Quinta, 02 de Dezembro de 2021 01:52
093991489267
Reportagem Especial Da Luta não Fujo

Da Luta não Fujo: Carlos Jaime, liderança da luta social e pastoral santarena, fala sobre sua vida e trajetória de resistência

“A Pastoral da Juventude me levou a perceber que tinha que ter essa relação da fé com a vida, acreditar num Deus que é vida, e colocar isso em prática no dia a dia, no serviço aos irmãos”.

03/11/2021 11h05 Atualizada há 4 semanas
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: Carlos Jaime, liderança da luta social e pastoral santarena, fala sobre sua vida e trajetória de resistência

Ex-vereador de Santarém, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), ex-presidente da Associação de Moradores do bairro Uruará, ex-vice-presidente da Federação das Associações de Moradores e Organizações Comunitárias de Santarém (FAMCOS), membro de formação da Pastoral da Juventude (PJ) e agente de pastoral. Este é Carlos Jaime da Cunha Mendes, de 50 anos, que, cheio de bom humor, concedeu entrevista ao Tapajós de Fato para mais uma edição da série Da Luta não Fujo.

 

Da Pastoral para a vida

 

Carlos Jaime iniciou sua jornada na luta social ainda muito cedo. Natural da comunidade Patos do Ituqui, em Santarém, ele conta que a infância humilde foi responsável por um despertar precoce de sua necessidade de lutar por direitos: “eu vim pra cidade com 8 anos de idade, com o objetivo de estudar, já que no interior não tinha essa oportunidade. Então meus pais pediram pra gente vir pra cidade, e assim, desde pequeno, desde criança, a gente já tinha esse desejo de ter a responsabilidade do próprio sustento, então nesse período, eu fui ocupar vários serviços. Talvez isso também me despertou um pouco a responsabilidade, olhando sempre a necessidade do outro, porque meus pais vêm de origem pobre, né, eram agricultores, e eu sabia o quanto a gente sofria com ausência de políticas públicas”.

 

O próximo episódio marcante na trajetória de Carlos Jaime nos movimentos populares foi seu envolvimento com a Igreja, que o levou a um posto de liderança na Pastoral da Juventude (PJ): “isso foi a partir de 1987, quando eu fiz o sacramento da crisma na comunidade São José Operário... então paróquia Cristo Libertador, e a partir daí, então, no ano de 1988, eu já comecei então a participar do grupo de jovens, e a partir de lá então, o grupo de jovens me levou a participar de uma organização em nível de paróquia... a convite de frei Gregório Joeright, que me fez o convite pra eu ser agente de pastoral na paróquia Cristo Libertador, e uma das atribuições minhas, que ele pediu pra eu assumir, seria esse acompanhamento aos jovens”.

 

Assim, Carlos passou a ser representante da paróquia dentro da Pastoral da Juventude. A coordenação da Pastoral foi mudando, mas ele continuou atuando na equipe, até que ele mesmo assumir a coordenação da PJ, durante 10 anos, de 1994 até 2004. Ele fala da importância desse momento dentro da Pastoral: “a Pastoral da Juventude pra mim foi uma escola onde eu aprendi muitas coisas... porque num primeiro momento, a minha visão era ligada mais ao eclesial, né, a algo muito mais interno da vida da Igreja... então a Pastoral da Juventude, nesse sentido, foi uma escola pra mim, que me levou a ter esse engajamento social, até porque a gente discutia muitos temas ligados ao protagonismo juvenil, à vida em primeiro lugar... e isso então, talvez, que me despertou pra essa inserção no movimento social”.

 

Carlos Jaime também foi questionado sobre o exercício de uma carreira fora dos movimentos sociais e revelou: “eu sou formado em Magistério, habilitado pra dar aula, só que isso eu nunca exerci, porque na época que eu estava concluindo o Magistério no colégio Álvaro Adolfo da Silveira, eu fui convidado exatamente pra entrar na paróquia como agente de pastoral, então hoje, a minha profissão é agente de pastoral. Eu não segui a carreira do Magistério, mas acabei de uma certa forma fazendo esse trabalho porque eu participei de muitos cursos de formação, seja na área pastoral, teológica, bíblica, e até mesmo nessa questão da doutrina social da Igreja também, né, e isso me ajudou muito a ter essa militância, talvez, que também ajudou muito a trilhar novos horizontes... de corpo e alma, é esse serviço que eu gosto muito de fazer, que é como agente de pastoral na paróquia Cristo Libertador”.

 

Assim, hoje, Carlos assume também, dentro da arquidiocese, um trabalho ligado às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), no secretariado, para um trabalho de acompanhamento em toda a arquidiocese, nas várias paróquias, e também na Pastoral do Dízimo.

 

Política a serviço do povo

 

Além do trabalho com a juventude dentro da Igreja, Carlos Jaime ocupou importantes lugares de luta política em favor do povo: foi presidente da associação de moradores do bairro Uruará por 3 anos aqui e vice-presidente da Federação das Associações de Moradores e Organizações Comunitárias de Santarém (FAMCOS) e membro do Conselho Municipal de Saúde. Dessas experiências, ele se recorda assim: “a FAMCOS foi um espaço muito importante, porque travamos muitas lutas importantes com relação à questão da infraestrutura, à questão do abastecimento de água na nossa cidade, à questão da saúde, da educação, da moradia... e também a FAMCOS foi um outro espaço onde foi me ajudando a entender muito mais como é que se dá essa luta de classe, onde você vê... quem é que de fato se coloca do lado mesmo dos pequenos, e isso foi abrindo assim também a minha mente para perceber que aqueles que muitas vezes estão no poder e que usam o poder pra se beneficiar, em detrimento do povo, que fica muitas vezes dependendo dessas políticas públicas que não são efetivadas”.

 

Após desempenhar esses papéis, o nome de Carlos Jaime foi indicado para representar a população como vereador na Câmara Municipal. Segundo ele, foi seu engajamento no movimento social que fez com que as lideranças o escolhessem, em uma discussão coletiva, para o cargo político. A experiência, em sua visão, foi positiva: “a experiência foi muito boa, não é, não me arrependo, porque foi mais um espaço onde também eu pude aprender como é que se dá também essas questões com relação ao jogo de interesses... na época, eu fazia parte de um governo que era ligado ao meu partido, mas nem por isso eu me submeti a certas situações. Pelo contrário, eu me posicionei diante de certas situações que eu não concordava, porque eu não ia representar basicamente os anseios somente do partido, mas também de quem me colocou lá, no caso, a população”. Dentro do parlamento, Carlos fez parte também da Comissão de Constituição e Justiça, como relator, e atuou na criação do Conselho de Segurança Pública.

 

Pura e simples vida

 

Em sua entrevista ao Tapajós de Fato, Carlos Jaime também falou um pouco sobre sua vida pessoal, especialmente antes de seu envolvimento direto com a luta social: “com a vida para a cidade, então, comecei a estudar, não é, frequentei três escolas, na época de primeira a quarta série na escola Antônio Batista Belo de Carvalho, e depois, de quinta a oitava série, escola Plácido de Castro, e de primeiro ao terceiro ano, magistério na escola Álvaro Adolfo da Silveira”.

 

Desde então, porém, o movimento popular já chamava Carlos ao trabalho, motivo pelo qual ele assumia normalmente a função de presidente de turma e participou do Grêmio Estudantil do Colégio Álvaro Adolfo: “a gente reivindicava a meia passagem... nós participamos, na época, a Câmara de Vereadores era ali onde hoje é o teatro Victoria, hoje cedido ao Ministério Público, então lá que nós acampamos para reivindicar a questão da meia passagem... também fiz parte da associação de estudantes de Santarém”, conta ele.

 

Carlos faz parte de uma família de 10 irmãos – 4 homens e 6 mulheres. Seus pais eram catequistas, mas, segundo ele, a mãe, principalmente, era muito engajada na vida da comunidade: “ela sempre levava a gente, assim, no dia de domingo para as celebrações, não é, e... tinha um momento da Festa da Padroeira, que lá era Santa Maria, eu via muito o esforço dela na comunidade. Tinha os puxiruns, que o povo limpava a estrada, era tudo limpinho, assim, era muito organizada a comunidade, tanto que era uma referência ali dentro da região do Ituqui”.

 

Seus momentos de lazer na infância, ele lembra, eram voltados ao futebol e aos banhos de rio, mesmo às escondidas dos pais: “também tinha o nosso momento de lazer lá, jogo de futebol, né que a gente participava, tinha um campo lá, a gente ia domingo à tarde jogar bola... a nossa comunidade, ela entra aí no rio Maicá, então tinha um trapiche que dava acesso a esse porto onde os barcos ficavam pra buscar os moradores de lá, e a gente, quando a gente ia lá levar alguma encomenda no barco, aí a gente aproveitava pra tomar um banho, porque nossos pais não deixavam a gente tomar banho lá, que era muito perigoso, eles tinham medo da gente se afogar... eu lembro das noites abrindo palha, não é, aí ficava conversando, contando história, embaixo dos muricizeiros, depois tinha um vizinho que tinha um som, naquela época a gente chamava eletrola, ou algo parecido, então a gente ia pra lá ouvir música, fazer seresta com eles, cantar, fazer aqueles pequenos shows. Talvez daí que eu adquiri isso... que eu tenho muita facilidade também pra essa comunicação com o público, apresentar algum evento, por vários anos aqui em Santarém, fui à frente do Grito dos Excluídos”.

 

Os sonhos não morrem nunca

 

Atualmente, Carlos Jaime é solteiro e não tem filhos. Apenas seu pai é vivo; sua mãe é falecida há 22 anos. Ele continua atuando como agente pastoral, um trabalho cujo funcionamento ele explica: “é um papel de acompanhamento às comunidades, de assessoria, não é, de alguma formação... aos catequistas, ao próprio jovem, né, a todas as áreas que tem dentro da catequese também”.

 

Quando questionado sobre sua intenção de permanecer na luta social por mais tempo, Carlos afirma: “aqui no bairro, a gente tem contribuído muito, não é, mas chega um período também que você já começa a perceber que é importante dar espaço para outras lideranças. Então eu tenho muito isso claro, tanto no movimento social, como na Igreja... eu fico muito contente que hoje eu já vejo muitas pessoas que tive uma parcela de contribuição na formação, que hoje já estão atuando em vários campos, nas CEBs, nos movimentos sociais, na própria Pastoral da Juventude. Isso é o resultado de todo esse acúmulo de experiência, né, que a gente foi passando para essas pessoas, então eu penso que, claro, aos poucos, a gente pode ficar nessa função de retaguarda, né, dos bastidores, e possibilitar com que outras lideranças possam surgir... a gente vai ficar sempre ajudando, orientando, né... você tem que estar sempre ajudando as pessoas que estão vindo para somar, e aí eu aposto muito nessa questão com relação a novas lideranças”.

 

Sobre seus sonhos para a cidade de Santarém, que Carlos tanto ama, ele diz: “eu sonho com uma cidade que tenha um saneamento básico... infelizmente, os esgotos são jogados no rio, e no rio é que é a nossa vida... então eu sonho com uma cidade que de fato valorize isso que nós temos, as matas, os rios, as florestas. Santarém é uma cidade é muito propícia para esse turismo ecológico, enfim, infelizmente eu acho que os governantes ainda não perceberam [isso]... então, eu sonho com uma cidade onde tenha responsabilidade social, onde os governantes possam de fato olhar essa questão do meio ambiente, que eu penso que isso aqui para nós, a nossa região, nosso município, é muito notável... essa questão ambiental é muito séria, e aqui está também a sobrevivência dos povos nativos, não é, dos indígenas, dos quilombolas... eu sonho com... uma cidade inclusiva, uma cidade participativa, onde todos possam de fato viver como cidadão, porque nós pagamos nossos impostos e serviços essenciais da infraestrutura, do abastecimento de água, da saúde, da qualidade de vida, da saúde, da educação para todos, então eu sonho com a nossa cidade próspera”.

Acesse as redes sociais do Tapajós de Fato: FacebookInstagram e Twitter.

 Acesse ainda o Podcast Tapajós de Fato

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.