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Quilombola de Pacoval, em Alenquer, é o primeiro a integrar Programa de Pós-graduação em Educação da Ufopa

Em entrevista exclusiva ao Tapajós de Fato, Roberth conta a trajetória e o que o ajudou a chegar até ao Programa de Mestrado em Educação.

22/10/2021 10h11 Atualizada há 1 mês
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Redes Socais de Roberth
Redes Socais de Roberth

O programa de em educação da Ufopa (PPGE) lança, anualmente, 25 vagas para mestrado. No final de 2019 foi aprovada  Pelo Conselho Superior de Ensino Pesquisa e Extensão (Consepe),  a Resolução 314 da Ufopa que, em linhas curtas, regulamenta a Política de Ações Afirmativas para inclusão de negros (pretos e pardos), quilombolas, indígenas e pessoas com deficiência nos Programas de stricto sensu da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). 

Este ano o PPGE reservou um total de 7 vagas para negros, quilombolas, indígenas e PCDs, um dos Aprovados foi Roberth Luiz Nogueira da Costa, do quilombo de Pacoval, em Alenquer,  que é o primeiro quilombola a integrar um curso de pós-graduação em Educação na Ufopa. Roberth Costa, formado em Letras e História, remanescente do Quilombo de Pacoval, no município de Alenquer, região da Calha Norte do Pará, filho de mãe solo que trabalhou como empregada doméstica para criar ele e seu irmão.

Roberth conta ao Tapajós de Fato um pouco de sua trajetória educacional. “Estudei a minha vida toda em escola pública em Alenquer. Tive muitas dificuldades no sentido de ser um aluno de baixa renda em meio a muitos alunos que tinham um poder aquisitivo melhor que o meu, cheguei a estudar como alunos filhos dos patrões de minha mãe. Mas isso nunca foi impedimento para que eu não estudasse. Sempre tive muita certeza de que estudar seria o melhor caminho para mim. E hoje estou colhendo os frutos de toda essa caminhada.” Roberth disse ainda que na sua família ele é um dos poucos que conseguiram cursar o Ensino superior.

A apoio da mãe foi fundamental

O desafio enfrentado por Roberth com a mãe e o irmão forma muitos. Ele é filho de mãe solo que sempre trabalhou: “como doméstica em casa de família. E mesmo tendo estudado até a 4ª série do ensino fundamental, sempre incentivou a mim e ao meu irmão a estudar. O apoio dela sempre foi fundamental para que eu conseguisse estudar e concluir minha educação básica”.

Os desafios na Academia

“Na faculdade, cursei Letras pela Ufpa, na cidade de Curuá, vizinha de Alenquer. Os desafios eram inúmeros, era um curso intervalar. No início eu era professor concursado por lá, mas em menos de dois anos passei no concurso em Alenquer e tinha que estudar durante as férias. A segunda graduação foi em História e Geografia pelo Parfor em Alenquer, já pela Ufopa.

A conquista da vaga na Pós-Graduação

“Para a construção do meu projeto de pesquisa, adaptei meu projeto de TCC de minha segunda graduação pelo Parfor – Ufopa. O projeto foi adequado ao que pedia o Edital do PPGE, e por isso reorganizei mudando a ótica do projeto, antes de História, para a área da Educação. Para tanto, contei com o grande apoio e incentivo do professor Luiz Fernando, que nos instigou a concorrer a uma vaga no Mestrado em Educação”.

 

O apoio de recebido

 Para que Roberth fosse aprovado em todas as fases de classificação do Mestrado em educação,  houve muito apoio e diálogos com lideranças de seu quilombo e pessoas como o professor Dr. Luiz Fernando de França, do curso de Letras da Ufopa, que, a partir de suas experiências com o projeto Cursinho Quilombola, que promove atividades de preparação para o Processo Seletivo Especial Quilombola (PSEQ), resolveu ajudar os professores do quilombo Pacoval no processo seletivo. Luiz Fernando apresentou o edital explicou como funcionam as etapas e ajudou na construção dos projetos daqueles que decidiram concorrer à uma vaga. 

O professor ajudou até mesmo a preencher o Currículo Lattes  dos participantes, pois a universidade promove uma política afirmativa restrita apenas ao edital, não buscou dialogar com o público alvo e até mesmo auxiliar com as exigências que a mesma  faz. Luiz Fernando disse que “a política da Ufopa se resume em um edital e não vai além disso. E nós, justamente, fizemos essa parte, de ir até a comunidade, mesmo em uma reunião virtual e dizer: olha, vocês vão precisar fazer isso e isso… vamos lá como eu posso ajudar vocês?”, pontuou o professor.

Luiz Fernando diz  ainda que “Ação afirmativa se faz com intervenção, com prática, com experiência na base e não somente lançando edital”. E que as experiencias com o Cursinho Quilommbola e a gora com os professores de pacoval despertou a vontade e  necessidade de  se criar um cursinho para a pós-graduação também, um cursinho que atenda quilombolas, indígenas, negros e PCD’s.

O professor fala também da sua felicidade em relação à aprovação de Roberth para o mestrado. “É uma felicidade dupla, primeiro a aprovação do Roberth, esse é o resultado  mais imediato. Para mim é muito importante ter apoiado e participado  e acompanhado em todas as fases. Outro ponto de felicidade é a possibilidade dessa experiência servir para um projeto maior. Repito novamente, não se faz ação afirmativa apenas com edital e reserva de vagas. Se faz ação afirmativa cuidando do outro, intervindo, mostrando, instruído, formando e interagindo. UM grande desejo é ampliar e levar esse projeto para os territórios para as periferias  que é onde estão os negros, indígenas e quilombolas”. 

A gratidão a todo apoio que tem recebido  e a adaptação a nova etapa da vida acadêmica 

“Posso dizer que o professor Luiz Fernando foi o grande responsável por eu estar mestrando agora. Pois foi ele que nos apresentou a possibilidade de fazer parte de um curso de mestrado. Confesso que não estava nos meus planos adentrar em uma turma de pós-graduação, mas com esse grande incentivo fui lá e consegui, graças a esse grande apoio dele, da minha esposa, do presidente da minha comunidade de Pacoval, de amigos, enfim. o trabalho realizado pelo professor Luiz Fernando e sua equipe é muito importante, pois vejo, aqui mesmo em nossa comunidade, como os jovens buscam participar das aulas, principalmente para tentarem uma vaga na Ufopa através do PSEQ. E quando conseguem esse objetivo é uma vitória para todos. Pena que o número de vagas para o campus aqui de Alenquer ainda é muito pouco, este ano, por exemplo, tivemos apenas uma vaga para cá, que seria mais viável para que nossos jovens pudessem cursar", 

Roberth diz que ainda está em processo de organização “com a dinâmica do mestrado, tentando me organizar entre o trabalho, a família, o Mestrado. Estou muito feliz por ter conseguido estar neste grupo seleto de alunos que compõem minha turma do PPGE 2021 e poder estar tendo acesso aos conhecimentos transmitidos por nossos professores e principalmente pelo meu orientador o professor Alan Augusto Ribeiro que muito tem me ajudado e também me incentivado a seguir firme e forte nesta nova jornada”.

“Vejo que conseguir ter adentrado a um curso de pós-graduação tão gabaritado me faz, como eu disse, muito feliz, mas também me torna responsável em ‘dar conta do recado’, pois há muitas pessoas que estão juntos comigo nessa conquista, além da minha família, toda a comunidade está junto comigo e comemorando este feito. Espero que o meu ingresso possa servir de incentivo aos meus familiares, meus alunos e ex alunos que podem ver que é possível a gente chegar a lugares que muitos, mesmo nos dias de hoje, dizem não pertencer a nós”. Finalizou Roberth Luiz Nogueira da Costa, o primeiro quilombola na Pós-Graduação em Educação da Ufopa.

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