Sábado, 16 de Outubro de 2021 07:55
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Reportagem Especial Da Luta Não Fujo

Da Luta não Fujo: Joana Serra, presidenta do STTR de Curuá, fala sobre sua jornada no sindicato e nos movimentos sociais

“Eu gostaria de ver o sindicato com uma base muito organizada, uma base que reconheça o trabalho, a luta, que não deixe parar, que dê continuidade na luta”.

29/09/2021 20h01 Atualizada há 2 semanas
Por: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: Joana Serra, presidenta do STTR de Curuá, fala sobre sua jornada no sindicato e nos movimentos sociais

Atual presidenta do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) do município de Curuá, vice-presidente do Centro de Estudos, Pesquisas e Formação dos Trabalhadores do Baixo-Amazonas (CEFT-BAM), filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT) e militante principalmente dentro da Igreja. Esta é Joana de Araújo Serra, de 58 anos, que concedeu entrevista ao Tapajós de Fato para mais uma reportagem da série Da Luta não Fujo.

 

Vida repleta de simplicidade

 

Joana Serra, que hoje comanda os trabalhos do STTR do município de Curuá, nasceu nas proximidades do igarapé Surubim Mirim, em Alenquer, e teve uma infância ribeirinha. Durante muito tempo, a vida foi difícil: “era muito difícil, porque eu era de uma família muito humilde, a minha mãe ficou viúva, com sete filhos, um bem pequeno, de 1 ano e 6 meses, aí até que ela casou com o meu pai... só eu e uma outra irmã que somos filhas de mãe e pai, os outros irmãos, o pai deles morreu”.

 

Assim, com muita simplicidade, seu Raimundo Bonifácio, pai de Joana, sustentou a família, ao lado da esposa, Maria Ferreira da Costa. A principal fonte de alimento era a pesca, de modo que, nos períodos de seca, tudo ficava mais complicado. Além disso, muitas vezes, havia peixe, mas não havia outros alimentos: “o meu pai matava muito pirarucu, então ele levava pra trocar com outras coisas... aí eu lembro, quando chegava farinha, eu escondia. Eu escondia num vidro... quando não tinha mesmo ‘hoje nós não tem farinha pra comer’, aí eu tinha o meu litro de farinha”, conta Joana. 

 

Aos 9 anos, Joana e sua família mudaram-se para a comunidade Mamiá, também em Alenquer. Seu irmão mais velho havia saído de casa em busca de trabalho e melhores condições de vida e decidiu fixar-se em Mamiá, o que incentivou os pais e irmãos a fazerem a mudança também.

 

Anos mais tarde, ainda jovem, com apenas 16 anos, Joana casou-se e deixou a comunidade onde vivia, para ir morar na comunidade Castanhal Grande, no município de Curuá. Seus pais mudaram-se também, e passaram a viver e Curuá, que era mais próxima a Castanhal Grande, onde a filha estava. Lá, o casal mais velho permaneceu, até o seu falecimento. 

 

Tudo começou a mudar

 

Joana já participava de movimentos sociais desde muito jovem: “meu movimento maior era na Igreja, Pastoral da Criança... desde os meus 13 anos, eu ingressei na Igreja... eu casei muito nova, mas aí, eu, por três mandatos, eu fui coordenadora de uma comunidade, Nova Vida, lá no Castanhal Grande”.

 

A partir de seu casamento, Joana passou por mudanças em seu estilo de vida, conforme ela conta: “como ele [o marido] tinha um pouco de... estrutura melhor que a minha, né, ele tinha gado, tinha bastante terra, aí a gente ficou assim, uns três anos só trabalhando da parte dele... depois, eu disse que eu queria trabalhar, né. Aí, eu implorava pra ele fazer o meu roçado...”. Assim, começou a trabalhar como agricultora, e sustentou a família assim.

 

Também foi através do marido que Joana conheceu o STTR: ele era delegado sindical, e ela uniu-se à associação também, em 1996, ano em que a entidade foi fundada em Curuá. O sindicato, que só passou a funcionar efetivamente cinco anos mais tarde, em 2001, já tinha ligação com o CEFT-BAM, no qual ela passou a atuar também. Além disso, naquele mesmo ano, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual atua como conselheira. 

 

A presidência do sindicato foi uma surpresa para Joana: “eu não esperava naquele momento... eu era uma pessoa determinada, que trabalhava... tava na Igreja, era mãe de todos esses filhos... achavam que eu serviria pra ser a presidente do sindicato”. Isso foi à época de seu primeiro mandato, em 2006. Em 2018, ela assumiu mais uma vez a presidência, que ainda ocupa hoje.

 

As transformações geram bons frutos

 

Atualmente, Joana Serra está em seu segundo mandato – não consecutivo – no STTR de Curuá – e ocupa a vice-coordenação do CEFT-BAM. Separada do marido há 8 anos, ela conta que seus 12 filhos a apoiam. Além disso, segundo ela, todos eles têm segundo grau completo, e alguns fazem faculdade, algo de que ela se orgulha. Ela própria, inclusive, afirma que uma das maiores contribuições da militância em sua vida foi o acesso ao conhecimento. Ela concluiu, há alguns anos, o Ensino Médio, através da Educação de Jovens e Adultos (EJA), e diz: “quando eu comecei a participar do movimento... eu disse que ia estudar e estudei. Enfrentei uma barra muito grande com o meu marido, porque o estudo era à noite, aí ele não queria me levar na escola, tinha noite que eu vinha sozinha, no escuro... eu concluí o segundo e o terceiro ano já em Curuá... e isso foi graças a eu ter entrado no movimento... e até hoje eu tenho vontade de estudar”. 

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