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Reportagem Especial Da Luta não Fujo

Da Luta não Fujo: Ariane Lobato, vice-presidenta da Fetagri-PA, narra sua caminhada na luta

“Nós, que moramos na comunidade, a gente sabe a nossa realidade, a gente conhece os inúmeros problemas que a gente enfrenta”.

27/10/2021 20h05
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: Ariane Lobato, vice-presidenta da Fetagri-PA, narra sua caminhada na luta

Vice-presidenta da Fetagri-PA, delegada do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Óbidos, filiada ao Partido dos Trabalhadores (PA) de Óbidos, pelo qual já foi candidata a vereadora, jovem agricultora e mãe. Esta é Ariane Lobato dos Santos, de 22 anos, que concedeu entrevista ao Tapajós de Fato para contar sua história de vida pessoal e na luta.

 

Meus primeiros passos

 

Ariane Lobato, que hoje ocupa a vice-presidência da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Pará (Fetagri-PA), tem apenas 22 anos de idade, mas já acompanha a luta desde cedo, tendo sua mãe como inspiração. Com isso, entrou na luta aos 17 anos, conforme conta: “eu comecei a acompanhar a mamãe... ela disse ‘olha, como tu já tem 17 anos, tu já pode se associar no sindicato’ lá de Óbidos, né... aí eu me associei”.

 

Por ser delegada sindical, sua mãe foi indicada pelo vice-presidente do STTR de Óbidos para concorrer à presidência da Fetagri. Naquele momento, Ariane ocupou a delegacia sindical, “sem saber, na verdade, o quê que era, o quê que fazia. Eu comecei a conhecer depois que comecei a participar das reuniões do sindicato”, ela relata.

 

A partir disso, Ariane fez o curso da Escola Nacional de Formação (ENFOC) da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG). Esse curso foi realizado em 4 módulos e direcionado às mulheres, somente, buscando seu empoderamento e o conhecimento do movimento. “Isso me fortaleceu mais, que eu tive mais interesse pra querer estar junto, estar dentro do movimento”, diz Ariane.

 

Depois de ter realizado esse curso de formação, Ariane viu que a mãe já estava cansada do intenso trabalho na Fetagri, que a obrigava, inclusive, a viajar bastante pelos municípios da região. Assim, ela, ainda jovem, candidatou-se a vereadora, com muito apoio de sua família, embora não tenha tido votos suficientes para se eleger, devido a ter acontecido tudo “em cima da hora, e lá, o PT não é tão fortalecido”. Porém, o vice-presidente do STTR de Óbidos, Célio Moreira, já havia proposto a ela que, perdendo ou ganhando, trabalhariam juntos para que ela assumisse a Fetagri – e a proposta foi cumprida.

 

Ariane explica que a Fetagri-PA, da qual é vice-presidenta, é uma entidade que representa todos os sindicatos da mesorregião do Baixo Amazonas e seus sócios. Seu dia a dia no exercício desse cargo é repleto de responsabilidades: “no dia a dia, nós... cuidamos da casa. Assim, como vice coordenadora, eu procuro cuidar da área financeira... e é uma coisa que eu já atuei... na tesouraria da igreja, então isso não é muito difícil, eu consigo manejar”. Além disso, ela também coordena grupos de mulheres e de jovens ligados à Federação para trabalhar seu fortalecimento.

 

Ela explica também que a sede da Fetagri funciona no Centro de Estudos, Pesquisas e Formação dos Trabalhadores do Baixo-Amazonas (CEFT-BAM), aonde “as pessoas vêm de todos os lugares, de todas as cidades, pra fazer até tratamento de saúde, resolver problemas com questões de terra”.

 

Minha caminhada de todos os dias

 

Ariane falou também, em sua entrevista, sobre como foi crescer na comunidade São Sebastião, na área rural de Óbidos. Quando foi perguntado se ela já cresceu trabalhando com os pais, sua resposta foi: “até hoje eu gosto de mexer no forno de farinha... porque nós crescemos assim, minha família lá, nós produzimos mesmo a farinha e nós vendemos”.

 

Sobre seus pais, Ariane conta que são agricultores até hoje, e sua mãe “foi feirante, vendeu muitos produtos na feira... a minha mãe, assim, o meu pai, sempre foram pais exemplares, eles sempre nos levaram pra trabalhar, eles queriam ensinar pra gente assim... como eles trabalham e como eles querem que nós também sejamos trabalhadores. Isso foi um incentivo muito grande porque também eles sempre nos ensinaram que a gente tem que estudar, tem que ser alguém melhor na vida também”.

 

Dentre as memórias da infância, ela conta: “lá a gente trepa no açaizeiro, lá a gente faz farinha, e eu sempre gostei muito... a gente se reunia, lá é tudo parente. [Brincava] muito, da famosa macaca, pulando de corda, sempre aquelas brincadeiras... no nosso tempo, o carrinho era aquele feito de madeira que nós ia lá, empurrando”.

 

Ao lembrar desses momentos, Ariane afirma que ainda hoje não tem vontade de sair do local onde cresceu: “mesmo no campo, lá, eu nunca tive vontade de ir pra cidade grande. Eu lembro que uma vez uma professora disse ‘é, tem muitos alunos que querem sair do campo e ir pra cidade grande, andar de busão, comer marmita’, né, e muitas vezes passar mal, porque uma pessoa que vai do campo pra cidade grande... serve como risada pra muita gente, né, porque as pessoas saem do campo não conhecendo muita coisa”.

 

Meus jovens sonhos

 

Atualmente, Ariane está em Santarém a trabalho, enquanto o presidente da Fetagri está afastado devido a um tratamento de saúde, mas ainda reside, oficialmente, em Óbidos. Ela é casada há 1 ano, com alguém que conheceu em sua comunidade, ainda na infância, e tem um filho de 7 meses que, segundo ela, também será introduzido na luta. Seus pais também moram na área rural de Óbidos, onde exercem a função de agricultores familiares.

 

Além de cursar o ensino superior, Ariane sonha em trazer as irmãs e o marido para a luta. Ela também afirma: “eu como uma mulher, como uma jovem, agricultora também, eu quero... fazer muitos trabalhos com formação pra juventude, com formação pras mulheres, abrir a Secretaria da Juventude, que eu sei que muitas cidades, muitos sindicatos não têm. Somente tá o nome aqui, mas a pessoa não tá cumprindo, não tá atuando... e o meu maior sonho também é ingressar numa faculdade”.

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