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Reportagem Especial Da Luta Não Fujo

Da Luta não Fujo: A cantora e membra dos movimentos artístico culturais Priscila Castro conta como vem sendo sua jornada

“Meu avô gostava muito de cantar, eu participava das danças folclóricas na comunidade. Eu sempre tive essa ligação, gostava muito de cantar”.

22/09/2021 18h14 Atualizada há 3 semanas
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: A cantora e membra dos movimentos artístico culturais Priscila Castro conta como vem sendo sua jornada

 

Cantora, mestra em educação e ativista social, já aos 32 anos de idade, Priscila Castro Teixeira foi a escolhida para contar sua história nesta quarta-feira. Tendo vivido sua infância na comunidade Carariacá, Priscila é membra do Movimento Negro e militante no Movimento dos Fazedores e Fazedoras de Cultura de Santarém. É formada em Letras pela Universidade Federal do Pará, Mestra em Educação, Especialista em Língua e Cultura e cursou, durante 5 semestres, a graduação em Música na Universidade do Estado do Pará. Priscila já se apresentou fora do Pará, representando a região, e concedeu entrevista ao Tapajós de Fato, para contar sua história pessoal e profissional.

 

Compondo as canções da minha vida

 

Priscila Castro, que hoje tem sua voz amplamente conhecida dentro e fora da região do Tapajós, inclusive por meio da televisão e de plataformas como o Spotify, falou ao Tapajós de Fato sobre sua trajetória artística, mas também sobre sua infância e experiências marcantes de sua vida.  A partir dos 40 dias após seu nascimento, Priscila ficou sob os cuidados dos avós, embora mantivesse contato com a mãe, que tinha muitas dificuldades financeiras: “com 40 dias de vida minha avó, meu avô, me criaram... minha mãe não conseguiu, tinha muitas dificuldades financeiras e alguns problemas pessoais... e aí ficou dando assistência daqui, né, trabalhava aqui para me sustentar lá também, para ajudar meu avô e minha avó... no meu sustento... perdi meu pai quando ainda era bebê”. 

 

Assim, Priscila morou no interior de Santarém, na comunidade Carariacá, até os 12 anos de idade, e lá mesmo cursou seu Ensino Fundamental, na escola São Sebastião. Como a escola só comportava turmas até a quarta série, a cantora precisou vir para Santarém para continuar estudando. Sobre esse período em que era criança, Priscila diz: “eu tive... uma infância de criança ribeirinha, muito contato com a natureza, é plantando pra colher, sem nada assim... muita ostentação, mas com muita qualidade de vida, nunca faltou comida, né sempre fui muito bem tratada pelos meus avós...”

 

Tudo no meu ritmo

 

Priscila conta que o canto surgiu em sua vida sem a pretensão de se estabelecer como profissão. Sua primeira experiência de trabalho com a voz foi na Igreja: “eu nunca pensei que fosse seguir a profissão, eu cantava nos eventos da Pastoral da Criança... na Igreja, como um todo, mas nunca [para] seguir carreira... a decisão de seguir, de se formar mesmo, de estudar música e de ganhar grana com isso, foi a partir de 2008, quando eu comecei a cantar nos eventos da universidade”. 

 

Quando questionada sobre o que impulsionou sua carreira artística, então, Priscila afirma que foi sua ligação com a arte desde sempre que a guiou nesse caminho: “meu avô gostava muito de cantar, eu participava das danças folclóricas na comunidade... eu sempre tive essa ligação, gostava muito de cantar... outra coisa também foi a questão financeira. Como eu ainda não era formada, eu só consegui alguns estágios, mas eu precisava de grana pra ajudar a minha mãe, e aí eu fui pra um barzinho cantar, estudar mesmo pra seguir a profissão como uma cantora profissional”.

 

Tentam calar minha voz 

 

Durante a entrevista que Priscila concedeu ao Tapajós de Fato, ela falou sobre as dificuldades para fazer cultura em Santarém: “[em Santarém], a cultura ainda é olhada como uma política de eventos. Nós não tínhamos... política pública de cultura, no sentido de incentivo, de fomento, então assim, é tudo feito com muito amor à música, muito amor à arte em geral, mas financeiramente não compensa.

 

Além desse entrave, a cantora falou sobre o machismo no meio artístico em Santarém: “eu comecei muito jovem a cantar, e aí, a gente enfrenta machismo... a maioria dos músicos são homens, então... até sua voz ser olhada com respeito, ser ouvida com uma autoridade, no sentido de que você sabe o que tá fazendo, o que você quer, foi bem complicado”.

 

No meio acadêmico, Priscila conta que também enfrenta dificuldades para ser reconhecida: “dificilmente eu sou vista como alguém intelectual, que pensa a ciência... parece que ainda que eu tenha este título, ele não é pra mim, e essa é uma visão colonizadora, é uma visão racista, uma visão machista, mas em especial machista. Os homens têm lugares [que] parece que são feitos pra eles, olha aqui, ó, vai ser cientista, ele escreve bem... as mulheres não, então eu sinto isso, muito mesmo... questionam nossa competência, acham que a gente só conseguiu algum lugar porque a gente conhece alguém... nunca é porque a gente construiu aquela caminhada”. 

 

Mas essa voz não se cala

 

Apesar dos obstáculos à consolidação da carreira de Priscila, ela faz grande sucesso atualmente. Sobre representar a região, e mesmo o Pará, ela destacou alguns momentos de grande relevância e emoção: “eu vou destacar... 3 momentos muito importantes da minha carreira... o primeiro como educadora musical, como coordenadora de um projeto sociocultural, em 2017, em Minas Gerais, como representante do Norte, de projetos culturais pela Funarte e nesse mesmo ano eu fui a Belém ser palestrante pela Funarte [Fundação Nacional de Artes], sobre o projeto cultural no interior da Amazônia. Como cantora, eu tive 2 momentos muito importantes: o primeiro deles foi o Festival Internacional de Música Paraense, no Teatro da Paz, em que eu fiz uma participação junto à Filarmônica Municipal de Santarém, e agora... em novembro do ano passado, no Sons do Pará, como única representante do Oeste do Pará, a primeira representante, na verdade até então não tínhamos ainda ninguém que tinha ido aos sons do Pará, e eu fui participar do show de final de ano, junto com artistas consagrados, como Fruta Quente e Warilou... nem sei dizer como eu me senti. foram 3 momentos muito importantes mesmo, que eu fiquei muito emocionada, eu vi que valeu o esforço, apesar de tanta dificuldade”.

 

Não só para cantar eu uso a minha voz

 

Além da carreira de cantora e de seus trabalhos na Academia, Priscila Castro é ativa em movimentos sociais da região do Tapajós. Embora não seja uma liderança, continua contribuindo para que esses movimentos atinjam seus objetivos: “a gente também tem dificuldade nos movimentos sociais, como mulher, em especial como mulher negra... em se consolidar como liderança... mas eu sempre estive envolvida, sempre fui de movimento estudantil, de movimentos da Juventude na Igreja, na Pastoral da Criança, então foram alguns lugares que eu passei que foram importantes pra minha formação política, pra minha consciência de classe. Na universidade, eu sempre estive envolvida em todos os movimentos possíveis que buscavam melhoria de uma universidade na Amazônia, com mais qualidade, como foi a luta por exemplo para a implementação da UFOPA... hoje eu participo do Movimento Negro e sou militante... no Movimento dos Fazedores e Fazedoras Culturais de Santarém... e também sobre infância, né, que eu sou militante da educação na infância, por conta dos Sementes Musicais, que hoje eu não estou na coordenação, mas continuo colaborando”.

 

Quero cantar a felicidade

 

Jovem e cheia de vontade de fazer a diferença, Priscila foi questionada, na entrevista, sobre seu sonho para a região do Tapajós. Para ela, é uma pergunta complexa, mas a resposta logo veio, motivada, inclusive, pela presença da pequena filha em sua vida: “eu sonho com uma região do Tapajós que valorize as pessoas que aqui vivem, sabe? Uma coisa que eu percebo é que se pensa, por exemplo, em desenvolvimento e se fala só em lugares, não em pessoas... então... o meu sonho é que se pense em um desenvolvimento sustentável, mas que leve em consideração porque aqui existem pessoas e toda uma diversidade de cultura e diversidade social, diversidade populacional, então eu sonho com uma cidade, por exemplo, que valorize a educação ao invés de obras, né, pense na formação política e educacional da população santarena, e que ela consiga compreender o seu lugar no mundo, seu lugar na Amazônia... a gente é um povo muito inteligente, um povo extremamente cultural, é um povo que também pode pensar o seu próprio crescimento”.

 

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