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Cultura Opinião

Três importantes músicos paraenses do século XX.

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02/11/2021 14h57 Atualizada há 4 semanas
Por: Esaú Brilhante do Nascimento
Três importantes músicos paraenses do século XX.

Por Esaú Brilhante do Nascimento ,

Jaime Ovalle, nasceu em Belém, 1894. Foi compositor, grande conhecedor da música popular, tocava piano e violão em choros e serestas. No início da década de 1910, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Frequentava os bairros cariocas da Lapa, Glória, onde se encontrava com amigos nos cafés Lamas, Central ou Suísso, redutos de intelectuais e jornalistas. Era também conhecido como Canhoto, pela forma de tocar violão. Seu estilo era muito elogiado por Sinhô e Pixinguinha. Pertence à 2a geração de compositores nacionalistas. Além de compositor, Ovalle também escreveu poesia e era amigo de Manuel Bandeira, que ao tratar da composição do amigo diz que ele teria a imortalidade garantida como autor da canção azulão , e que essa obra representa na música brasileira o que representa a na poesia a canção do Exilio.

Gentil Puget, nasceu em Belé,1912. Participou e organizou vários programas na Rádio Clube do Pará, com destaque para o Yrapuru, na segunda metade da década de 30 e, o programa Vozes e Ritmos do Brasil, organizado no ano de 1939, época em que divide a atenção do público com os famosos e disputados programas de auditório da emissora. Em ambos os programas, se tinha uma proposta musical folclórica e popular. Os conjuntos musicais com repertório de música popular continuavam tocando e tendo espaço na programação radiofônica. Isso significava dizer que o compositor estava atrelado aos ideais de composição modernistas, o papel do artista autor era o de criar esteticamente sobre os temas do povo. Gentil Puget foi galgando nos anos 1930 uma posição de prestígio nacional como representante da “folk-lore” amazônico. A imprensa nacional, e em especial a carioca, realizou uma cobertura da sua trajetória como divulgador do folclore musical do Norte.

Gentil Puget foi entrevistado pelo periódico O carioca em 1939. Entre outras coisas levantadas, estava a caracterização de sua obra como um tipo “meio caboclo”. Ao mesmo tempo, o colunista Custódio Mesquita elogiou o trabalho de estilização do artista, pois após ouvir a execução de “Boi-bumbá” de Puget afirmou: “desfila em minha imaginação o festejo do ‘boi-bumbá’ (...) que Gentil Puget com tanto gosto e tanta verdade estilizou”. Em outra matéria da revista O carioca (1941), o compositor paraense afirmou que a sua compreensão acerca da musicalidade de origem negra derivou de suas viagens e experiências diretas com os espaços de práticas dessas lúdicas tradicionais. Segundo ele: “Viajei. Frequentei ‘terreiros’ de macumba, observei os usos e costumes, dos Estados brasileiros, afim de reunir um material sólido, para as minhas novas composições”.

Waldemar Henrique, nasceu em Belém, 1905. Foi pianista e compositor. Waldemar Henrique surgiu ao grande público em parceria com a cantora Mara (sua irmã). O maestro a acompanhava ao piano tendo suas composições interpretadas por ela na “Rádio Sociedade”, situada no Rio de Janeiro. No início da década de 1930 tornou-se pianista e diretor artístico da Rádio Clube do Pará e escreve para companhias de teatro de revista em Belém. Em 1934, já no Rio de Janeiro Gastão Formenti registra pela gravadora Victor algumas das canções de Henrique, como as toadas amazônicas Cabocla Malvada e Foi Boto Sinhá!, a valsa Meu Último Luar e o batuque amazônico Tem Pena da Nega; e Alda Verona grava Meu Amor Exaltação. Rapidamente suas canções alcançam sucesso nas rádios, possibilitando grande visibilidade. Depois do fim da segunda guerra vai trabalhar no Itamaraty para excursionar pela França, Espanha e Portugal, em 1949, com o objetivo de divulgar a música brasileira. Em 1958 apresenta sua versão musical de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e é eleito para a Academia de Música do Rio de Janeiro. Em 1981 é eleito para a Academia Brasileira de Música.

A música de Waldemar Henrique possui um interesse permanente e a forte influência da cultura e da música regional no conjunto de sua obra. Os gêneros e temas, ambientações e timbres amazônicos estão fortemente presentes em seus trabalhos, como Foi o Boto Sinhá (1933) - o boto que à noite se transfigura em homem para seduzir as jovens -, Cobra Grande (1934) - uma vez por ano a cobra sai de seus domínios para escolher sua noiva entre as moças virgens -, Tamba-Tajá (1934) - oração à planta sagrada para evocar o amor de um índio a sua amada -, Matinta Perêra (1933) - pássaro com canto agourento que se transforma em bruxa às sextas-feiras -, Uirapuru (1934) - pássaro de belo canto que extasia e aproxima os amores -, e Curupira (1936) - o conhecido personagem brincalhão que protege animais dos caçadores.

Para Waldemar Henrique a música popular do Pará era feita nos espaços boêmios, nas modinhas, e o predomínio desse tipo de manifestação para ele se concentrava na música de “boi-bumbá” e no “bumbá dos pássaros”. Segundo Vicente Salles a obra de Waldemar Henrique foi “a primeira manifestação de forte cunho regional nortista que se impôs no Rio de Janeiro, na era getulista, cheia de apelos populistas e o desbragado regionalismo”

 

Fonte principal: DA SILVA, EDILSON MATEUS COSTA. Waldemar Henrique e Gentil Puget: -Folk-lore- amazônico e modernismo musical. Brasiliana: Journal for Bazilian Studies, v. 9, p. 476-495, 2020.

 

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