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Da Luta não Fujo: Isabel Cristina, liderança dos movimentos sociais no Tapajós, conta sua história de vida e de luta

“A gente tem que ter a simplicidade e a humildade de aprender a acolher o outro como ele é e a outra como ela é”.

03/10/2021 22h24 Atualizada há 2 semanas
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: Isabel Cristina, liderança dos movimentos sociais no Tapajós, conta sua história de vida e de luta

Educadora Popular, Formada em Turismo pelo IESPES, pós-graduada em Educação Ambiental, liderança do Movimento Tapajós Vivo (MTV) e do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Isabel Cristina da Silva é a personagem desta edição da série Da Luta não Fujo. Muito bem-humorada, ela concedeu entrevista ao Tapajós de Fato para contar um pouco de sua história.

 

A luta corre nas veias

 

“Não vai me perguntar a minha idade, tá, por favor”. É assim, com um pedido feito em tom leve e divertido, que Isabel Cristina, ou Bel, como prefere ser chamada, pois acha “que é bem mais forte” inicia sua entrevista ao TdF.

 

Nascida na região da BR-163, filha de pais nordestinos – mãe paraibana e pai potiguar –, Bel perdeu o pai aos 4 anos, “mas eu sei que ele era um homem de muita fibra, de muita energia, né, e uma pessoa muito envolvida com a comunidade”. 

 

A mãe, então, sustentou os 11 filhos – 7 meninas e 4 meninos – exercendo a profissão de lavadeira: “lavar uma roupa, principalmente quando se trata de uma roupa branca, ela é fantástica. Ela... sempre foi lavadeira e ela nos criou lavando roupa, né, depois que meu pai morreu, ela assumiu toda a responsabilidade... [e] nos criou nessa profissão”.

 

A infância de Bel foi simples, de interior, repleta de brincadeiras, mas também de responsabilidades: “brincar de pira, mata no meio, do se esconde, cair no poço, subir em árvores e armar arapuca pra pegar nambu. Enfim, infância feliz, mas tinha tarefas diárias, como varrer terreiro, carregar água, dar comida às galinhas... meus dois irmãos e eu éramos da pá virada. A gente cuidava das nossas tarefas bem cedo, que era pra sobrar tempo pra gente brincar, pois só saíamos de casa aos finais de semana, domingo pela manhã, pra ir à missa, lá na igreja de São Francisco, no convento, e à tarde pra ir olhar o jogo no campo do Palmeiras e ver os trapalhões, era muito, muito, muito legal”. 

 

Ela conta, ainda, que o acesso aos estudos foi difícil, desde sempre. Começou a estudar aos 6 anos de idade, mas aprendeu a ler apenas aos 8, pois a escola trabalhava com classes na modalidade multinível, da 1ª à 4ª série, e contava com uma professora apenas, em uma sala com cerca de 40 alunos.

 

Já aos 10 anos de idade, Bel foi para a escola São José, onde estudou do 2º ao 4º ano. Nesse mesmo período, ela assumiu a responsabilidade de cuidar da cozinha de casa, pois “minhas irmãs vieram todas pra cidade pra estudar e trabalhar, mais pra trabalhar do que pra estudar, pois eram exploradas, como bem sabemos. Quando uma menina do interior vem morar na casa de alguém como "filha", essa [é uma] forma de ter uma escrava doméstica”. 

 

Adentrando a vida adulta, suas irmãs casaram-se logo e constituíram família, enquanto os irmãos começaram a trabalhar e hoje são profissionais em áreas diversas, mesmo sem estudos. Assim, Bel foi a única que investiu nos estudos, apesar dos desafios. Logo no 1º semestre da graduação, ela perdeu o emprego que pagaria o curso pelos próximos anos. Porém, não desistiu: com a oportunidade de receber auxílio do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (FIES) sem fiador, formou-se em Turismo pelo Instituto Esperança de Ensino Superior (IESPES), em 2007. Além disso, entre 2011 e 2012 fez pós-graduação em Educação Ambiental.

 

A militância começou aqui

 

É possível dizer que a infância de Bel e as dificuldades que passou deram a ela a fibra para ser a militante que é hoje. Sua consciência ambiental, por exemplo, vem de muito antes de seu ingresso nos movimentos sociais: “Como nós morávamos em uma região que não tinha água de igarapé e nem água encanada... a gente tinha que ir buscar no poço de um vizinho, e todo dia tinha que encher o camburão e o pote. É por essa e por outras razões que eu valorizo a água que sai na torneira de casa hoje. Pra mim, desperdiçar é, além de um crime, desrespeitar todas as pessoas que bebem água de barreiro como minha família e muitas outras que moravam lá nesta época”. 

 

Sua entrada, de fato, nos movimentos sociais se deu através da Pastoral da Juventude, em 1992, ano em que a Campanha da Fraternidade tinha como tema “Juventude – caminho aberto”. Por isso, ela e outros jovens foram convidados para ir ao Centro de Formação Emaús, para participar de um curso de formação de liderança. Nesse momento, Bel conta que percebeu: “é isso aqui que eu quero pra mim”. Ela afirma também que Carlos Jaime e Jandira Pedroso, entre muitos outros nomes, foram inspirações enquanto lideranças. 

 

Depois disso, envolveu-se também com as Pastorais Sociais, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), fazendo trabalho de base; participou de formações do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST); e foi assessora de comunicação da Associação das Comunidades da Região de Juruti Velho (Acorjuv) por 5 anos, período em que conheceu o MAM –, mas ainda não militava no movimento. Em 2016, Bel voltou para Santarém e foi para Itaituba, onde conheceu o MTV, e passou a militar. Apenas em 2017, tendo feito um curso sobre o problema mineral brasileiro, na Escola Nacional Florestan Fernandes, ela ingressou, de fato, no MAM.

 

A luta deve continuar

 

Atualmente, Bel reside na área central de Santarém, embora não se orgulhe disso, pois morar no centro “acaba deixando a gente fora de muitas lutas”, diz ela. Não é casada, nem tem filhos, opção pessoal sua desde a adolescência, mas orgulha-se de ter inspirado seus sobrinhos e sobrinhas a estudarem: “todos eles fizeram, estão fazendo, faculdade, pós-graduação... eu acredito que tenha sido uma inspiração, né... ‘olha, se a tia conseguiu...’, sempre dizia, né, ‘se eu consegui, vocês vão ter que conseguir também’... então é muito bacana isso, ver meus sobrinhos, sobrinhas formadas”.

 

Além disso, hoje, Bel é quase integralmente envolvida com os movimentos populares. Porém, quando questionada sobre sua intenção de permanecer sempre dentro desses grupos, ela diz: “não, não. Eu acho que a gente tem que dar espaço pra outros, a gente tem várias formas de fazer militância... eu quero vivenciar o movimento, mas não quero estar sempre na linha de frente. Sempre que for preciso, eu vou estar, mas eu quero preparar outras pessoas”.

 

Sobre seus sonhos, ela afirma: “primeiro um sonho curto... é que os movimentos populares e pastorais e organizações sociais de Santarém tivessem uma coalizão de pensamentos, de luta... a longo prazo, eu quero ver essa juventude que tá começando hoje no movimento... assuma as tarefas que nós hoje estamos fazendo... e quero ver uma Amazônia com menos soja, com menos agronegócio, que o rio Tapajós seja realmente revitalizado, que a gente não precise mais estar lutando pra que os nossos jovens não morram por uma bala perdida, que as nossas lideranças não morram porque estão no enfrentamento por justiça, que a gente não perca mais nossos companheiros porque eles estão na luta pela soberania popular”. 

 

 

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