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Da Luta não Fujo: Rosenilce Vitor, presidenta da Feagle, fala sobre sua luta na região

“Quando a gente é liderança, a gente tem que aprender a ser uma boa esposa, ser bons companheiros, porque nesse momento, a gente é tudo, é mulher, é companheira”.

12/10/2021 18h07 Atualizada há 4 dias
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: Rosenilce Vitor, presidenta da Feagle, fala sobre sua luta na região

 

 

Atual presidenta da Federação das Associações de Moradores e Comunidades do Assentamento Agroextrativista da Gleba Lago Grande (Feagle), segunda secretária na diretoria da Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais (AMTR), segunda tesoureira da associação da comunidade Maranhão, agricultora, esposa e mãe. Esta é Rosenilce dos Santos Vitor, conhecida como Sinha, de 43 anos, personagem desta edição da série Da Luta não Fujo.

 

Preparo da terra

 

Rosenilce Vitor, que hoje ocupa a presidência da Feagle, organização de maior importância dentro do território do PAE Lago Grande, nasceu e cresceu na comunidade Maranhão, dentro do PAE, e ainda hoje reside naquele local. Na entrevista que concedeu ao Tapajós de Fato, ela contou episódios de sua infância, da qual diz sentir saudades: “a minha infância foi muito boa... na verdade, eu sinto até saudade assim... a gente tinha uma liberdade maravilhosa... eu fugia da mamãe pra mim ir pro igarapé pescar. Quando a gente chegava, era com aquelas cambadas de toda espécie de peixe, né. Assim, quando eu digo que eu sinto saudade da época da minha infância, é porque eu lembro de tudo isso... embora tivesse, por exemplo, manga na nossa comunidade, mas a gente queria ir lá embaixo buscar, e a gente trazia na cabeça... pra gente chegar rápido lá, a gente... usava um jansen de bicicleta, pra gente ir correr atrás do jansen, pra gente chegar lá”. 

 

Desde cedo, Sinha, como Rosenilce é comumente chamada, teve forte ligação com a agricultura. Seu pai, que hoje mora também na comunidade Maranhão, e sua mãe, falecida há 3 anos, exerciam o cultivo da terra, e ela e os sete irmãos já trabalhavam na roça ainda enquanto crianças: “a atividade que meus pais levavam era da agricultura. Minha mãe era professora, trabalhava um turno..., mas a gente atuava diretamente na agricultura. Nosso trabalho, nosso meio de sobrevivência mesmo, garantido, desde criança, a gente já trabalhava com roça”.

 

Ela conta também, com orgulho, que a fome por falta de alimento nunca foi uma dificuldade, pois a terra sempre ofereceu tudo de que ela e a família necessitavam para sobreviver: “a gente vivia uma vida independente, porque tudo que a gente quer, a gente tem, e sem gastar dinheiro... a fruta que Deus já deixou mesmo na natureza, a gente colhia... nós se criamos mesmo comendo peixe, galinha de quintal, que a gente criava, a mamãe criava muita galinha, peru... e a gente criava assim, com essa perspectiva da alimentação mesmo. Não tinha aquele foco de venda, não tinha mercado, o único mercado que tinha era pra farinha”.

 

Além disso, os estudos também tinham espaço e tempo reservados na vida de Sinha e dos irmãos, mesmo com as dificuldades. Como a mãe era professora, ela mesma ensinou os filhos, até a quarta série. Após isso, foi preciso se deslocar para outra comunidade para continuar a estudar: “com 11 anos mesmo, eu me desloquei pra outra comunidade... quando eu concluí a quarta série, nós fomos abençoados, que numa comunidade próxima daqui, chegou o ensino modular pra comunidade... de Aracuri, foi no período que eu estava com 11 anos, a minha irmã tava com 12... e nós íamos andando, que era de manhã, e nós era tão miudinha... a gente sofria medo, porque era muito mato na estrada, beira de estrada... era muito difícil porque nós era muito criança pra estudar o ensino modular que era aquele ensino que o professor vinha com 2, 3, 4 disciplinas, pra adquirir a nota de 1 ano em 2 meses, em 3 meses... mas valeu a pena, porque a gente se esforçou e deu pra gente aprender, muito assim, com responsabilidade... e a gente acabou aprendendo que aquilo era um compromisso”. 

 

O plantio

 

A jornada de Sinha no envolvimento com a luta popular se iniciou na Igreja. Aos 11 anos, ela já fazia parte da equipe catequética, e participava das reuniões de distrito, além de cantar. Mais tarde, com 19 anos, associou-se ao STTR, na delegacia sindical de sua comunidade. Aos 30 anos, foi convidada a integrar a diretoria do sindicato e assumiu, de 2009 a 2012, a Secretaria de Políticas Sociais, que abrangia os grupos de mulheres e jovens. Meses depois, foi convidada a fazer parte da diretoria da Feagle, na Secretaria Geral, em que atuou por dois mandatos. Agora, ela assume a presidência da Federação. Sobre seu papel nesse cargo, Rosenilce afirma: “eu aceitei, na verdade, numa perspectiva assim de que todo o grupo seria... mais fortalecido, de fato, não com aquele pensamento de que por ser presidente é que manda, é que faz sozinho”.

 

Além de seu trabalho na Feagle e no STTR, Sinha é segunda tesoureira da associação de sua comunidade, Maranhão, e segunda secretária da AMTR.

A presidenta da Federação falou sobre ameaças que sofreu, junto a seus companheiros de diretoria, ao longo de sua trajetória dentro da organização: “posso sofrer outras ameaças, quem sabe, né, porque o ataque vai ser bem maior, exatamente por esse fato de ser mulher... as ameaças que eu já sofri não foi especificamente como Rosenilce..., mas foi como Feagle... quando se fala Feagle, eles pensam que a Feagle é a diretoria. Até as pessoas das comunidades pensam que a Feagle é a diretoria, e não é. A gente tem colocado na cabeça deles que... a diretoria é apenas um grupo de pessoas que representa esse território imenso... a mineradora Alcoa ainda não chegou a entrar diretamente no território, mas porque eles... aí que entra as ameaças ‘nós ainda não conseguimos entrar porque a Feagle é a desgraça que não deixa entrar’... esses grupos organizados aqui na região, eles são muito contra a Feagle, por exemplo... uma organização que criaram recentemente, é só pessoas que defendem o agronegócio, eles tenham muito ódio de nós como Feagle... porque é um empecilho que vem impedir o desenvolvimento dentro da região, e não faz nada... nós temos a culpa de que o Lago Grande não é rico”.

 

Rosenilce falou também sobre os desafios que deve enfrentar agora, estando à frente da Feagle, e sobre como deve lidar com essas situações: “Eu tenho uma impressão de que por eu ser mulher, talvez eu possa ser mais procurada assim, no sentido de que ‘ah, é mulher, eu posso convencer ou pode ser mais fácil pra mim conseguir...’, mas eu não vou ser assim a pessoa fácil de ser convencida, porque eu já me dei conta de que lutar por esse território é o nosso foco mesmo... a gente é visto com maus olhos, às vezes até por lideranças da própria comunidade, das comunidades vizinhas. A gente é visto como pessoa mandona, como pessoa chata, que não quer contribuir, só quer favorecer o seu lado... então, a gente já tem uma imagem de que a gente não é boa peça na visão dos grandes, e eu sei que não vai ser fácil”. 

 

 

Colheita de bons frutos

 

Atualmente, Rosenilce Vitor já vive um casamento de 26 anos e tem 5 filhos, dos quais a mais velha tem 27 anos, e a caçula tem 19. A filha mais velha mora na comunidade Maranhão, no PAE Lago Grande, e os demais moram em Santarém, onde estudam e trabalham. Sobre seu casamento, ela diz: “a gente acaba se ajudando de qualquer forma, seja como liderança, seja como casal... eu acho que isso é muito importante pra qualquer casal... que convive na mesma casa, compartilha dos mesmos objetivos, eu acho que isso é de fundamental importância”. 

 

Quando questionada, durante a entrevista, sobre seus sonhos e expectativas para a região que tanto ama, Sinha diz: “eu tenho um sonho de que nessa gestão, a gente possa conseguir a nossa titulação do nosso PAE Lago Grande, regularizar mesmo ele, pra garantir que é nosso de verdade, e isso nós só vamos poder dizer... se a gente tiver o nosso título coletivo em mão... com a nossa regularização legal, né, com o título em mão, a gente consegue trazer... as coisas assim de melhoria pras comunidades”.

 

 

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