Quinta, 02 de Dezembro de 2021 02:06
093991489267
Saúde Miséria

Com a pandemia, aumenta o número de pobres e miseráveis em Santarém, Pará.

.

15/10/2021 11h57 Atualizada há 2 meses
Por: Felipe Bandeira Fonte: Felipe Bandeira
Com a pandemia, aumenta o número de pobres e miseráveis em Santarém, Pará.

Por Felipe Bandeira[1]

 

A história de Maria Lindalva, 43 anos, moradora do bairro do Jutaí, em Santarém, retrata uma triste realidade de expansão da pobreza no país e, particularmente, na Amazônia. Desempregada, Lindalva mora em uma casa de madeira de um único cômodo, junto de suas 7 filhas, netos, irmãos e pais. Ao todo, 12 pessoas convivem na pequena casa. As paredes são feitas de madeiras mal encaixadas e o assoalho, além de incompleto, é irregular. Existem poucos móveis, todos provisórios, como a mesa que serve também para apoiar as televisões de tubo, as cadeiras de plástico, que são em quantidade inferior ao número de moradores. Todos dormem em redes e possuem pouca privacidade.

A cozinha é aberta e construída sob uma pequena varanda, onde se encontra o fogão de seis bocas que, no entanto, quase não se usa porque Lindalva não possui condições de comprar o gás. Para cozinhar, a família improvisou um fogão a lenha. Segundo relatou, já tem quase 1 ano que cozinha na lenha. Todas as manhãs, sai para catar pedaços de pau e os corta com terçado. Para acender o fogo, utiliza o papel da cuba de ovo. As panelas são poucas, assim como é pouco “o de comer”, mesmo que exista muitas bocas para alimentar.

Lindalva conta que a sua situação piorou com a pandemia. De acordo com o IBGE, somente no primeiro semestre de 2021, o número de pobres e miseráveis aumentou em 11% em relação a 2020. O índice de desemprego alcançou a margem de 14,1%, o que representa quase 15 milhões de pessoas desempregadas. Esta estimativa, esconde as altas taxas de informalidade e empregos precários, processo que piora ainda mais as condições de vida da maioria da população no país. Muitas famílias não conseguem mais consumir carne vermelha, assim como não consomem mais frango, nem carne de porco, devido ao aumento de mais de 17% no preço das proteínas.

Diante deste quadro, a imagem de uma população faminta disputando sobras no “caminhão dos ossos” suscitou o questionamento se açougues deveriam ou não vender ossos e restos de carne para os “consumidores”, questão que é em si mesma absurda. Alguns açougues chegaram a vender o quilo das carcaças e pés de galinha a preços abusivos. Muitas pessoas passaram a comer carne estragada. Isto porque, atualmente, 19 milhões de brasileiros acordam a não sabem se vão conseguir fazer pelo menos uma refeição ao dia. Este quadro se agrava ainda mais quando consideramos as diferenças regionais.

A miséria atinge principalmente a região norte e nordeste, em especial a população negra. No Pará, por exemplo, a taxa de desemprego (15%) é superior à média nacional. Somente no primeiro trimestre desse ano, o número de desempregados no Estado ultrapassou a marca de 500 mil. Também aqui, os impactos da crise se mostraram ainda mais perversos, com redução nos rendimentos das famílias que superou a média nacional. Em Santarém, sobretudo nas periferias, é possível observar um número crescente de pobres e miseráveis.

            

Como mostram os dados divulgado pelo IBGE, em toda região norte, o preço do gás de cozinha alcançou a cifra de 100 reais, valor 20% mais caro do que o cobrado no restante do país. Ao alcançar este patamar, a botija praticamente equiparou a 10% do salário mínimo. No bairro do Jutaí, em Santarém, Lindalva me informou que a botija de 13 kg custa em média R$ 125,00. Sem dinheiro nem mesmo para comprar o essencial, como comprar o gás de cozinha? Com o gás mais caro, a lenha passou a ganhar espaço no ambiente familiar. Outros moradores, utilizam a lenha para economizar no gás e alguns até venderam seus fogões para fazer dinheiro na crise.

Em 2021, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a lenha já ocupa o segundo lugar entre as principais fontes de energia no país, com participação de 26,1% contra 24,4% do gás de cozinha. Em primeiro lugar está a energia elétrica, que também sofreu reajuste nos preços.

Lindalva e sua família fazem parte do grupo mais vulnerável aos efeitos da pandemia. Trata-se de mulheres negras, solteiras e desempregadas. Com as filhas ainda pequenas, ela afirma que não tem como trabalhar. Atualmente, Lindalva vive com a renda do Bolsa Família e com os 350,00 do Auxílio Emergencial, cuja o último repasse encerra agora em outubro.

 

Assim como Lindalva, muitas pessoas, adultos e crianças, padecem necessidade e vivem em condição de extrema pobreza em Santarém. Por outro lado, Bolsonaro e os governos signatários ao seu projeto parecem estar dispostos a levar adiante este projeto de morte. Trata-se de um tipo de gestão da crise que faz do Estado de Exceção um instrumento de manutenção da ordem e da normali­dade política, operando pela indistinção entre guerras, torturas, ho­micídios, humilhações e execuções.

Para autores como Foucault, essa re­lação se expressa a partir da divisão e da classificação das pessoas que podem viver e as que devem morrer. Os operadores dessa divisão, ao utilizar critérios étnicos e raciais, produzem a subdivisão da popula­ção em grupos e subgrupos que, para legitimar suas mortes, são clas­sificados como inimigos que precisam ser constantemente criados e recriados por práticas e discursos de ódio.

Ao combinar características racistas e autoritárias, essa lógica estabelece bases territoriais para operacionalizar o que o filósofo Achille Mbembe chama de necropolítica. Na Amazônia, esse arranjo social pode ser observado nos conflitos materia­lizados em cercas de arame farpado, milícias, barricadas, bloqueios, miséria e fome. Estes são marcadores físicos onde a norma jurídica não alcança e a exceção assume o caráter de normalidade.

Histórias como a de Lindalva são cada vez mais frequentes em Santarém e são produtos deste tipo de arranjo social. Para contrapor esta realidade, é preciso mais do que nunca pautar políticas públicas que contemplem essas famílias e reduzam os índices de pobreza. Esta agenda passa, em primeiro lugar, pela derrota de Bolsonaro. Este é um dever democrático de todos e todas, afinal, “se não nos deixam comer, não os deixaremos dormir!”.

 

[1] Professor da UFOPA, doutorando em Desenvolvimento Econômico na UNICAMP.

 
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.