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Reportagem Especial Da Luta não Fujo

Da Luta não Fujo: Ricardo Aires, jovem liderança do PAE Lago Grande, conta sua história

“Em cada comunidade, eu acabo conhecendo uma liderança por causa desse movimento de ir ao encontro, aonde essas lideranças estão, e a gente vai construindo essas pontes”.

09/11/2021 18h12
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
Da Luta não Fujo: Ricardo Aires, jovem liderança do PAE Lago Grande, conta sua história

Primeiro secretário da Federação das Associações de Moradores e Comunidades do Assentamento Agroextrativista da Gleba Lago Grande (Feagle), membro do coletivo de jovens Guardiões do Bem Viver, do PAE Lago Grande, presidente da Associação de Moradores da Comunidade Membeca, associado ao Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém (STTR) e formado em Pedagogia. Esse é Ricardo dos Santos Aires, de 30 anos, personagem desta edição da série Da Luta não Fujo.

 

Amo o meu lugar

 

Nascido e residente na comunidade Membeca, território do PAE Lago Grande, Ricardo Aires vem de uma família de lideranças, motivo pelo qual ele mesmo já é uma liderança desde os 12 anos quando se envolveu na Igreja: “eu já era e continuo sendo liderança na minha comunidade desde os 12 anos, muito voltado ali naquele primeiro momento pro lado religioso, interno da comunidade”, conta ele. 

 

Hoje, ele já expandiu sua atuação dentro da própria Igreja e também para outros espaços: “para além da comunidade, no serviço pastoral, eu trabalho dentro de uma paróquia... mais tarde me envolvi muito com os movimentos, com a questão mesmo da associação local da comunidade, passei a acompanhar mais a Federação, um pouco mais de perto, e mais recente agora o sindicalismo”. 

 

Antes de seu envolvimento na luta, porém, Ricardo viveu muitas experiências no território onde vive, experiências essas que construíram nele o desejo de defender o lugar. Filho de agricultores, ele fala sobre como foi sua infância: “foi maravilhosa, assim, porque primeiro que... na vida no interior, no território, a gente tem muito espaço pra correr, pra brincar, pra pular, pra saltar, pra nadar, então desde cedo a gente já vive tudo isso né. Eu recordo de quando... lá na minha comunidade, antes, não tinha o abastecimento de água, então a gente pegava água tudo no rio... então a gente ia pra lá, e ficava um monte de criança ali... e saltava dos galhos das árvores dentro d’água... brincar de bola... bandeirinha, jogar futebol”.

 

Ricardo também viveu dificuldades em sua infância e adolescência, principalmente com relação aos estudos, de difícil acesso em sua comunidade: “na minha comunidade mesmo funcionava de primeira série à quarta série, antigamente... quando dava a quarta série, a gente ia pra outra comunidade, que é a comunidade do lado, Guajará, que é um polo maior, e a gente ia a remo... no período do inverno, e no período do verão, que as águas baixam... a gente ia por dentro do barro... chegava lá, tomava banho no porto, lá em Guajará, se arrumava e ia pra escola”. O ensino médio acessado pelo jovem foi modular e, segundo ele, ainda é assim, até hoje.

 

A terra e o trabalho

 

Uma coisa que Ricardo afirma ter aprendido desde muito cedo foi o trabalho: seus pais já o levavam, a partir de certa idade, para acompanhar na roça e cuidar da plantação. Sobre a produção de sua família, ele diz: “sempre plantamos mandioca, cana-de-açúcar, verdura”. Hoje, ele também é agricultor, mas seu maior envolvimento é com a luta, através das diversas associações de que faz parte. Tudo começou aos 16 anos, quando começou a frequentar a Associação de Moradores de sua comunidade, onde já foi secretário e da qual é presidente. 

 

Além disso, o cargo de Ricardo que tem maior destaque é, sem dúvidas, o de membro da diretoria da Feagle. Ele é primeiro secretário e contou em sua entrevista quais são as suas atribuições nesse posto: “compete ao primeiro secretário fazer todos os registros de atas, de relatórios da Federação, bem como também acolher as demandas das comunidades... em outros momentos, como as associações são federadas, quando há trocas de diretoria dessas associações, é o secretário da Federação que elabora as atas, faz registro no cartório é já tem assinatura reconhecida... além do controle, um pouco, da questão de anotações da prestação de contas”. Ricardo acrescenta que esse trabalho exige constante relação interior-cidade, pois o escritório fica em Santarém e pela dificuldade do acesso à internet.

 

O jovem é ainda militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e acompanha o Movimento Tapajós Vivo (MTV). Sua formação acadêmica é em Pedagogia, pois ele, em suas próprias palavras, sempre viu “na educação uma saída. Eu sempre tive essa relação com a educação... eu me identifico muito com a educação popular, que é trabalhar com as lideranças que estão envolvidas no [território]”.

 

Ainda sou jovem e tenho muitos sonhos

 

Atualmente, os pais de Ricardo também moram em Membeca; de seus irmãos, alguns residem em Santarém, devido ao trabalho e aos estudos. Ricardo é solteiro e ainda não pensa em ter filhos. Isso porque, segundo ele, isso exigiria dele uma responsabilidade que ele gosta de dedicar às suas lutas: “eu costumo dizer que como eu tô tão envolvido com as lutas, a minha família são as lutas, são as comunidades, as lideranças da qual a gente tem esse relacionamento nesse trabalho tanto pastoral quanto social... pra ser bem sincero, ainda não pensei que família é essa coisa de ter filhos, porque a responsabilidade aumenta muito mais, e aí, ainda quero ajudar muito mais, sem ter o desamasse que às vezes colete constituir família aí pela responsabilidade a gente precisa parar um pouco mais para dar atenção”. 

 

Sobre seus sonhos, Ricardo falou também, destacando um deles, que é um sonho coletivo, e não apenas seu: o CDRU, título coletivo do PAE Lago Grande. Ele complementou dizendo: “a gente tem consciência de que o território é nosso, porque a gente não foi colocado lá, a gente já estava lá, mas por questão de segurança... o título é importante... e além disso, que as políticas públicas possam ir pra lá, porque a partir da Constituição do PAE, do projeto de assentamento, o INCRA, como órgão federado, do governo, deveria investir na educação, na estrutura, na questão do emprego e renda dentro do território, mas ele não faz isso, e aí acaba levando muitos jovens a se afastarem do território e vindo procurar melhores condições de vida em outros lugares, e que muitas vezes não dá certo, e esse jovem acaba ficando abandonado nas periferias da vida, das cidades, enfim... e para a comunidade local, o sonho é ter ela sempre fortalecida, com lideranças conhecendo de fato como é o território, como ele se organiza e luta sempre por defender... que a gente de fato não sobreviva mais das políticas dos políticos que vão pra lá fazer promessas, enganar, ludibriar, induzir o pensamento de muitas lideranças do território que estão ali sofridas, aguerridas por muito tempo”.

 

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