Sexta, 31 de Dezembro de 2021
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Moradores do PEAEX ARUÃ fazem acampamento para evitar passagem de caminhões madeireiros

Acampados há mais de 10 dias, cobram por mais assistência do poder público e das empresas que atuam na região. Segundo os moradores, melhorias nos ramais, pontes e escolas são as principais necessidades.

30/12/2021 às 15h36 Atualizada em 30/12/2021 às 16h08
Por: Tapajós de Fato
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Moradores do PEAEX ARUÃ fazem acampamento para evitar passagem de caminhões madeireiros

O assentamento Agroextrativista PEAEX ARUÃ, localizado no município de Santarém, no oeste do Pará, foi criado em 2009, com uma área  de 23.632 hectares   e é  acompanhado pelo Enterpa do Estado. Dentro está também a Gleba Nova Olinda 1, que tem um plano de manejo florestal dentro da  área , onde é feito  extração de madeira nas proximidades das comunidades  por várias empresas madeireiras, levando o chamado ouro verde. 

 

A comunidade de São Francisco,  localizada no Alto Aruã, com aproximadamente 43 famílias que vivem na área, tem seus modos de vida totalmente interligados com a  natureza e sua sobrevivência é baseada no extrativismo e pesca artesanal.  A comunidade está organizada  em uma associação que representa legalmente os moradores. 

 

Neste mês , em reunião na comunidade, os moradores decidiram fechar  a estrada que dá acesso às comunidades São Luiz, Sempre Serve e Cachoeira do Aruã ( Arapiuns).

 

Por  volta das 11 horas da manhã do dia 19 de dezembro, os moradores fecharam a estrada em vários pontos para impedir a passagem de caminhões, carretas e carros de empresas madeireiras que exploram a região.  O bloqueio é feito com toras de árvores e guaritas onde só é permitido a passagem dos moradores.

 

A reivindicação dos comunitários é porque os veículos das empresas madeireiras que passam pela estrada estão causando muitos estragos, que prejudicam o ir e vir dos moradores. Os caminhões que trafegam no ramal fazem pessoas de lamas que viram criadouros de mosquitos, como o Aedes Aegypti, que transmite a dengue e outras doenças, gerando risco para a saúde dos moradores.


Outra pauta  é em as pontes existentes na estrada, que estão sem a mínima condição de passar transporte, trazendo perigo para os moradores que precisam se deslocar para os municípios de Juruti e Santarém, sendo que as pontes foram construída pelos próprios comunitários, mais com o tempo as madeiras não estão mais seguras.

 

Os moradores também reivindicam a construção de uma escola para atender as crianças, já que não tem um prédio  padrão, mas sim, um barracão que foi improvisado para que as crianças não ficassem na chuva. 

 

O Tapajós de Fato conversou com comunitários que estão na ação, eles alegam que “nem o poder público municipal e nem essas empresas  constroem uma escola de qualidade para as crianças” e que só são olhado  pelo município em época de eleição, “já que temos eleitores para os dois municípios, juruti e Santarém, mais só vem aqui e levam o nosso voto e nunca mais voltam”.

 

O morador fala também da falta de assistência das empresas com as comunidades, ele diz que elas estão dentro das nossas floresta só levando as nossas riquezas e nos deixando na extrema miséria, só que querem usar as nossas comunidade, e por isso que estamos aqui resistindo contra essas empresas que façam pelo menos um ramal para que nós trafegue com mais segurança, eles só ficam passado nesses carros de luxo  deixando só sofrimento e nada mais”, disse o comunitário.

 

Os moradores já estão em manifestação há 12 dias em uma guarita improvisada.  Um pessoa que está no local desde o início da manifestação, afirmou que até o natal eles passaram lá. Contou as dificuldades que tem passado:  "às vezes, a nossa alimentação é doada por outros comunitários e pessoas que se solidarizam com essa nossa luta, e vamos passar até o ano novo aqui também, enquanto uns ficam aqui, outros vão pescar ou caçar para ver se consegue trazer algo para nossa alimentação”.

 

No dia que essa entrevista foi realizada, os comunitários tinham apenas Bacaba* para se alimentar. O morador disse que: "Esse vai ser nosso almoço, mas nem por isso nós vamos desistir, pois só estamos cobrando o que é nosso por direito, isso é um pedido de socorro'', disse o morador.

*Bacaba é um fruto da palmeira bacabeira, típica da floresta amazônica, seus frutos são parecidos com açaí, inclusive o modo de preparo.

 

Durante todos esses dias que os comunitários fecharam a estrada, apenas uma empresa os procurou, no entanto, os moradores alegam que outras madeireiras exploram a área, e que não sabem por onde eles estão saindo com os carros deles: "nós não queremos violência, mas sim, ter um diálogo com eles e até mesmo com o poder público do município",disse o coordenador da associação

Segundo informações obtidas com moradores da comunidade, está marcada uma reunião na comunidade para o dia 05 de janeiro com os empresários que trafegam no ramal, e se possível solucionar esses problemas.

 

“Nós vamos continuar aqui e só sairemos com uma resposta, nós não estamos impedindo os moradores passar ou pessoas que vão pra Cachoeira do Aruã, somente são os carros das empresas, nós temos esse direito de manifestar sim, a comunidade é nossa e nós vamos  resistir até o final”.

 

 

 

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