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Reportagem Especial Dia dos Finados

O outro lado da vida: como diferentes religiões entendem a morte?

Pessoas de diferentes crenças acreditam na continuidade da vida, que a morte não é o fim, mas apenas uma passagem.

02/11/2021 13h15
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
O outro lado da vida: como diferentes religiões entendem a morte?

A morte para o Espiritismo

Para a doutrina espírita, a morte (desencarne) acontece quando os órgãos deixam de funcionar. Com isso, há a decomposição da matéria, que forma novos organismos; o princípio ou fluido vital (elemento como o oxigênio ou o hidrogênio) retorna ao universo. Quando esse princípio se torna impotente para transmitir o movimento da vida, o ser morre. A quantidade desse fluido não é absoluta em todos os seres orgânicos: varia segundo as espécies, e não é constante. Alguns seres encontram-se cheios desse fluido, enquanto outros o possuem em quantidade apenas suficiente. Por isso, alguns seres apresentam vida mais ativa que outros. A quantidade de fluido vital pode tornar-se insuficiente para a conservação da vida, se não for renovada pela absorção das substâncias que o contêm. O fluido vital se transmite de um indivíduo a outro. Aquele que tiver mais dele pode dá-lo a um que o tenha de menos e em certos casos, prolongar a vida prestes a extinguir-se. O princípio vital é como um combustível para o nosso corpo. Se forem respeitadas as Leis divinas e os limites do corpo, a vida física seguirá seu curso normal. Do contrário, o corpo físico sofrerá desgaste e, embora com bastante princípio vital, não terá condições de seguir a vida física. Quando o desencarne acontece com grande quantidade de princípio vital, o espírito pode passar por um estado de perturbação mais acentuado do que se estivesse com pouco fluido vital.

 

Marlúcia Oliveira Duarte é espírita, frequentadora da Casa Espírita Cristã Amor Solidário (CECAS), e teve a mãe desencarnada há 4 meses, aos 85 anos de idade. Ela falou ao Tapajós de Fato sobre a relação da pessoa espírita com a morte e sobre como a doutrina enxerga o Dia de Finados: "Nós sabemos que a morte não existe. Só existe vida. Quanto à questão da perda e da dor, não tem uma religião. A dor é a mesma, a gente sente a ausência do nosso ente querido, dói, mas não é algo desesperador, a gente não tem aquela visão 'ah, nunca mais, agora acabou, morreu, acabou pra sempre', não. A gente tem a visão de que... houve a perda, mas é algo como se o nosso ente querido viajasse, pegasse o avião primeiro que a gente, e nós iremos depois, e vai haver um encontro... eles perdem o corpo físico, mas eles levam todas as referências que tinha quando estava vivo. O Dia de Finados, pra gente, não existe… 'finado' quer dizer fim, e pra nós não existe fim. Pra nós o que existe é uma interrupção do corpo físico, e a pessoa retorna à verdadeira pátria, que é a espiritual, e nós todos somos espíritos, quando deixamos o corpo. Quando nós estamos no corpo, nós somos alma, então o corpo morre, mas a alma, ela vive pra sempre, como espíritos eternos. Então por isso que o Dia de Finados não é aquela lembrança que finaliza tudo, porque pra nós não é assim, pra nós é o início de uma vida verdadeira, que é a vida espiritual. A vida na Terra, ela é momentânea, ela é um momento passageiro... então, a visão da perda é a mesma pra todo mundo, nós sentimos a dor, nós sentimos a ausência, o que a gente não sente é o desespero... a nossa visão, ela é consoladora". 

 

A morte para o Candomblé

Para o Candomblé, morrer é passar para outra dimensão e permanecer com os outros espíritos, orixás e guias. Trabalha com a força da natureza existente entre o mundo material (Àiyé) e o céu (Órun). No Candomblé, a morte não significa a extinção total. 

Mãe Josyane Lopes Corrêa Frota, Yá Jinonã do Ilê Dará Asè Oyá Onira conta que ” morrer é uma mudança de estado, de existência, porque ela faz ela faz parte de um ciclo então ela tem começo meio fim”

 

Os rituais de morte do Candomblé superam os rituais modernos em tempo e significado. São longos e sofisticados e buscam, além de dar caminho ao espírito do morto, trazer ensinamentos àqueles que ficam na Terra. 

 

O sirrum, que é o caminhar e recuar na estrada da vida até o encontro final com a morte; a quebra dos pertences do morto para não só desligá-lo das coisas deste mundo, mas também mostrar aos outros essa ruptura; o ritual do axexê, a morte compartilhada, revisitada por sete dias consecutivos, buscando reordenar as relações sociais dentro da comunidade; a refeição coletiva, o mais velho cedendo lugar ao mais novo, na ininterrupta renovação da vida.

 

Mãe Josyane completa dizendo que “a morte para nós é só uma passagem, tanto é que a gente cultua até hoje os antepassados. O  dia de hoje é um dia especial, porque, segundo os espíritas, os mortos têm permissão de vir à terra e fazer visita e nós fazermos as obrigações  para nossos antepassados queridos que aqui já estiveram com a gente”.

 

A morte para os evangélicos

Os evangélicos não têm o costume de comemorar o dia de finados, porque acreditam que a morte não é o fim, e sim o início de uma nova vida com Cristo. A Bíblia fala que antes de Jesus subir aos céus, ele fez uma promessa em João 14: 2 e 3. Ele disse: “Na casa de meu pai há muitas moradas… pois vou preparar o lugar. E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim”. 

 

A Bíblia é tida para os evangélicos como o manual de fé e prática, escrita por homens, mas inspirada por Deus, ou seja, por mais que tenha sido escrita por seres humanos, nela está toda a verdade revelada por Deus e que não há um erro sequer, pois o próprio Deus não erra. E por mais que a vida na terra seja uma vida de tentações e provações, seguindo os caminhos de Deus, uma vida no céu estará sendo construída com o que aqui for plantado. Porém o único modo de alcançar a vida eterna é crendo verdadeiramente que Deus é o senhor da sua vida, pois a salvação vem da misericórdia de Deus e não de obras, para que ninguém se vanglorie.

 

Conceição Siqueira, evangélica da igreja Batista, fala que “apesar da morte ser uma separação, para quem crê nesta promessa há esperança de viver uma vida com Cristo, mas para isso é necessário que a pessoa receba Jesus como seu único e suficiente salvador, em Romanos 10: 9 e 10 afirma que “Se com a tua boca, confessares Jesus Cristo como Senhor e em seu coração creres que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo. Porque como coração se crê para a justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação.” Portanto apesar do luto acreditamos que reencontraremos nossos entes queridos que partiram em Cristo Jesus”

 

A morte para os Indígenas 

Para os indígenas, a morte significa uma passagem. Nato Tupinambá, pajé do povo Tupinambá do Baixo Tapajós  conta que, “nessa passagem você vai para um local sagrado, um reino sagrado,  que é as encantarias. As forças sagradas são os espíritos dos nossos ancestrais”. Nato diz que a crença dos povos indígenas pelos encantados é muito forte. Eles acreditam que quando algum parente indígena morre  ele também se torna um espírito sagrado da floresta, um espírito sagrado das águas, um espírito sagrado de um território.

 

“A Morte representa essa força sagrada que vai nos ajudar, ajudar  os vivos que estão aqui. Porque para nós, o ciclo da vida não termina,  você vai fazer a passagem, mas fica vivo através do espíritos sagrados, das encantarias, sempre ajudando  e protegendo o povo  e o território” disse o pajé.

 

Raquel Tupinambá, da Aldeia Surucuá, do Povo Tupinambá, fala que “quando a gente perde uma pessoa do nosso seio familiar a gente fica vulnerável,  eu acredito que a gente entra em certo perigo com essa perda. Quando uma família perde uma pessoa  essa família fica precisando do apoio das outras famílias da aldeia. É comum que essa família mude para casa de um outro e fique lá por um período, até que o espírito da pessoa que morreu não esteja mais vagando por ali”, disse Raquel.

Outra característica da cultura indígena  é a família oferecer comida para quem vai ao velório: “não é só um momento de tristeza, é também um momento de estar juntos e compartilhar os sentimentos com as outras pessoas”.

A influência da Igreja Católica “Sobre o  dia dos finados, a forma como a gente percebe tá muito ligado à questão da igreja, a igreja foi muito forte na região. Nesse dia a  gente acredita os espíritos podem estar muito presente nossos espaços,  então a gente pode se encontrar com eles, vivenciar  algumas coisas, E eu lembro de quando eu era criança que  isso era um momento também de muito medo,  medo  de estar sozinho, então acho que talvez isso  lembra um pouco do momento  quando a pessoa morre que a gente não pode ficar sozinho para não ficar vulnerável”, finalizou a indígena do povo Tupinambá.

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