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Da Luta não Fujo: O advogado popular Thiago Rocha fala sobre sua luta

“Não existe construção de outro mundo possível sem luta. A nossa sina é a luta, e a gente precisa encorajar outros e outras a estar na luta”.

07/10/2021 19h29
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: O advogado popular Thiago Rocha fala sobre sua luta

 

 

Advogado popular, atuando no campo da questão agrária, dos Direitos Humanos e dos ameaçados de morte, sucessor de Padre Edilberto Sena na coordenação da Comissão Justiça e Paz (CJP) até o próximo ano, e assessor da Pastoral da Juventude, Thiago Rocha Pereira, de 33 anos, concedeu entrevista ao Tapajós de Fato para contar sua história em mais uma edição da série Da Luta não Fujo.

 

No princípio, era a luta

 

Natural da Pérola do Tapajós, Thiago Rocha começa sua entrevista afirmando que não pensa em deixar Santarém. Nascido e criado no bairro Jardim Santarém, ele relembra: “morei em muitos lugares do bairro Jardim Santarém, porque logo no início, minha família não tinha casa, a gente morava de casa alugada... em quase todas as ruas a gente morou... então toda minha trajetória inicia também nesse lugar, e nesse lugar, eu brinquei, pulei me divertir, topei com pessoas...”.

 

Ainda na adolescência, aos 15 anos, Thiago viveu a separação dos pais. Com isso, começou a procurar, através dos estudos, uma profissão que pudesse exercer para ajudar a mãe: “eu entro no SENAI, adquiro a profissão de eletricista... resolvi ser eletricista pra poder manter a minha família, me manter e me construir nas lutas”.

 

Antes disso, porém, o jovem já exercia um ofício pouco comum entre os homens, mas que ele herdou e de que gosta, por conta de sua mãe, que criou ele e suas três irmãs dessa forma: “desde criança, eu sou costureiro, porque minha mãe é fabricante de bolsa, ela é costureira de bolsas, e ela acabou ensinando pra todos os filhos a costurar também... um bom tempo da minha vida, eu passei costurando ao lado dela... então a gente tem um afeto muito grande, e sentar na máquina de costura me traz muitas lembranças e memórias boas com ela”.

 

Advogado fiel

 

Foi também no bairro de sua infância que Thiago começou a construir sua identidade atual, muito influenciado por sua vida religiosa e profissional. Abraçado pela Igreja, na comunidade eclesiástica São João Batista, ele adentrou o grupo de jovens, onde se encontrou: “a galera [do grupo de jovens] me convidou pra uma encenação do teatro, eu fui gostando, eu fiquei e resolvi, a partir daí ir num encontro deles. Eu cheguei lá, e lá tava tocando Legião Urbana, né, aí eu pensei ‘pô, aqui é meu lugar’, lá fiquei, estou até hoje”.

 

No grupo de jovens, Thiago descobriu a vontade de transmitir conhecimento e de trabalhar com números: “hoje eu sou advogado, [mas] não tinha a menor intenção de ser advogado. Eu sempre gostei dos números, então eu tinha vontade de ser professor de matemática, eu gostava disso, gostava de dar aulas, inclusive quando eu tava iniciando essa história de grupo de jovens, tinha uma galera da minha geração que não tinha como acessar a universidade, então qual foi a ideia que a gente teve, a partir dos grupos de jovens que tinha e que eu esbarrava, né, pô, galera, bora criar um cursinho popular, e tal, e a gente acabou criando... e eu dava aula de matemática”.

 

O Direito só apareceu para o até então professor um pouco mais tarde. Para ele e para a juventude que o acompanhava, atuar nessa área representaria uma esperança de transformação social: “a gente tinha muita esperança de ter alguém do nosso tempo que atuasse no Direito, que pudesse contribuir... e eu me dispus a ser essa pessoa”. Assim, Thiago seguiu a advocacia, formando-se na faculdade em 2012 e prestando a prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em 2013. Por ser um profissional do ramo jurídico, ele entende o Direito como “um instrumento de luta, mas um instrumento a ser combatido, também, porque o Direito, na sua grande maioria, é muito elitista. Ele serve, em certa medida, pra controlar as pessoas e pra manter a burguesia onde ela tá... [mas] eu descobri que poderia colocar a advocacia a serviço da luta”.

 

Ainda, o hoje advogado fala da importância de sua profissão em sua vida pessoal, considerando sua condição de homem negro: “essa carteira, ela não é minha, porque tem uma galera que, infelizmente, depende dessa carteira. Até eu mesmo dependo dessa carteira... toda vez que eu vou de moto no Salvação, que eu tô só de chinelo e de bermuda... é constante, a Polícia Militar, estando na entrada do Salvação, ela me para: um negro, um preto, entrando de bermuda, de sandália, de moto, eles param... cansei de ser revistado, e aí... eles me tratam como moleque, tudo mais, e, de repente eles pegam minha carteira e veem que tem OAB dentro e me tratam como doutor”.

 

A peregrinação

 

“Dois organismos que vão virar a chave da minha vida são a Pastoral da Juventude e as comunidades eclesiais de base, a PJ e as séries. Então, esses dois organismos vão me fazer olhar o mundo de forma diferente, questionar de forma diferente... porque esses dois organismos, né, eles assentam na construção de uma coisa que a gente chama de Teologia da Libertação, e a Teologia da Libertação nos provoca a estar nos espaços, a estar construindo as associações de movimento”. É assim que Thiago descreve sua experiência com organizações ligadas à Igreja e que exercem, até hoje, grande influência em sua jornada.

 

Embora não seja mais um dos jovens da Pastoral da Juventude, ele ainda atua nesse espaço como assessor, dispondo-se a acompanhar os jovens na construção de seu protagonismo: “eu faço isso porque eu acredito que se a gente... ajudar a Juventude a compreender esse mundo infernal que a gente vive, a gente vai ter mais gente na luta, porque alguém teve paciência de fazer isso comigo lá atrás, acho que tem que ter paciência com os outros”.

 

Além disso, Thiago coordena a Comissão Justiça e Paz – organismo da Igreja Católica que trabalha com Direitos Humanos. Ele deve atuar na coordenação do órgão até 2020, e sua tarefa enquanto isso é “articular os membros e fazer a defesa dos Direitos Humanos em nome da Igreja, junto também com os demais... grupos de trabalho da comissão... [e] provocar aquilo que me provocaram lá atrás, né, olha, ser cristão é também estar na luta com os outros, inclusive, em certa medida, até as últimas consequências nessa luta, em nome da vida do povo... é um negócio difícil de fazer, porque a galera quer mais acreditar num Cristo mágico, sabe? Ela não quer acreditar que esse cara... foi um preso político e foi assassinado por defender os Direitos Humanos”.

 

Salvação pela luta

Atualmente, Thiago Rocha tem uma companheira, que conheceu também na Pastoral da Juventude, com quem tem um relacionamento há 12 anos e mora há 4 anos. Ele ainda não tem filhos, mas diz que quer muito vivenciar essa experiência: “eu fico doido pra ter a experiência de criar alguém... eu sou muito a fim de ter uma experiência dessa”.

 

Além disso, o advogado afirma seu desejo de permanecer na cidade: há 33 anos, eu moro aqui, e tem uma coisa que não passa pela minha cabeça em hipótese alguma, pelo menos não passou até agora, é em sair daqui. Eu amo demais essa terra e gosto demais daqui, da minha vida aqui”.

 

Quando questionado sobre seus sonhos para Santarém e região, o advogado respondeu: “eu sonho muito que a gente possa decidir nosso destino... dizer assim ‘olha, eu quero continuar comendo meu peixe, eu quero continuar indo na orla ver o meu pôr do Sol... eu quero ter oportunidade de poder decidir, eu quero continuar acessando o lago do Maicá’... então eu sonho muito da gente fortalecer a luta pra que a gente possa ter autonomia dos nossos territórios... porque a gente não tem. Quem vem de fora e os grandes projetos... eles que definem se a gente pode perder uma praia, que aí vai a Vera Paz, aí vai Maracanã, está por vir Ponta de Pedras... enfim, eu sonho muito que a gente possa, é, ter autonomia sobre nossas vidas, sobre nossa região...”.

 

 

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