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Saúde .

A Solidão como ferramenta do Capitalismo

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19/11/2021 16h13
Por: Johnson Portela

O sentido deste texto não é de autoajuda ou de um caminho a ser traçado. Por contrário, a ideia aqui é causar uma reflexão, pois mesmo que as palavras expressas no decorrer da análise pareçam óbvias, às vezes nos falta perceber a própria obviedade em nossas vidas, principalmente quando o princípio que rege a nossa individualidade e, consequentemente a solidão, não sendo algo aleatório, sim sistemático e (in)conscientemente construído em nossas vidas para uma finalidade:  continuar a ser uma engrenagem num sistema.

Lembro-me de uma história (real ou não) que ouvi sobre a origem da comunicação. Se tratava da ideia de um rei que, ao ficar curioso sobre a origem da fala, realizou um teste cruel, decidindo pegar dois recém-nascidos e colocá-los em quartos separados e sozinhos. Todos os dias, eles iriam ser bem alimentados e limpos, porém, ninguém podia se comunicar ou ter afeto com nenhum deles. O plano do rei era examinar que mesmo sem nenhuma interação externa, a criança poderia inventar uma fala própria, no entanto, para a surpresa do terrível rei, mesmo as crianças sendo alimentadas e cuidadas, ambas não sobreviveram por mais de um ano; o rei chegou à mais óbvia das conclusões: precisamos de comunicação entre si, de relacionamentos que gerem afetos - é uma necessidade humana, pois somos seres sociais.

De acordo com Émile Durkheim, um grande sociólogo, no passado, digo, há centenas de anos, tínhamos uma consciência coletiva, um modo de solidariedade natural, pois nesse modelo, a estrutura da sociedade era regida em comunidade, ou melhor, em comunhão, inclusive sem atividades de trabalho mais ou menos importantes. Todos os moradores tinham semelhanças entre si nas suas maneiras de pensar, agir e sentir, gerando uma harmonia estável e uma solidariedade quase que “mecânica”. Já após uma divisão do trabalho em especializado ou não, se tem outra forma de solidariedade bem diferente do passado: se desenvolve aqui a individualidade, agora é substituído pela dependência dos indivíduos em virtude da divisão do trabalho. Trata-se da forma em que as pessoas se mantêm unidas pelas relações de dependência entre si, de modo raso, sua forma solidária de relação, conectada as funções profissionais de cada um, ou seja: os médicos dependem dos químicos, os químicos dependem do advogado, o advogado do policial. Havendo conflitos nessa forma de se socializar, num estado de “anomia”, que se refere à ausência de regras de convivência social.

Para o autor, nesse estado sem regras, estruturado pela sociedade capitalista, têm-se os altos índices de depressão e suicídio. É evidente que há casos de problemas psicológicos, que não é o foco da análise do autor, que realizou pesquisas na Europa em 1897, no auge da segunda revolução industrial, o que Durkheim chama de “suicídio social”: com ausência do afeto, da integração e da substituição por um modelo de acumulação financeira, o sistema mata, ele nos divide em classes, nos segrega, algo também percebido por Karl Marx.

A solidão e o isolamento fazem parte do cotidiano da sociedade, e isso vem desde a família, em muitos os casos. A criança é formada para ser forte, dominante, um “leão” dentro da “selva de pedra”. É preciso ser, antes de tudo, um ser individualista, mandar com rispidez e autoritarismo, sem nenhum sentimentalismo porque todos são apenas “ovelhas prontas para serem abatidas”. Essa construção se legitima por um mercado que é marcado pela disputa, do “eu sou melhor que todos”, do ego está acima de tudo. O pensar também é regido pela regra do individualismo, “meu pensamento deve ser aceito por todos, caso não, todos devem ser meus inimigos”.

A vida é mais que trabalho, que acumulação de bens, precisa-se ir em regresso (progresso) à consciência coletiva e solidaria, em de todas as formas de relacionamentos seja familiar e amoroso. A solidão, hoje, é música, sexualização, força e destreza social. O inverso de solidão é sempre conceituado como dependência sentimental, mas na prática não é: para se formar resiliência, é preciso de um estado de solidariedade de trocas recíprocas de afeto e manutenção inserção de uma consciência coletiva, comunitária, não de disputas de egos. Nesse estado, Freud fala que: “a ligação social se estabelece principalmente pela identificação dos membros entre si”. Não precisamos cair no discurso da “miséria psicológica da Massa”, onde as singularidades são esgotadas e submetidas a uma unificação do desejo, das escolhas, dos modos de apreender o mundo.

       

REFERÊNCIAS

 

BRYM, Robert J. (orgs). Sociologia sua bússola para um novo mundo. São Paulo: Cengage Learning, 2009.

DURKHIEM. Émile. A divisão social do trabalho. Lisboa: Presença, 1984.                   

DURKHIEM. Émile. A ciência social e a ação. São Paulo: Difel, 1975

WEBER. Max. Sociologia. São Paulo: Ática, 1991.

MARX, Karl e ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. Rio de janeiro: Zahar, 1978.

FREUD, S. Além do princípio do prazer. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

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