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Reportagem Especial Da Luta não Fujo

Da Luta não Fujo: Heloise Rocha, liderança política da região Oeste do Pará, fala sobre seu envolvimento na luta social

“Eu senti a necessidade de me juntar organicamente nos movimentos sociais”.

07/11/2021 10h12
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: Heloise Rocha, liderança política da região Oeste do Pará, fala sobre seu envolvimento na luta social

Da Luta não Fujo: Heloise Rocha, liderança política da região Oeste do Pará, fala sobre seu envolvimento na luta social

 

“Eu senti a necessidade de me juntar organicamente nos movimentos sociais”.

 

Heloise de Sousa Rocha foi a primeira mulher a presidir o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) de Santarém, entre 2017 e 2021, e atua no movimento sindical: faz parte da coordenação regional do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras em Educação Pública do Pará (Sintepp) – maior sindicato do Pará – e é coordenadora geral da subsede de Belterra, que está em processo de eleição. Além disso, ela atua também no movimento indígena, por meio do Grupo Consciência Indígena (GCI) e no movimento de mulheres, por meio do coletivo nacional Juntas, atrelado ao PSOL. Ela, que é formada em Pedagogia e que tem 33 anos, concedeu entrevista ao Tapajós de Fato para esta edição da série Da Luta não Fujo.

 

Me organizar é importante

 

Heloise Rocha começou a se envolver na luta social ainda cedo, na adolescência. Sua iniciação com sua participação no Grêmio Estudantil do Colégio Frei Ambrósio como suplente, ainda sem uma compreensão aprofundada sobre política.

 

Em 2008, Heloise participou do Projeto Pré-Vestibular Solidário (PPVS), cursinho organizado na antiga UFPA campus Santarém, “e lá me deparo com várias políticas, com várias discussões de questões de acesso também à universidade, do porquê da questão da existência do vestibular, e as questões de desigualdade, aonde a gente vai conhecendo teóricos que falam sobre essa questão social e política”, conta ela. 

 

Através do PPVS, Heloise se aproximou de professores filiados ao PSOL, e passou a conhecer o partido, com a leitura do estatuto, pela necessidade que sentiu de, segundo ela, “me organizar e, achando que era necessário estar junto a um coletivo, a um partido que eu iria conseguir melhorar a minha intervenção, tentar mudar o que tá aí hoje”.

 

Ela ressalta a importância do movimento estudantil em sua trajetória pessoal e profissional: "o movimento estudantil, eu acho que, para mim, foi a base total pra mim hoje conseguir me desenvolver bem dentro do movimento sindical, até mesmo de ter essa tarefa… [de] presidente do PSOL".

 

Me conhecer me levou à luta 

 

Outro processo fundamental para a atuação política que Heloise exerce hoje foi sua identificação com um grupo étnico. Ela relatou em sua entrevista do Tapajós de Fato que, em 2009, sua entrada na universidade se deu por meio de cotas destinadas a estudantes autodeclarados como negros. “Meu pai é um homem negro, minha família paterna toda é negra”, diz ela, que levou a cor da pele do pai em consideração nesse primeiro reconhecimento.

 

Ela continua, porém, falando sobre a investigação feita junto a sua mãe, para finalmente entender a si mesma enquanto indígena: “os meus traços, eles são mais indígenas, e não só pelo traço, mas também pelos costumes. A gente vem de uma família ribeirinha, de costumes indígenas, de tradições. Então eu fui conversando com a minha mãe, perguntando e questionando de onde tinha vindo a minha avó... bisavós, como seria essa árvore genealógica que muitas vezes a gente não conhece, e me aproximando do movimento indígena”.

 

Hoje, então, Heloise é uma colaboradora e auxiliar dentro do movimento indígena, em particular do Grupo Consciência Indígena (GCI), que já tem mais de 20 anos de existência no Baixo Tapajós. “Eu acho esse é o meu papel enquanto mulher indígena, mas que não tem um processo de aldeamento. Acho que o meu processo enquanto me identificar mulher indígena é colaborar, é dar suporte... então quando tem alguma atividade, eu me proponho a estar ajudando a coordenar, a estar ajudando no que for necessário”.

 

Sindicalismo e luta 

 

Heloise é pedagoga e está em sala de aula, do 1° ao 5° ano, há 6 anos, na zona rural de Belterra, zona da BR-163. Além disso, ela é coordenadora geral do Sintepp, subsede de Belterra, e coordenadora regional de Gênero e Sexualidade. Ela também concorre à coordenação estadual do sindicato. 

 

Dentro do sindicato, a coordenação geral, assumida por Heloise, é responsável por representar o sindicato de forma legal em negociações e organizar o para que as outras coordenações possam desenvolver suas atividades.

 

Na coordenação de Gênero e Sexualidade, do Sintepp regional Oeste do Pará, a  principal tarefa de Heloise é a busca pela igualdade de gênero dentro do próprio sindicato. "O Sintepp, ele é um sindicato com mais de 30 anos, mas infelizmente, a gente percebe ainda que [alguns] espaços para as mulheres… não são tão saudáveis… nosso principal papel é fazer a formação dessas mulheres que estão à frente das coordenações do sindicato... para que elas de fato consigam exercer de forma plena, de forma segura... então nossa principal tarefa é de demonstrar a importância da mulher na luta sindical".

 

Vida familiar também é base

 

A mãe de Heloise bem como sua família materna são naturais de  Santarém, região do Aritapera, Água Preta. Seu pai, por outro lado, era cearense e tinha ligação  forte com Belterra: "ele morava aqui, mas tinha residência em que ele ia finais de semana pra lá", conta Heloise.

 

Assim, ela mesma desenvolveu ligação com o município vizinho de Santarém desde pequena: "não é uma ligação que eu te diga 'eu Inglaterra, mas não, eu ia periodicamente a Belterra, quando meu pai me levava", conta ela, acrescentando que seu pai, já falecido, está enterrado em Belterra. Isso foi, também, o que a motivou a fazer o concurso para Belterra.

 

Embora seja de família ribeirinha, Heloise nasceu e cresceu na área urbana de Santarém - os pais passaram por um processo de êxodo rural, em busca de trabalho e estudos na cidade. Sua mãe veio morar com um tio na área do Mapiri-Liberdade, onde moraram até que, “já mais pra adolescência, a gente conseguiu de fato comprar um terreno, uma casa, e aí a gente foi morar já na área do Elcione Barbalho”, ela conta, acrescentando que também morou ali até antes de se casar.

 

Heloise passou por escolinhas particulares, que funcionavam em quintais de casas privadas, em sua educação infantil. Após isso, sempre estudou em escolas públicas: o ensino fundamental foi feito nas escolas Barão do Tapajós, Nossa Senhora de Fátima e Ezeriel Mônico de Matos. O ensino médio foi realizado nos colégios Álvaro Adolfo e Frei Ambrósio.

 

Heloise tem uma irmã mais velha, por parte de mãe, e 7 irmãos por parte de pai. Ela não conviveu com os irmãos, mas afirma: “hoje, a gente está num processo de retomada, de reaproximação familiar”. 

Minha luta e meus sonhos hoje

 

Atualmente, Heloise vive um casamento de 7 anos – idade de seu filho. Seu papel dentro do PSOL é fazer a ligação entre o partido e os movimentos sociais, na tentativa de incluir as pautas desses nas atividades do partido: “por exemplo, [n]essa luta com relação a colocarem concreto na praia de Ponta de Pedras, acho que a minha tarefa é estar em contato com as denúncias... e oferecer apoio, suporte”, diz ela.

 

Quando questionada sobre seus sonhos para Santarém, Heloise é direta: “que a gente tenha uma cidade pensada por nós e para nós, para que de fato a população seja ouvida. A gente tem uma gama de movimentos sociais que discutem, pensam a cidade... como a gente pode conviver com o meio ambiente que nos cerca... que a gente possa fazer parte dessa construção, em todos os âmbitos, de educação, de saúde, de assistência social. Eu acho que hoje, a gente tem uma política muito desumana. Eu acho que seria uma política mais humana, para que a população consiga de fato atingir o objetivo que seria o bem viver... eu acho que isso é totalmente possível... não é algo utópico, pelas discussões que a gente tem pelo movimento negro, pelo movimento de mulheres, pelas associações de bairro... esse é o meu sonho para Santarém”.

 

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