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Amazônia Apropriação Cultural

Produtora do Rio de Janeiro se apropria do Festival de Cinema de Alter do Chão

O evento tem um histórico que antecede a participação da empresa na produção e é fruto de um trabalho coletivo produzido por muitas mãos.

02/10/2021 12h04
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Produtora do Rio de Janeiro se apropria do Festival de Cinema de Alter do Chão

O Festival de Cinema de Alter do Chão, o CineAlter, é o resultado de uma construção coletiva entre moradores da vila de Alter do Chão juntamente com os movimentos culturais de Santarém e região. Os primeiros diálogos, sobre a construção de um festival que pudesse representar a cultura e os povos da Amazônia, iniciaram ainda em 2017.

A participação popular na construção deste projeto tão importante para que, acima de qualquer coisa, fosse um espaço onde as produções artísticas, feitas pelas pessoas daqui, tivessem um espaço onde o mundo todo pudesse conhecer.

Um dos proponentes do Festival de Cinema de Alter do Chão é o parlamentar, Deputado Federal  Airton Faleiro, ele contou que sempre teve “o cuidado de democratizar [construção do projeto], levando ele para discutir com os fazedores e fazedoras de cultura, com as organizações sociais em Alter do Chão, Santarém e na região. 

Para realizar a primeira edição do Festival em 2019, uma empresa foi convidada para ajudar na produção do evento, porém após a primeira edição, a empresa decidiu registrar o Festival como se fosse de sua autoria, deslegitimando toda a construção coletiva que havia sido feita anteriormente pelas organizações locais.

 A atitude da produtora causou indignação , e  52 entidades, lideranças sociais, artistas e produtores culturais independentes construíram uma carta aberta para “manifestar a desaprovação  e exigir providências às instituições envolvidas sobre a tentativa de APROPRIAÇÃO do Festival de Cinema de Alter do Chão pela empresa denominada Krioca Comunicações. ”- trecho da carta.

 O deputado Airton Faleiro acha que isso “é no mínimo, é uma falta de ética, a produtora que foi convidada por mim e ela sabe que foi eu que escrevi o projeto, ela sabe que o projeto começou com nós aqui da Amazônia, com nós de Santarém. Ela foi convidada para ajudar a realizar o primeiro festival e aí vai, sem falar com ninguém, registra o projeto como se fosse uma coisa dela, eu me senti, traído, e mais do que isso, um desrespeito com o que nós produzimos, esse projeto é daqui, não é um projeto pensado no Rio de Janeiro, não foi pensado pela produtora, ele foi pensado pela sociedade local”.

 Airton Faleiro é um dos principais fomentadores do Festival, sempre articulou emendas com outros colegas, como também colocou emendas parlamentares para a realização do evento  “eu articulei os patrocinadores, junto ao Governo do Estado, o Banco da Amazônia”. O Deputado disse ainda que vai continuar apoiando, mas vai ajudar o festival daqui. Ele finaliza dizendo que não vai deixar por menos, “vai ter briga jurídica! Por apropriação intelectual e pela marca”.  

 

Raphael Ribeiro, diretor do Instituto  Território das Artes - ITA, diz que atualmente  “há dois festivais: um sendo produzido por uma empresa do Rio de Janeiro, que  não tem essa conexão social, que não representa muita das pessoas que estiveram envolvidas, inclusive, na origem desse projeto; e o outro projeto que nós estamos fomentando, que terá sua edição agora no mês de novembro de 2021, que está conectado com a comunidade, com os movimentos culturais, que está muito avançado nesse resgate à ideia original do festival, simplesmente porque ele é um trabalho  coletivo e pulverizado, é uma discussão ampla, um projeto amplo”.  

Para Raphael, essa apropriação é “um golpe na cultura local”, mas ele acredita que esse “golpe terá suas consequências, pois isso não pode ser permitido”. O diretor do Instituto diz ainda que: "Nós estamos dando a volta por cima nessa situação. É claro que eles tendo registrado o Festival de Cinema de Alter do Chão, e até mesmo registrado símbolos da nossa cultura, com certeza esse caso será decidido na justiça. Existe idealizador, existem pessoas que colaboraram nessa idealização existiu um processo público de como foi feito. Não se trata de um evento, mas de um movimento cultural e esse movimento não vai paralisar simplesmente por uma questão administrativa, jurídica de registro de marca”. Por questões jurídicas, o novo festival que está programado para novembro precisou passar por algumas modificações no nome e nos símbolos utilizados.

Diz ainda na carta aberta citada no início da reportagem o seguinte: “reagimos veementemente, pois não podemos aceitar que um bem coletivo se torne propriedade de uma empresa privada”. Em outro trecho, "O grupo também EXIGE que o projeto volte a ser conduzido de forma coletiva.

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