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Cultura Religiosidade

Sincretismo nas expressões afro religiosas: entenda o fenômeno

A forte presença do sincretismo religioso no Brasil está ligada à colonização e à formação do povo brasileiro.

23/10/2021 14h44
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Sincretismo nas expressões afro religiosas: entenda o fenômeno

A palavra “sincretismo”, em termos filosóficos, refere-se a uma combinação dos princípios de diversos sistemas. Sociologicamente falando, trata-se da fusão de dois ou mais elementos culturais ou de doutrinas – filosóficas ou religiosas – diferentes, embora permaneçam alguns sinais de suas reais origens. Na esfera das religiões, o sincretismo representa a fusão de concepções religiosas diferentes, ou a influência exercida por uma religião sobre as práticas de outra, que leva a uma forma religiosa comum ou totalmente nova.

O sincretismo religioso ocorre naturalmente no processo histórico, sendo resultado do contato entre sociedades diversas que possuem religiões próprias. No Brasil, a motivação para a relação entre povos distintos foi o processo de colonização e a consequente dominação de um sobre o outro – do europeu sobre os indígenas e africanos, mais especificamente. Com isso, o país se tornou um dos exemplos mais complexos e clássicos de sincretismo.

O sincretismo e as religiões afro no Brasil

O debate teórico sobre o sincretismo religioso no Brasil é antigo e muito amplo, abrangendo muitas vertentes. Por esse motivo, é muito comum que as pessoas tenham suas próprias teses e explicações a respeito do assunto e de sua manifestação na vida cotidiana. 

 

A antropóloga Carla Ramos concedeu entrevista ao Tapajós de Fato, falando sobre o fenômeno do sincretismo, em relação às religiões de matriz africana: “quando a gente fala em sincretismo religioso no país... pensando essas tradições de matriz afro-brasileira, essa ideia do sincretismo foi uma tese que serviu para explicar muito do que se viu, do ponto de vista do pesquisador e da pesquisadora, que acontecia nos terreiros de candomblé, nos terreiros de umbanda, nas tradições da mina, nas tradições afro religiosas na sua amplitude no Brasil. Então, especificamente, um tema que chama muita atenção dos pesquisadores e pesquisadoras foi a presença desse catolicismo, ou de elementos de um catolicismo, dentro desse universo afro religioso, a presença dos santos e a devoção aos santos da Igreja Católica e como que essas comunidades afro religiosas, digamos assim, comunidades tradicionais de terreiro, ao longo dos séculos, elaborou explicações, elaborou reflexões e elaborou aproximações em relação a esse universo de um catolicismo “popular”. Do ponto de vista de algumas tradições afro religiosas, essa presença desse catolicismo sempre foi algo muito comum, muito usual, muito “natural”. Então, por exemplo, no Rio de Janeiro, São Jorge é sincretizado como Ogun, mas na Bahia, São Jorge é Oxóssi... têm aproximações e leituras próximas que se faz a respeito dos santos e dos orixás. Há muitas pessoas de religiões afro-brasileiras que são devotas dos santos católicos e também são católicas praticantes, de modo que essas coisas não se misturam, não se sincretizam. Há intelectuais dentro dos terreiros, né, as mães de santo, pais de santo, os mais velhos que vão dizer que não, não tem nada a ver Oxóssi com São Jorge, Oxóssi com São Sebastião, enfim... que essas histórias são histórias que se contam para fora, mas que para dentro das comunidades tradicionais de terreiro as coisas são bem separadas e bem localizadas. Há sempre aquela história, uma história muito comum, muito corrente, que diz que no tempo do processo escravocrata no Brasil, negros e negras que foram compulsoriamente traficados para as Américas, numa maneira de seguir cultuando as suas divindades... uma possibilidade de fazer isso era fingir, fazer de conta que estava ali adorando um santo católico, mas na verdade, estava adorando uma divindade de seu povo, de sua família, de sua comunidade”. 

 

Paulo Araújo, conhecido como Obelejú Pejigan no templo Ilê Asè Otô Sindoyá, tem 13 anos de iniciado dentro do culto do candomblé, e também falou ao Tapajós de Fato como enxerga o sincretismo dentro de sua religião: “o sincretismo religioso surgiu na época da escravidão, então... não foi nada mais nada menos que um subterfúgio para que nossos ancestrais, na condição de escravo no Brasil, pudessem cultuar o que eles acreditavam, que eram os orixás... inclusive, a palavra candomblé é uma palavra de origem europeia, que quer dizer ‘reunião de negros’. Por isso que hoje deu-se esse nome do culto aos orixás de candomblé no Brasil. Então, eles começaram a fazer comparação, se reuniam para cantar, para dançar, e os senhores de engenho, senhores de escravos não sabiam o que estavam cantando, porque eles cantavam na língua nativa... e então foi que eles começaram, por exemplo, eles faziam um altar de santo, que hoje é conhecido como congá, só que embaixo, eles colocavam as pedras, assentamento, da forma que eram assentados os orixás na África. Eu acho que o sincretismo virou algo cultural, então... se deu certo lá no passado, por que não dar certo agora, no presente?”.

 

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