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Cultura Opinião

REVOLUÇÃO CULTURAL EM CURSO?

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20/09/2021 14h29 Atualizada há 4 semanas
Por: Tapajós de Fato
Recorte de pintura de Danielle Andrade disponível em @dan_artts
Recorte de pintura de Danielle Andrade disponível em @dan_artts

 

Ciro Brito

Muitas pessoas têm afirmado que a sociedade atual está em colapso moral e ético. Relações líquidas, individualismo acerbado, aumento do consumismo, acirramento da disputa ideológica entre esquerda e direita, aumento da violência nas relações interpessoais e de comunicação, entre outros fatores que influenciam em todos os âmbitos da nossa vida cotidiana. Relações familiares, relações sociais, relações profissionais e, consequentemente, relações políticas.

 

Segundo o cientista social Stuart Hall, falar sobre moral e sobre ética é falar sobre cultura, fatores fundamentais na interpretação da realidade e dos comportamentos. Para ele, a cultura é utilizada para transformar a nossa compreensão e explicação do mundo e da cidade que vivemos.

 

A cultura tem composições etárias e estéticas, significando que cada geração vai criando, validando ou revalidando códigos do que é belo, bom e justo. Isso gera identificação, que move as pessoas para determinados debates e anima suas inserções na vida pública.

 

A cultura também tem seus tabus, aquilo que é debatido com menos facilidade ou que sequer é debatido por cada sociedade. Daí diferentes cidades e países terem códigos e identidades culturais tão diferentes, representados, por exemplo, pela Arte. Por isso, os artistas e suas produções têm uma posição de vanguarda, porque, de certo modo, estão resguardados pelo ethos da transgressão, do progressismo e principalmente por serem representações de agentes de extensão dos limites culturais das sociedades.

 

Stuart Hall defende que, em se tratando de cultura, a arte está imbricada com a discussão sobre as relações raciais e as relações políticas. Por isso, a vida artística de uma cidade quanto mais agitada é, mais gera contribuições para a sociedade de modo geral, e que cidades com agendas culturais agitadas em detrimento de cidades com agendas culturais pouco movimentadas repercutem mais no que as pessoas estão pensando e aceitando como belo, bom e justo.

 

No caso de Santarém, se acionarmos o conceito de cultura que Hall propõe no tocante a esses três eixos (arte, relações raciais e política), é possível compreender os debates feitos nas últimas semanas na arena pública e observar uma certa divisão social que segue, em grande medida, fatores etários e raciais, mas também de gênero, orientação sexual e classe.

 

Nesse sentido, cabe destacar o trabalho de alguns artistas da cena santarena, que recentemente têm entregado produtos culturais áudio(e)visuais que marcam fortemente discussões de identidade.

 

Em A Voz do Rio, Priscila Castro apresenta reflexões sobre sua matriz ribeirinha e negra, dialogando com as pautas do meio ambiente e feminista. Um mesclado que possibilita diálogo com várias gerações. Musicalmente, Priscila aposta em músicos consolidados e, visualmente, ao misturar elementos regionais com edições, fontes arrojadas, ilustrações e animações, aposta na nova geração de artivistas tapajoaras, a exemplo de Débora Marcião e Mazille Starr.

 

Com Rio Mar, lançado no dia do carimbó, o Mestre Chico Malta, de Alter do Chão também escolhe fazer o diálogo intergeracional. Suas músicas navegam pela tradicionalidade de suas percepções de mundo, agora comunicado pelas plataformas de streaming e por uma capa de álbum que traz colagens com elementos tradicionais, produzida por Vanessa Campos.

 

Batuques, de Cristina Caetano, é corajoso ao discutir identidade cabocla, debate não unânime nas ciências sociais, e principalmente religiosidades de matriz africana na conservadora e cristã Santarém. Também avança ao apresentar uma capa com colagens que mesclam elementos tropicais e saturados posicionando uma imagem negra de Cristina, coroada com uma vitória-régia. Luciana Cavalcante assina a capa, imagens da fotógrafa Bárbara Vale, figurino da grife Surara Borari Moda Indígena, by Nalva e Nilva Borari, e produção de Anderson Pereira.

 

Esses artistas lançaram álbuns que estão disponíveis em redes sociais e plataformas digitais para o público mundial. Assim também o fez Rawi, que além de disponibilizar seu novo álbum nessas plataformas, ousou na produção de um álbum visual e, na última semana, lançou o filme “Facão que abre caminhos”, idealizado por ele e contando com direção de fotografia de Witalo Costa e João Albuquerque e direção geral e de arte do brilhante Witalo Costa.

 

Nesse filme de 30 minutos, que congrega uma equipe fantástica da nova geração santarena, Rawi ganha protagonismo para atuar e performar com altivez e muita competência lembrando Ney Matogrosso e referenciado musicalmente por Jaloo e esteticamente por Marina Sena. Seu álbum conta a história de sua família no campo, seu processo de nascimento como artista e suas vivências queer numa cidade interiorana e conservadora no País que mais mata pessoas LGBTQIA+ no mundo. O facão simboliza um meio de subsistência e de resistência e o contexto de uma cidade representada de maneira não convencional. Com essa obra, Rawi realmente abre caminhos pela criatividade e pela coragem. O resultado é o lançamento (oficial) de uma carreira que empolga os que o acompanham.

 

Todas essas obras são potentes porque dialogam sobre identidade, essa “celebração móvel” formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam, sendo definida historicamente e não biologicamente (Stuart Hall).

 

Tais obras trazem à tona os debates de identidade que artística, racial e politicamente são os debates que devem ser encarados, refletidos e aceitos. Não há outra opção. O domínio do sistema cultural de novas gerações é definitivo. Se em algum momento ele parece minoritário, não demora encontra-se nas agendas majoritárias.

 

Todo o esforço coletivo que tem sido feito nas artes, no debate racial e na política reflete e são reflexo dos novos sistemas culturais que já estão presentes nas cabeças e nas vidas das pessoas. E, ao que se constata, elas estão dispostas a lutar por eles.

 

Referências

Stuart Hall. Da diáspora: identidades e mediações culturais. (1a impressão revista) Belo Horizonte/Brasília: Editora UFMG/Unesco, 2006.

Stuart Hall. A identidade em questão. Poral Geledés. Disponível em: https://www.geledes.org.br/stuart-hall-identidade-em-questao-identidade-cultural-na-pos-modernidade-p-07-22/.

 

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