Domingo, 23 de Janeiro de 2022
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Santarena de 70 anos recebe troféu no Melhores do Ano da rede Globo

Dona Odila, moradora da Comunidade Anã, na região do Arapiuns, recebeu o troféu como um reconhecimento por toda dedicação para fortalecer a economia das mulheres e o cuidado com a natureza.

03/01/2022 às 20h38
Por: Tapajós de Fato Fonte: Tapajós de Fato
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Santarena de 70 anos recebe troféu no Melhores do Ano da rede Globo

Aos 70 anos, Maria Odila Dos Santos Godinho, moradora da comunidade Anã, na região do Arapiuns, em Santarém, oeste paraense,  recebeu no último domingo, no programa Domingão com Hulk, da Rede Globo, o troféu na categoria Inspiração- Empreendedorismo Social. Para a categoria, cerca de 150 pessoas foram indicadas, mas um júri escolheu apenas três para receber o prêmio.

 

Dona Odila sempre foi uma defensora da Amazônia, morou muitos anos em São Paulo, mas  sentiu que precisava voltar para seu território para, desta forma, contribuir com seu povo.  Assim, ela começou a desenvolver diversas atividades principalmente com mulheres da região do Arapiuns, para geração de renda a partir, principalmente do artesanato, mas também com outras atividades sustentáveis, pois a região tem grande potencial, como o turismo de base comunitária e agroecologia. 

 

Além da geração de renda as atividades desenvolvidas são também uma forma  que Dona Odila, juntamente com as outras pessoas que atuam junto com ela, se contrapõem ao modelo capitalista de desenvolvimento que é projetado para os territórios da Amazônia.

 

Durante a premiação foi falado sobre a  Turiarte Amazônia, uma cooperativa de mulheres que produz artesanato e gere uma pousada de base comunitária. A criação cooperativa foi importante pois, desta forma, os serviços e produções das mulheres do Arapiuns pôde ser projetado de uma escala local para mundial.

 

Quando a Turiarte Amazônia foi criada, ela contava com cerca de 70 pessoas de 7 comunidades. O sucesso  fez com que, atualmente, a cooperativa conte com pessoas de 12 comunidades que são, além do rio Arapiuns, do Amazonas e do Tapajós.

 

Dona Odila sempre sonhou alto e já conseguiu até apoio internacional para a cooperativa desenvolver atividades.

 

Durante a premiação, a santarena deixou um recado: “O trabalho que a gente precisa fazer com o ser humano é parar de falar eu e olhar para o meu umbigo. É falar de nós, sentar no lugar de cada pessoa, de cada necessidade, e ajudar naquilo que nós podemos. Dividir o que temos, conhecimento, o nosso tempo, o nosso amor e paciência”- disse a premiada.

 

Quem não escondeu a alegria de ver toda a luta e Dona Odila ser reconhecida na maior emissora de TV do Brasil  foi Caetano Scannavino, coordenador do Projeto Saúde Alegria, que também apoia as atividades da Turiarte Amazônia. "Um exemplo de pessoa batalhadora que sua a camisa para ver e fazer as coisas acontecerem e também inspira outras pessoas a terem boas iniciativas, multiplica o bem, multiplica as coisas, portanto, nada mais justo do que essa premiação”. 

 

Caetano falou também que o reconhecimento é uma oportunidade para que o “eixo Rio- São Paulo, o centro econômico que forma opinião, tem para aprender um pouquinho mais, com os povos, a realidade dessa Amazônia, para a gente poder estar interagindo com ela de forma mais inteligente, de forma mais racional”. Caetano finaliza dizendo que o desafio é velho, “nacionalizar a Amazônia e amazonizar o mundo” e que Dona Odila “é a voz da Mulher amazônida, a voz dos povos da Amazônia”.



Além da Turiarte, dona Odila também faz parte do Musa (Mulheres Sonhadoras em Ação), uma iniciativa de mulheres da comunidade de Anã para criação do peixe Tambaqui. Uma parte da produção atende o consumo da própria comunidade e a outra é destinada à geração de renda. Foi neste projeto que ela Dona Odila e Ivete Bastos, que estava no primeiro mandato como presidenta do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Santarém e que agora está assumindo pela terceira vez o cargo de presidenta, ficaram mais próximas, depois, quando foi Secretária  da Produção Familiar, em Santarém, as duas estreitaram ainda mais as relações.

 

Ivete Bastos também falou da felicidade de ver o reconhecimento ao trabalho desenvolvido pela amiga. Ela conta que Dona Odila sempre “acreditou que era possível trabalhar a sustentabilidade lá mesmo na criação do peixe, através da diversidade que nós temos das florestas, que fosse desenvolvido uma ração mais barata e eficiente que pudesse responder a necessidade do peixe”, mas que não custasse  tão caro como a criação dos cativeiros tradicionais.

 

Ivete Bastos fez questão de ressaltar  que a luta de Dona Odila sempre foi para além da geração de renda, mas também “de um apelo ambiental, social”. Por volta de 2015 Ivete e Odila gravaram juntas um documentário chamado “As guardiãs da floresta” onde ela fala sobre as vidas delas nos territórios tradicionais.

 

Ivete relembra que um dos anseios de Dona Odila sempre foi a legalização da cooperativa, para abrir  ainda mais os horizontes, ela diz que se sente “ muito feliz e representada também pela Dona Odila”. 

 

A presidenta do Sindicato diz ainda que sua admiração é maior ainda porque Dona Odila “sempre acreditou na terra, na floresta  e também por conseguir organizar as mulheres, pois não é fácil”, Ivete Bastos falou isso porque, segundo ela, muitas mulheres sofrem violência doméstica “porque não se sentem protagonistas de sua própria história  e por isso não tem uma autonomia financeira”, e essa é umas da lutas de Dona Odila. “Além do respeito pelos ancestrais”- disse Ivete Bastos.

 

Dona Odila na Turiarte e Ivete Bastos na AMTR (Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais). Como já falado, a cooperativa atua com o turismo e artesanato, sempre respeitando a floresta, já a Associação tem como pauta principal a agroecologia, apesar de ambas organizações terem pouco tempo de atuação, seus resultados já são notados. Ivete Bastos conta que  os sonhos da cooperativa e associação “são muito parecidos, no sentido de valorizar a agroecologia e fazer esse trabalho contrapondo esse sistema capitalista do agronegócio que se impõe”.

 

Ivete conta que o objetivo é “fazer com que “os produtos lá das florestas sejam valorizados, a sua história, as mãos que estão produzindo, os sofrimentos também”, pois os artesanatos feitos a partir da palmeira do tucumã têm muitos espinhos,  que exigem alguns processos e que muitas vezes espetam  as mãos de quem faz os trançados. “Tudo que tem alguns obstáculos é o que nos engrandece” disse Ivete.

Dona Odila foi caracterizada por sua amiga como “uma mulher múltipla”, por conta das transformações que gerou na vida de muitas pessoas. Ivete Bastos finaliza  falando que “com várias Odilas nesses territórios da Amazônia, a nossa floresta terá muitos guardiãs como ela, a gente espera que mulheres e homens sejam guardiãs e guardiões do nosso território amazônico”.

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