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Reportagem Especial Da Luta não Fujo

Da Luta não Fujo: Ex-presidente da Feagle, Antônio Andrade, conta suas vivências pessoais e na luta

“Eu tenho mais esse papel de estar conversando com as pessoas, buscando conhecimento pra trazer pros demais”.

20/10/2021 09h59
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: Ex-presidente da Feagle, Antônio Andrade, conta suas vivências pessoais e na luta

Atual diretor de relações públicas da Federação das Associações de Moradores e Comunidades do Assentamento Agroextrativista da Gleba Lago Grande (Feagle), ex-presidente da mesma organização, militante no Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), formador na Casa Familiar Rural (CFR) e agricultor. Este é Antônio Oliveira de Andrade, o Gavião, que também está se especializando para ser técnico agropecuário. Ele concedeu entrevista ao Tapajós de Fato para contar sobre sua trajetória na luta pela defesa do território.

 

A jornada se iniciou assim 

 

Natural da comunidade Acutireçá, no PAE Lago Grande, mas residente em Bom Futuro, na região do Arapiuns, Antônio Andrade, conhecido como Gavião, mudou-se para a ilha de Marimarituba ainda muito pequeno, onde viveu parte de sua infância com a família. Em seguida, seguiram para o Aninduba, onde sua mãe e seus sete irmãos ainda moram até hoje. Seu pai, que era músico, é falecido há 10 anos. 

 

Desde a infância, Gavião sempre gostou de se envolver nos movimentos, segundo conta: “eu sempre fui uma pessoa que gosta dos movimentos. Eu sou um pouco, era na verdade... traquino. Eu canto, eu toco, e aí a gente fazia animação, fazia batucada na beira do campo quando tinha jogo, né, e narrava jogo. Assim, eu fazia um monte de coisas que a comunidade acabava gostando”.

 

Com seu gosto pelo trabalho com a comunidade, Gavião entrou nos movimentos sociais através da Igreja, mais especificamente da Pastoral da Juventude. Tempos depois, foi convidado para trabalhar em uma rádio no Acre, e também para um estágio na Rádio Mocoronga, do Projeto Saúde e Alegria. Foi membro do Conselho Intercomunitário Floresta Ativa, do qual saiu em 2004, para ser, no ano seguinte, escolhido para representar o PAE Lago Grande como diretor de relações públicas da Feagle. 

 

Hoje, Gavião atua, ainda, na diretoria da Feagle, no mesmo cargo em que iniciou em 2005. Além disso, ele tem uma relação muito próxima com a Casa Familiar Rural, segundo conta: “nos assuntos relacionados à questão fundiária aí é a minha contribuição. Em outros temas, aí eu também sou aluno”. 

 

Pedras no caminho

 

Durante sua caminhada em meio aos movimentos sociais e na luta pela defesa do PAE Lago Grande, Gavião enfrentou muitas dificuldades, principalmente enquanto presidente da Feagle, por seu envolvimento com a temática fundiária. Isso levou sua família, em especial as irmãs, a pedirem que ele abandonasse o cargo: “Na verdade, quando eu fui escolhido para vir, a minha família, no início, foi de acordo. Aí, depois que passou pra essa questão mais fundiária, eles não são muito favoráveis, minhas irmãs principalmente, por causa das ameaças, né, eu fui muito ameaçado... e aí a minha família, minhas irmãs, achavam que eu deveria deixar esse trabalho, procurar um outro meio de viver, por causa das ameaças”.

 

Essas ameaças, segundo ele, acontecem, muitas vezes, da seguinte forma: “a pessoa tá brigando por causa de venda de terra, que  gente sabe que é proibido, e comunidades levam a denúncia, e a gente vem tentar amenizar a situação... por exemplo, eu fui ameaçado pelo Paulo Quilombola... ele me ameaçou num vídeo, isso circulou na internet, eu só fui saber dias depois que eu estava sendo ameaçado por ele, um monte de coisas, e aí outras pessoas gravaram um vídeo falando, aqui do Lago Grande, justamente pra tentar me prejudicar também, no meu trabalho. Então, essas ameaças vêm mais um pouco dessa questão fundiária”.

 

Gavião faz parte da Feagle desde sua criação e saiu da presidência há pouco tempo, por ocasião da última Assembleia da federação: “foi um pouco difícil, porque na época, das pessoas que levaram pra direção, só quem era mais formado sou eu no caso, então eu que tinha mais esse papel de estar conversando com as pessoas e buscando conhecimento pra trazer pros demais diretores, então, foi uma coisa muito dura, né. E até mesmo pra gente sair do interior, de onde você tem a sua casa, pra você ir pra cidade, lá tudo é comprado, e a gente esbarrou muito nisso. A gente sofreu, mas graças a Deus, hoje a gente já tem um suporte maior... a gente vai deixar assim pra nova gestão vir com as portas abertas”. 

 

Além de ter sido presidente, Antônio Gavião passou por vários mandatos anteriores, em cargos diferentes: foi diretor de relações públicas, secretário e tesoureiro, assumindo a presidência em 2016 devido à renúncia do cabeça de chapa eleito – ele era, então, vice-presidente. Gavião avaliou seu mandato, que se encerrou neste ano, da seguinte forma: “eu tentei buscar tudo aquilo que eu podia fazer, né, só que... por exemplo, o Incra, que é o órgão superior à federação, muitas das vezes, a gente depende dele pra fazer, agilizar as coisas dentro das comunidades, e isso, as superintendências que vêm, elas não têm assim um papel [de]... trazer o nome da entidade, fazer acontecer. Pra você ter uma ideia, hoje, eu tô saindo da direção, mas todas as questões fundiárias que as comunidades levam pro Incra, o Incra manda pra mim... o órgão que a gente entende que era pra resolver, não resolve... é por essa razão que outros membros da direção acharam por bem eu não sair de uma vez da federação, sair só da presidência, ficar num cargo lá, distante um pouquinho, pra poder ter essa forma de ir capacitando outras pessoas pra ficar no meu lugar”.

 

Todo sonho é possível

 

Atualmente, Gavião continua buscando conhecimento. Além de estudar para ser técnico agropecuário, ele também estuda, pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), para concluir seu Ensino Médio, na escola Júlia Passarinho.  Ele não é oficialmente casado, mas divide a trilha da vida com uma companheira, que já não pode ter filhos. Sobre isso, porém, ele afirma, sorrindo: “não é por isso que a gente não vai viver”.

 

Quando questionado sobre seus sonhos para o território do PAE, Gavião diz: “o meu sonho... pode até ser meio louco, mas o que eu sonhava tanto era que nunca viessem fazer a prospecção de minerar dentro do território. Eu sempre sonhei isso, e por isso que eu vinha lutando pra que esse território fosse livre de mineração, porque o desperdício da matéria-prima que a gente tem, da maior biodiversidade que existe dentro do território... se isso vier a acontecer, isso vai ser destruído, tudo. E a gente tem experiência de vários lugares: Mariana, Bento Rodrigues, Brumadinho, aqui pra Oriximiná, Juruti, [onde] nós já fomos diversas vezes e a gente vê tudo o que tá acontecendo”.

 

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Gavião conclui sua entrevista falando sobre sua vontade de se voltar a projetos pessoais, entre eles seu trabalho com a terra, na qual cultiva feijão, milho, macaxeira, entre outras plantações e sua criação de peixe.

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