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Reportagem Especial Da Luta Não Fujo

Da Luta não Fujo: Ivete Bastos, ícone da luta na região do Tapajós, conta sua história de vida e de resistência

“Eu decido que eu quero sempre lutar por uma causa, me dedicar. Só uma palavra que você possa ajudar, pra reduzir a desigualdade, isso vale muito”.

23/09/2021 19h04 Atualizada há 3 semanas
Por: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: Ivete Bastos, ícone da luta na região do Tapajós, conta sua história de vida e de resistência

 

Ex-presidenta do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Santarém, mas ainda muito atuante na associação, ex-vereadora, vencedora do Prêmio Mahatma Gandhi, em 2006, e coordenadora da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais de Santarém (AMTR). Todos esses títulos referem-se a uma mulher simples e dedicada à luta social, que foi à Alemanha e à Índia, entre outros países, mas nunca abandonou sua terra natal: o PAE Lago Grande. Maria Ivete Bastos dos Santos, de 54 anos, é a personagem de hoje da série Da Luta não Fujo.

 

Minha jornada começou aqui

 

Nascida na comunidade Dourado, no distrito de Arapixuna, dentro do PAE Lago Grande, Ivete Bastos tem 11 irmãos. Começou a estudar aos 9 anos, devido a problemas de saúde: “apanhava pra não ir pra aula, porque eu sofria com asma, mas estudei”, conta ela, rindo. Ainda muito jovem, aos 18 anos, casou-se e, no ano seguinte, teve seu primeiro filho. O filho do meio nasceu dois anos mais tarde, em 1988, e a caçula chegou em 1989.

 

Anos mais tarde, em 1996, Ivete associou-se ao Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém, do qual seu pai já era sócio. Seu Ensino Fundamental foi concluído em 1998 e, anos mais tarde, ela conseguiu também seu diploma de Ensino Médio, através da Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Centro Educacional Pan-Americano (CEPA). Isso porque, segundo ela: “nós ainda trabalhamos muito pra ter o Ensino Médio no nosso interior, naquele modelo modular”.

 

Em 2002, Maria Ivete assumiu a presidência do STTR, cargo que ocupou por dois mandatos de três anos, até 2008. Três anos depois, em 2011, ocupou uma vaga da Câmara de Vereadores e foi reeleita, deixando a vereança apenas em 2016.

 

Foi difícil, mas foi necessário

 

Em 2001, Ivete Bastos veio a Santarém, não com a intenção de morar, mas devido à necessidade sindical. Nesse período, seus filhos eram apenas adolescentes, mas foi preciso abrir mão de acompanha-los integralmente para trabalhar: “foi muito difícil conciliar [trabalho e família], porque acaba tendo uma lacuna na trajetória da vida da gente, ser mãe na fase da adolescência e ter esse choque de mudança de vida”. À época de seu primeiro mandato no STTR, Ivete estava na faixa de seus 30 anos, e tinha nas mãos a responsabilidade de comandar um sindicato grande e diverso, que atendia não apenas Santarém, mas também os municípios de Belterra e Mojuí dos Campos.

 

Seu incentivo para fazer parte do sindicato veio a partir da Igreja. Em um período conturbado, após sofrer um derrame cerebral, Ivete passou a trabalhar na catequese, e isso foi o que a ajudou: “eu tomei uma decisão, de que eu não podia ser só. Eu tinha que falar com Deus, e além de dedicar o meu espírito, eu tinha que dedicar uma ação comunitária. Então eu decidi entrar no sindicato”.

 

É possível fazer a diferença

 

Ivete conta que, quando chegou à presidência do STTR, em 2002, encontrava diariamente uma fila de trabalhadores e trabalhadoras rurais à espera de atendimento, desde as 4h da manhã. Porém, o expediente da presidenta só deveria começar às 7h. Assim, ela mudou seu plano de trabalho: “comecei a chegar 5h da manhã. Porque tinha mais de 300 pessoas. Como que eu ia dormir, como que ia ser eu, sabendo que tinha uma lista antes de eu chegar que era pra eu atender só doze pessoas em um dia”? 

 

O segundo piso do prédio que sedia o STTR, segundo Ivete conta, foi adaptado, em seu mandato, para ser também um espaço de atendimento. Foi construída uma cozinha, para que pudessem ser servidos água e café àqueles que aguardavam para serem atendidos. Tudo isso, com o objetivo de oferecer tratamento mais digno aos trabalhadores e trabalhadoras rurais de Santarém.

 

Doenças e preconceito não podem me deter

 

Entre problemas de saúde e preconceito por sua condição simples, de vida regada a conhecimentos tradicionais, Ivete ainda leva sua vida de forma simples e leve. Desde os nascimentos dos filhos, ela precisou enfrentar a dor – o parto era feito com o auxílio de parteiras, e o resguardo era de apenas oito dias: “eu tive dois filhos num sofrimento terrível”, conta a entrevistada.  

 

O parto da segunda criança foi antecipado, devido a dificuldades na gravidez, pois Ivete foi acometida por anemia e pneumonia. Foi necessário passar por cirurgia, em hospital, mas, nesse momento, ela conta que sofreu preconceito: “se não tiver um remédio [tudo bem], mas se tiver um bom atendimento, a gente se sente acolhida..., mas eu passei por muitos maus tratos naquela época, sabe? Me chamaram de muita coisa, pela minha aparência, porque eu não sabia quando que eu engravidei”.

 

Movida por essa situação vivida dentro de um hospital, uma das lutas de Ivete sempre foi para que a mulher, principalmente a de origem rural, seja respeitada pelos profissionais de saúde, por estar sensível e vulnerável: “às vezes, eles querem olhar a gente como uma mulher padrão, e nós não somos padrão, nós temos nossa própria característica”.

 

Aceitação e ameaças

 

Outro momento difícil na vida de Maria Ivete Bastos foi sua assunção do STTR. Em um espaço majoritariamente masculino, de que inicialmente as mulheres nem podiam ser sócias, foi preciso firmeza por parte da então presidenta para manter-se no comando. Além disso, no mesmo período “a soja chegou, e aí eles queriam terra de qualquer jeito”, conta Ivete, ressaltando que isso gerou muitos conflitos.

 

Também, sua luta enquanto vereadora fez com que ela precisasse viver dez anos sob proteção policial contra ameaças: “diziam que eu não teria o privilégio de morrer de uma morte rápida, que o que tinha pra mim tinha que ser bem duradouro. Graças a Deus que eu vivo até hoje, mas psicologicamente teve horas que eu me sentia quase morta, porque eu tava com a minha liberdade totalmente privada”.

 

Apesar disso, Ivete afirma sua satisfação com o trabalho que realizou: “eu fiquei muito feliz de ser uma mulher trabalhadora rural, de nunca ter desonrado a minha classe, nem ninguém, porque... eu tenho certeza que quando a gente ocupa um lugar como esse, a gente não é mais a vereadora ou o vereador só de uma classe, é do município inteiro”.

 

A felicidade é simples

 

Atualmente, Ivete permanece ao lado do esposo, em um casamento de quase 40 anos. Eles têm três filhos e também já são avós, algo que Ivete adora: “tem mulher que não gosta de ser chamada de avó, e eu amo, eu amo ser avó, sabe? Eu gosto”. Ela diz viver muito bem no Lago Grande, onde exerce várias atividades: “eu trabalho na roça, eu pesco, eu faço um pouco de artesanato, eu crio galinha, participo da Igreja, da associação... tudo um pouquinho”.

 

Quando questionada sobre o que a faz feliz hoje, ela diz: “o que me faz feliz é saber que ainda tem gente que quer somar com a gente num mundo mais justo, que ainda tem quem se doe, mesmo em meio a toda essa adversidade, à violência..., mas ainda há quem queira lutar, então isso me faz feliz”.

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