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Reportagem Especial Resistência

Da Luta Não Fujo: Acompanhe os passos da educadora popular Sara Pereira

“Fazer Educação Popular na Amazônia, por mais desafiador que seja, é sobretudo uma grande um grande prazer, uma grande alegria”

14/09/2021 16h03 Atualizada há 2 semanas
Por: Tapajós de Fato
Da Luta Não Fujo: Acompanhe os passos da educadora popular Sara Pereira

Uma verdadeira aula. Assim se pode definir uma conversa com Sara da Costa Pereira, de 42 anos. Formada em Letras pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e em Direito pela Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), e mestranda em Ciências Sociais também pela UFOPA, Sara é educadora popular pela Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) e envolvida em diversos movimentos sociais desde muito jovem. Com muito bom humor, Sara concedeu entrevista ao Tapajós de Fato, pedindo dispensa da formalidade, ao não aceitar o tratamento de “senhora”.

 

“A educação é um ato de amor”

 

“Eu podia ser doutora, mas escolhi ser educadora, porque eu fiz Direito, mas até hoje não quis fazer a prova da Ordem... o fascínio da Educação Popular é uma questão que realmente me move e me comove”. É assim que Sara Pereira descreve o seu sentimento pelo trabalho com Educação Popular. 

 

Seu apreço pela educação é herança do amor de sua mãe e do carinho de seu pai. Tendo se mudado com os pais e seus doze irmãos do PAE Lago grande para a comunidade Caranhã, na região da Curuá-Una, Sara contou em sua entrevista que, nessa nova morada, não havia escola, e lembrou, emocionada: “a minha mãe muito valorizava a educação, apesar de que [ela] não era alfabetizada, ela não sabia nem ler nem escrever, e talvez por isso mesmo ela tivesse extrema noção da importância da educação... ela... batia muito nessa tecla com a gente. Ela dizia assim: olha, eu não tenho nada pra deixar pra vocês, a gente não tem nenhuma riqueza material, mas vou fazer de tudo pra vocês estudarem, porque é só pela educação que vocês vão conseguir alcançar o que vocês querem”.

 

Com esse objetivo claro de proporcionar acesso à educação aos filhos, a mãe de Sara convenceu o marido a se mudar mais uma vez, agora para a comunidade Pacoval, que já era maior e que tinha escola. 

 

Assim, aos seis anos de idade, Sara começou a estudar e, embora ainda não tivesse tido contato com os ensinamentos escolares antes, rapidamente aprendeu e afeiçoou-se às letras, principalmente. Pouco tempo depois, porém, aos oito anos, seu pai, que era uma liderança na comunidade Pacoval, faleceu.  As memórias da figura paterna remetem a momentos muito especiais – as contações de histórias: “Meu pai... ele era um cara muito atencioso, muito carinhoso, muito calmo... [ele passava] o dia na roça. Quando ele chegava de noite, depois que todo mundo tomava banho... o papai botava os bancos... fazia um círculo no terreiro e botava a gente, contava história pra gente. Ele contava inúmeras histórias, história de João e Maria, história do cachorro caçador, né, que era o rompe mato, quebra ferro... e ele também contava as histórias de luta... do sindicato, uma história de luta na Z-20”.

 

“Mudar é difícil, mas é possível”

 

Após a perda do pai, Sara deparou-se novamente com desafios para estudar, pois a escola da comunidade onde morava só oferecia ensino até a quarta série. Assim, foi preciso fazer algo muito comum na época, especialmente entre as meninas: aos onze anos de idade, apenas, Sara saiu de sua casa para morar na cidade, trabalhando como babá para uma desconhecida, a fim de permanecer estudando. A separação entre ela e sua mãe não foi fácil: “quando a gente entrou no barco pra vir pra Santarém, que o barco saiu do Porto, cara, naquele momento assim, minha mãe ficou lá no porto... naquele momento eu senti assim como realmente eu tivesse... sendo arrancada dela sabe? Pela primeira vez na vida eu estava saindo de perto da minha mãe pra ir pra um lugar que eu nem imaginava onde era... com pessoas que eu não conhecia, né, então foi muito doloroso”. 

 

Ainda assim, com a dor de duas separações, Sara se manteve firme no propósito de prosseguir estudando. Trabalhou na casa da família que a acolheu em Santarém por 13 anos, concluiu o Ensino Fundamental e o Ensino Médio e entrou na faculdade.

 

“Quem ensina, aprende ao ensinar”

 

O encontro de Sara com a FASE, onde trabalha desde 2014, se deu sob um ponto de vista diferente: se hoje ela exerce o papel de educadora da Federação, antes já havia vivenciado o alunado em programas da FASE, dentre os quais cita um sobre feminismo, gênero e políticas públicas, realizado em Belém, e outro sobre políticas públicas urbanas, ofertado aqui mesmo em Santarém. 

 

Assim, ela afirma com propriedade que a Educação Popular (EP) é importante por abrir novos horizontes. Ao comparar sua experiência na EP e na Educação Formal (EF), recebida em escolas e universidades, Sara explica que a EF produz conhecimento a partir da metodologia acadêmica, muito restrita e presa à teoria. As discussões sobre política, sobre os projetos desenvolvidos na Amazônia, que não são estimuladas nesse sistema de ensino, foram presenciadas por Sara em formações da FASE e a encantaram. A partir do seu interesse e desempenho, a própria Federação viu nela potencial, e a convidou para ser formadora: era a oportunidade que Sara buscava já há algum tempo.

 

O trabalho realizado na Educação Popular difere daquele feito na Educação Formal porque, como Sara explica: “[a EP] prima pela emancipação e pela autonomia dos indivíduos... via de regra, a gente é demandado pelas organizações locais... e aí em conjunto com essas organizações, a gente constrói: mas... quais são os temas que vocês querem abordar nesse programa de formação? O quê que é importante pra comunidade? Então a gente ouve a comunidade, ouve os jovens, ouve as organizações, e a partir disso a gente constrói uma proposta metodológica, considerando os desejos, interesses, dessas comunidades... a gente não chega com uma cartilha, com um catatau de livros... isso não é educação popular. A educação popular, ela primeiro se coloca nesse papel não da fala, mas sobretudo da escuta... a partir da escuta é que a gente constrói toda a proposta, a grade curricular, estabelece os períodos formativos, os locais...” 

 

Dessa forma, a EP, exercida por Sara com tanta dedicação, coloca as pessoas em pé de igualdade, valorizando seus conhecimentos. Os aspectos da vivência, da história, da ancestralidade e as características locais da comunidade são levados em consideração, acima de tudo, em um processo contínuo de construção de conhecimento que ensina também ao educador. 

 

Sem um senso de identidade, não pode haver luta real

 

Envolvida desde cedo em associações das mais diversas, Sara contou ao Tapajós de Fato um pouco de sua história na luta quando era mais jovem. Enquanto membro da Pastoral da Juventude, na Igreja, conheceu o primeiro personagem da série Da Luta não Fujo: Padre Edilberto Sena. Isso, segundo ela, fez aflorar a luta já latente em suas veias. Após isso, engajou-se na Associação de Moradores do bairro Interventoria e no Movimento Estudantil, já na universidade, bem como em outros projetos populares.

 

Todo esse engajamento ajudou Sara a construir e entender sua própria identidade: “eu me identifico, realmente, como uma militante das causas sociais, né, embora do ponto de vista da obrigação formal eu seja uma funcionária da FASE, né e... é um trabalho que que vai ao encontro da minha militância, né, mas pra além disso, eu continuo militando nas causas urbanas... eu continuo apoiando, evidentemente que eu não consigo ter disponibilidade de tempo como eu fazia antigamente..., mas eu continuo militando nos trabalhos das pautas urbanas, nos trabalhos socioambientais aqui na região...”. 

 

“Quem aprende, ensina ao aprender”

 

Sobre sua vida familiar hoje, Sara revela que é mãe e que, além de todas as atividades que exerce e de todos os grupos com os quais se identifica, ela também se entende como feminista. A relação entre o Feminismo e a maternidade em sua vida é evidente na educação dirigida ao filho: “A gente é ensinada a ser mulher pelo viés do patriarcado, do machismo, e quando a gente encontra o Feminismo e começa a se entender como como sujeito... como um o protagonista da sua própria história... é outra libertação. Essa consciência de ser feminista também me atravessa de uma maneira fundamental porque ela me faz ter um outro olhar também pro mundo, pra sociedade, inclusive um outro olhar do meu papel de mãe. Eu tenho um filho, sou mãe de um menino, e luto bastante pra que [ele] não seja um homem machista... a minha luta diária é pra educá-lo numa outra perspectiva, então me entender como feminista faz toda a diferença também nesse meu processo”.  

 

Educação (popular) como prática da liberdade

 

Quando questionada sobre a importância da educação, de seu próprio trabalho, Sara afirma que se vive, atualmente, em uma crise sem precedentes – crise política, econômica, de valores – e que, portanto, a educação é a chave para transformar esse cenário: “A educação popular... na realidade, a educação é a nossa única saída... porque se a gente não investir em processos educativos... é muito difícil... Eu acho que os nossos políticos, nossos governantes, realmente deveriam encarar a educação como prioridade, [mas] infelizmente, a gente está longe disso, né, educação é prioridade apenas no discurso, apenas nas promessas eleitoreiras... a nossa escola não evoluiu, [e] não foi porque as pessoas não quiseram.

 

“Para mim, é impossível existir sem sonho”

 

Atualmente, Sara desenvolve sua pesquisa de Mestrado em Ciências Sociais, cujo tema é o Lago do Maicá. Além disso, continua trabalhando junto à FASE, em projetos de EP. Ao final da entrevista, a educadora sobre seu sonho para a educação na Amazônia: “a academia enquanto instituição não enxerga as populações dos territórios, as populações amazônicas, como sujeitos produtores de conhecimento. Em geral, a academia olha pra essas... pessoas do território como objeto de estudo... é por isso [que] é muito importante... incluir indígena, negro, quilombola na universidade... eu sonho que esse dia chegue, que a gente consiga ter nas universidades as produções científicas a partir desses locais, dessas comunidades”.

 

Além disso, Sara refletiu sobre as coisas que fazem o amazônida feliz: “a nossa concepção de felicidade é outra. Basta a gente [ir] lá para orla, sentar numa cadeirinha lá, ou mesmo no concreto... só de olhar pro rio Tapajós, já volta melhor para casa... essa concepção de felicidade, que não é propriamente uma felicidade do acúmulo... é de poder comer um peixe assado no final de semana e tomar um banho de rio. É essa maneira de ser amazônida... que me incentiva a fazer educação popular”.

 

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