Sábado, 16 de Outubro de 2021 08:34
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Reportagem Especial Da Luta Não Fujo

Da Luta não Fujo: O vice-presidente do STTR de Santarém, Edilson Figueira, fala sobre sua construção na luta popular

“Eu tenho a minha consciência de retornar pra minha atividade, pra minha comunidade, porque eu vou contribuir com a minha comunidade, contribuir com a região”.

14/10/2021 09h10
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Tapajós de Fato
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Vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém (STTR), ex-presidente da Federação das Associações de Moradores e Comunidades do Assentamento Agroextrativista da Gleba Lago Grande (Feagle) e membro do Movimento Tapajós Vivo (MTV), agricultor, esposo e pai. Este é Edilson Silveira Figueira, de 45 anos, personagem desta edição da série Da Luta não Fujo.

 

E pra que tu foi plantado

Edilson Figueira, que hoje ocupa a vice-presidência do STTR, nasceu na comunidade Maranhãozinho, e hoje vive na comunidade Maranhão, dentro do PAE Lago Grande. Na entrevista que concedeu ao Tapajós de Fato, ele contou como foi sua infância: “era muito difícil, né, porque na época, os pais da gente botavam muita tarefa pra nós... pra gente ganhar uma liberdade pra ir na casa do vizinho, na casa da vovó, na casa do titio ou brincar, tinha que fazer tantas atividades, que não tinha tempo quase de brincar... na hora de almoçar, todo mundo almoçava junto, até hoje a gente tem esse costume, que a mãe é que servia todos os filhos daquele pedaço, todo mundo ficava sentado, almoçava, e todo mundo lavava sua louça”.

 

Desde cedo, Edilson teve forte ligação com a agricultura. Seus pais, que hoje moram também na comunidade Maranhão, exerciam o cultivo da terra, e ele e os dez irmãos já trabalhavam na roça ainda enquanto crianças: “a gente trabalhava só mesmo com... a farinha da mandioca. Quando eu retornava [da escola], eu tinha que... ir pra roça, capinar na roça, ou tirar mandioca”. Até hoje, segundo ele, a terra ainda oferece tudo de que precisa: 

 

Além disso, os estudos também tinham espaço e tempo reservados na vida de Edilson, mesmo com as dificuldades: “eu estudava na quarta série nesse período, [em] 1990, 1993... eu tinha vontade de ir lá pra estudar no Aracuri. Eu saía às 5 da manhã do Maranhãozinho, aí eu chegava às vezes na escola 10 pras 7... não tinha bicicleta, tudo era de pés”. Quanto ao Ensino Médio, ele conta: “a gente ainda fez o primeiro ano do Ensino Médio, aí quando a gente foi pra fazer o segundo ano... a gente não tinha mais tempo... tinha que ir pra escola, chegar da escola, trabalhar, e tinha filhos, e a gente não teve mais oportunidade de estudar, mas eu não me arrependo, porque aonde eu tô hoje, pra mim foi a melhor faculdade”.

 

Homem do sangue vasto

A jornada de Edilson na luta popular se iniciou na Igreja, nas reuniões e, posteriormente, na coordenação de distrito da catequese, além de ter sido ministro do dízimo por 7 anos. Ele também se envolveu na comunidade através do esporte: foi vice-presidente e secretário do clube de futebol São Francisco do Maranhão, presidente e vice-presidente do clube Palmeiras, da mesma comunidade.

 

Após isso, Edilson adentrou o STTR, no ano 2000, em um episódio que ele explica assim: “acho que foi Deus que chamou naquele momento. Eu não era convidado pra reunião... eu tinha uma bicicleta, vinha lá da minha colônia pra buscar uma farinha, eu tava descalço, levava uma camisa no ombro, empurrando a bicicleta, com meio saco de farinha no varão da bicicleta, aí eu ia passando, aí tinha dois primos meus... e tinha o secretário geral do sindicato... eles me chamaram ‘Edilson, vem aqui, eu acho que é tu que vai salvar aqui... a gente precisa ter um delegado sindical’... e eu entrei lá, aí o secretário me ensinou a preencher o talão, aí no dia seguinte, que era no domingo, eu já fui-me embora pra Santarém, fazer uma capacitação”.

 

Desde então, ele vem atuando no sindicato, primeiro como delegado sindical, por 9 anos e 6 meses, depois como diretor regional, por 2 mandatos, inclusive no período da criação do PAE Lago, sobre a qual ele relata: “a gente reunia as comunidades, e a gente criava um grupo pra gente poder demarcar nossas terras”. Além disso, foi vice-presidente da Feagle de 2011 a 2014, passando à presidência devido à renúncia do presidente eleito, e foi conselheiro fiscal do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS). 

 

Sobre seu atual cargo no STTR, ele afirma: “eu tinha bastante vontade de ser o presidente do sindicato, mas eu tenho o maior respeito pela Maria Ivete Bastos... ela me motivou muito quando ela foi presidente do sindicato, ela Foi uma mulher muito aguerrida... uma pessoa muito humilde”.

 

Eu sou muito mais que um fruto

Atualmente, Edilson Figueira vive há 26 anos com sua esposa e tem 5 filhos. Sua filha mais velha mora na comunidade Maranhão, no PAE Lago Grande, e os demais moram em Santarém, onde estudam e trabalham. Ele diz que não pretende deixar a região em que vive: “ao concluir o meu trabalho, [eu quero] voltar pra minha comunidade e viver uma vida sadia, viver uma vida digna, ainda como a gente vive hoje”.

 

Quando questionado, durante a entrevista, sobre seus sonhos para a região que tanto ama, Edilson afirma: “é um sonho... que todas as famílias pudessem ter uma terra mecanizada, pra que eles pudessem produzir mais e sem estar se desgastando como a gente até hoje ainda faz... com produto agroecológico, com produtos sem veneno, com garantia de terra pras futuras gerações, e que tenha ... incentivo à educação, incentivo à segurança, água pra todos, energia de qualidade, menos desmatamento, menos queima, uma universidade pro nosso filho, daqui para frente, e que tenha comunicação, com um sinal de internet, pra que ela possa trazer resultados pra nós, porque hoje o sinal de internet, o celular, não é mais... uma ‘pavulagem’, é uma necessidade... então meu sonho, minha vontade e meu anseio é que todas essas políticas sejam alcançadas, e todos tenham seu direito, não tenha distinção, nem de cor, nem de raça, nem de credo religioso”. 

 

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