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Gênero e Sexualidade Resistência

Assédio e jornada dupla são alguns dos problemas para as mulheres que trabalham com transporte por aplicativo

Além disso, a falta de direitos trabalhistas na “uberização” afeta mais as mulheres que os homens.

16/09/2021 10h58
Por: Tapajós de Fato

Atualmente, segundo dados publicados pela Extra Classe, há cerca de 9 milhões de pessoas trabalhando para empresas de transporte por aplicativo no Brasil. Porém, esses motoristas são tratados como “trabalhadores autônomos” e não têm, portanto, vínculos trabalhistas com essas empresas, o que resulta, também, na perda de direitos. 

 

Isso acontece porque não há regulamentação eficaz em relação ao serviço. Ao contrário, há certa precarização, o que favorece que as empresas se beneficiem de maneira incorreta, prejudicando o servidor. Surge, assim, um excesso de deveres e até mesmo punições, também: preços preestabelecidos pelos próprios aplicativos e multas para os trabalhadores são alguns exemplos.

 

Se, de maneira geral, os direitos trabalhistas não são concedidos a motoristas de transporte por aplicativo, no caso específico das mulheres, a situação é pior. As vantagens prometidas nesse meio, como rotina flexível, ganhos de acordo com a produtividade, dinamismo e, sobretudo, segurança, estão longe de serem vivenciadas pela parcela feminina que compõe esse grupo de trabalhadores. Ao contrário, há diversos problemas resultantes da jornada ao volante, como: princípio de infarto – gerado pelo estresse excessivo nas ruas –, inflamação na região cervical, depressão – causada pelo excesso de trabalho – e dupla jornada.

 

O transporte por aplicativo em Santarém

 

Atualmente, em Santarém, são 10 os aplicativos que oferecem serviço de transporte de passageiros: 319 News (319 News Serviço de Tecnologia), 99 (99 Tecnologia), Amazon Mobile, Boto Car, In Drive (In Drive Ru), Nosso Drive, Uber (Uber do Brasil Tecnologia), Urbano Norte, Top 10 e Zzap Mobile. Ao todo, estima-se que haja cerca de 1.000 motoristas cadastrados, dos quais não se pode afirmar quantas são mulheres. Ainda assim, é possível encontrar alguns exemplos de mulheres da região que trabalham nesse sistema, e que falam sobre as vantagens e desvantagens de tal serviço.

 

Assédio e preconceito pegam carona

 

A estudante de medicina Ellen Feitosa, de 29 anos, por exemplo, trabalhou por dois anos como motorista de aplicativo em Santarém, antes de se mudar, há seis meses, para outra cidade, onde estuda. Em entrevista ao Tapajós de Fato, ela relatou um pouco da sua jornada e falou sobre situações como o assédio e o preconceito dentro da profissão: “Tem assédio de diversas formas, diversas maneiras e... Às vezes a gente tem que aprender a conviver, porque já fizemos denúncia, e nada é feito... ou não é levado a sério. O preconceito existe, o assédio existe, é passageiro que cancela a corrida por sermos motorista mulher... também passageiros que dão em cima das motoristas... e são situações muito complicadas aonde a gente tem que ir se desdobrando, a gente tem que ir sabendo lidar, sabendo converter a situação, porque a gente precisa.

 

O tempo atropela a rotina familiar

 

Já Cristiane Costa Lima, também de 29 anos, também trabalha no ramo dos transportes por aplicativo. Ao Tapajós de Fato, ela afirmou nunca ter sofrido assédios nem preconceito em seu trabalho, mas fala sobre a longa jornada de trabalho, que afeta sua vida familiar: “trabalho há dois anos como motorista de aplicativo... e a respeito de minha experiência durante esses dois anos... nunca tive nenhum tipo de incidente, nunca tive nenhum tipo de assédio... e, quanto às coisas que abri mão, o principal foi é a família, né, fica um pouco de canto por conta que... eu trabalho 12 horas, às vezes 16 horas por dia, então isso toma muito meu tempo”. 

 

Os direitos são freados

 

Elionair do Nascimento Silva, de 46 anos, trabalha como motorista por aplicativo há dois anos e três meses. Ela contou ao Tapajós de Fato que, nesse serviço, ela, assim como os outros motoristas, não tem direitos trabalhistas: “como a gente é autônomo... a gente não tem aqueles mesmos direitos que os trabalhadores de carteira assinada, INSS na hora que sai uma rescisão, ou quando a gente tem algum problema de saúde ter um atestado, e aí a empresa cobrir... então, a gente é consciente de que a gente não tem esses direitos aí... um dos benefícios que eu mais sinto falta, de quando eu trabalhava de carteira assinada, é as férias... a gente trabalha como autônomo, então a gente só ganha quando tá trabalhando, então o quê que a gente faz? Tem que se programar, guardar uma grana, pra poder tirar uns dias de férias, porque se não a gente se torna escravo do trabalho”.

 

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