo sofrido uma derrota na Guerra de Secessão Americana, ou Guerra Civil, nos anos de 1861 e 1865, o grupo não parou. Começou então um processo de emigração para diferente lugares, um grupo que pretendia ir para o México,  que é o país da América Latina  mais próximo dos EUA, decidiram vir para o Brasil, não somente por causa da hospitalidade e o processo de ocupação da Amazônia, vieram para o Brasil porque ainda vigorava o sistema escravista, esse é o motivo mais forte da vinda de diversas famílias para cá.

 

Um dos navios com famílias ex-confederadas desembarcou em Santarém, aqui se apropriaram  de terras e implantaram seus novos modos de vida. No requerimento, o artigo de Hélcio Amaral de Sousa  é usado pelo vereador para contextualizar o motivo da sessão honrosa, mas que não é dada as devidas referências ao autor, fala que  "Os ex-confederados foram os primeiros a cultivar as férteis terras pretas localizadas no platô…”. Há, nitidamente, uma tentativa  de deslegitimação da forma como a população local fazia uso da terra. Para o professor de Antropologia da Ufopa, Florêncio Vaz, “trata-se da velha sequência de repetições de afirmações ufanistas sobre um falso espírito superior, engenhoso e empreendedor dos ex-confederados, e que indiretamente parece dizer que antes nossa gente era inculta e desconhecia a agricultura”.

Florêncio diz ainda que engenhosos são os indígenas, os caboclos porque eles “não apenas usaram as terras pretas, mas criaram as terras pretas; não apenas cultivavam a mandioca e a pupunha, mas, antes,  domesticaram essas espécies, que hoje alimentam nossa população, inclusive os descendentes dos Riker e Jennings.

Diante da circulação da notícia, 15 organizações lançaram uma nota repudiando o posicionamento da câmara de vereadores em promover homenagem para a chegada de supremacistas brancos em território santareno, um trecho da nota diz que “Falar em ‘Confederados’ nos dias atuais, significa celebrar as ideias supremacistas, cujo grupo de atuação terrorista é a Ku Klux Klan, que atualmente conta com dezenas de grupos ativos em diversos estados no sul dos Estados Unidos.”

Os movimentos dizem em nota que é “lamentável”, que na cidade de Santarém, cidade construída por negros e indígenas, tenha “uma celebração ao terror, ao racismo e à violência covarde perpetrada” pelos Confederados. 

A nota é finalizada cobrando mais responsabilidades do poder legislativo. “Esperamos da Câmara de Vereadores de Santarém, casa da democracia em nossa cidade, um posicionamento que, longe de referendar e celebrar supremacistas, se coloque ao lado do povo, e contra o racismo e à ideologia de supremacia branca que confederados representam na história”.

Para o advogado popular Ciro Brito, o Poder Legislativo deveria “homenagear entidades  e/ou grupos que destacam a diversidade da sociedade que não tenham históricos de violações de direitos humanos e de ideologias supremacistas''. Do contrário, o Poder Legislativo vai na contramão dos anseios democráticos”.

A Constituição já estabelece leis que impedem manifestações como estas, o advogado destaca que: “A Constituição eleva um estado Democrático destinado a assegurar a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos. E no seu artigo 4º, inciso VIII, repudia o terrorismo e o racismo. Por isso, pode-se considerar essa proposição como inconstitucional, por conta do histórico escravocrata e do caráter supremacista e consequentemente racista do grupo ‘comemorado”.

Para Carla Ramos Munzanzu, professora do Departamento de Antropologia da Ufopa, essa atitude do vereador representa uma tentativa de “levar de volta, ou nos manter aprisionados, no presente racista e violento que os tais ‘confederados’ insistem em tentar recriar”. 

Carla estudou vários anos nos EUA  e conta que, em 2017, um confronto violento  na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia, “manifestação supremacista branca que terminou com uma morte e muitos feridos”. Carla conta ainda que “Aquela foi considerada uma das maiores manifestações do nacionalismo branco das últimas décadas nos Estados Unidos”.  A literatura sociológica e historiográfica diz que: “Confederados é sinônimo de supremacistas brancos que seguem uma ideologia racista, patriarcal secular”, que ainda hoje encontram ecos e espaços para se difundir”.

É preciso entender quais foram as motivações do vereador Carlos Silva  do Partido Social Cristão para querer “promover a celebração desse tipo de grupo político”, pode ser também que “as famílias citadas no documento que justifica a sessão especial, nem se classificam dessa forma, como ‘famílias confederadas'''. Mas Carla alerta para uma outra situação: “aquele muro no pequeno condomínio de casas, no centro de Santarém, que ostenta uma bandeira confederada é sinal de alerta. E, o aspecto simbólico nestes casos, comunica muito bem os seus significados para um audiência mais atenta”.

A Professora termina dizendo que “o Movimento Negro Unificado (MNU) está organizando uma série de atos de repúdio à sessão especial que pretende celebrar os “confederados”. Acho que em Santarém, não vai ter espaço para a estátua de Robert Lee, e que #VidasNegrasImportam”.

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